{"id":790,"date":"2021-04-13T22:47:03","date_gmt":"2021-04-14T01:47:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/?p=790"},"modified":"2021-04-13T23:23:25","modified_gmt":"2021-04-14T02:23:25","slug":"ensino-de-ciencias-descolonizado-espaco-de-todos-os-saberes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2021\/04\/13\/ensino-de-ciencias-descolonizado-espaco-de-todos-os-saberes\/","title":{"rendered":"Ensino de ci\u00eancias descolonizado: espa\u00e7o de todos os saberes"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size\"><em>texto escrito por Gildo Girotto Junior, Mariana Bercht e Gian Carlo Guadagnin<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201c\u00c9 necess\u00e1rio estarmos sempre abertos a novos enfoques, novas metodologias, a novas vis\u00f5es do que \u00e9 ci\u00eancia e da sua evolu\u00e7\u00e3o, o que resulta de uma historiografia din\u00e2mica\u201d<\/em>. (Ubiratan D\u2019Ambr\u00f3sio, 2002)<\/p>\n\n\n\n<p>Os conhecimentos desenvolvidos por povos antigos sobre o uso do solo, ou sobre a produ\u00e7\u00e3o de sab\u00e3o ou ainda sobre a utilidade de plantas no tratamento de doen\u00e7as podem ser considerados cient\u00edficos? Dentro da amplitude de conceitos da hist\u00f3ria que nos s\u00e3o ensinados, estudamos aspectos da cultura afro, ind\u00edgena ou quilombola, que, no caso do Brasil, s\u00e3o comunidades que nos d\u00e3o origem? Neste texto, buscamos trazer um pouco de como algumas destas quest\u00f5es t\u00eam sido tratadas como constru\u00e7\u00f5es de conhecimento. Al\u00e9m disso, falaremos no texto de hoje, sobre a forma como pensamos o seu ensino.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Conhecimentos daqui e de l\u00e1<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Como professor universit\u00e1rio, costumo participar de in\u00fameras bancas de defesas de tese. Recentemente, em uma bancas, ouvi um relato de que um pesquisador (homem e branco) chegou \u00e0 aldeia ind\u00edgena para fazer um trabalho de preserva\u00e7\u00e3o ambiental. Pareceu-me estranho. Como algu\u00e9m que viveu em uma metr\u00f3pole quer ensinar algu\u00e9m que se utiliza dos recursos naturais de modo sustent\u00e1vel, sobre como preservar o ambiente? Mas, tudo bem, sigamos no relato. Uma das a\u00e7\u00f5es sugeridas pelo pesquisador era que os \u00edndios n\u00e3o queimassem o baga\u00e7o dos alimentos na \u00e1rea de plantio, ap\u00f3s a realiza\u00e7\u00e3o da colheita. Prontamente a comunidade ind\u00edgena indignou-se e explicou ao pesquisador sobre a necessidade daquele processo para a continuidade das pr\u00f3ximas safras.<\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7o o texto com este pequeno relato para ilustrar um pouco de como aquilo que conhecemos possui limita\u00e7\u00f5es. Isto \u00e9, nem sempre compreende aquilo que culturalmente se desenvolve nos mais variados meios sociais. A pr\u00e1tica dos ind\u00edgenas envolve um conhecimento da experi\u00eancia, constru\u00eddo ao longo de muitos anos. Provavelmente os moradores da aldeia n\u00e3o iriam explicar que a queimada faz com que elementos e subst\u00e2ncias qu\u00edmicas essenciais ao solo sejam liberados. Tampouco explicariam que os produtos da combust\u00e3o geram \u00f3xidos b\u00e1sicos que controlam o pH que, para aquela determinada planta, apresenta-se como ideal. Mas a a\u00e7\u00e3o da tribo nos diz muito.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\"><span style=\"color:#ffffff\" class=\"tadv-color\"><span style=\"background-color:#0693e3\" class=\"tadv-background-color\">Definir o que \u00e9 ci\u00eancia e o que ela estuda n\u00e3o s\u00e3o tarefas f\u00e1ceis.<\/span><\/span><\/h5>\n\n\n\n<p>No entanto, podemos aqui considerar que existe um conjunto de conhecimentos produzidos ao longo da hist\u00f3ria. Tais produ\u00e7\u00f5es se d\u00e3o por diferentes sujeitos e em diferentes culturas, utilizando-se de metodologias diferentes. S\u00e3o, portanto, conhecimentos contextualizados. Tal produ\u00e7\u00e3o \u00e9 importante para as sociedades pois permitem o seu desenvolvimento tecnol\u00f3gico, cultural, social e carregam caracter\u00edsticas espec\u00edficas das localidades.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, se pensarmos o conhecimento que nos \u00e9 ensinado na escola, notamos que ele se restringe \u00e0quele produzido por algumas sociedades. Sociedades estas que, em geral, s\u00e3o as dominantes. A qu\u00edmica escolar, por exemplo, ainda n\u00e3o considera (de modo geral) os conhecimentos de comunidades tradicionais (como as ind\u00edgenas, por exemplo). E isso ocorre porque tais comunidades n\u00e3o se utilizam de um m\u00e9todo reconhecido por uma comunidade cient\u00edfica e assim, n\u00e3o podem ser considerados <em>ci\u00eancia<\/em>.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Todavia, retornemos \u00e0 ideia de que \u201cconhecimentos s\u00e3o produzidos ao longo da hist\u00f3ria por diferentes sujeitos\u201d. Neste caso, haveria espa\u00e7o para pensarmos em conhecimentos qu\u00edmicos produzidos por comunidades tradicionais e, como consequ\u00eancia, que estes tamb\u00e9m poderiam fazer parte do ensino escolar?<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Etnoci\u00eancia<\/h5>\n\n\n\n<p>Tal questionamento nos leva a estudos diversos que t\u00eam considerado a denominada <em>etnoci\u00eancia<\/em> (da qual fazem parte a etnoqu\u00edmica, etnomatem\u00e1tica, etnobiologia, etc). Ela se pauta no estudo dos conhecimentos tradicionais constru\u00eddos por popula\u00e7\u00f5es humanas, que se relacionam aos processos naturais e a coopera\u00e7\u00e3o entre ser humano e ambiente. Tratamos aqui, portanto, de conhecimentos produzidos pelos seres humanos de modo geral. Isto \u00e9, n\u00e3o apenas aqueles produzidos por europeus, brancos, com laborat\u00f3rios em grandes centros de pesquisa e universidades.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Obviamente, n\u00e3o se trata de desconsiderar a produ\u00e7\u00e3o humana proveniente de ci\u00eancias como a qu\u00edmica, a f\u00edsica e a biologia. Mas compreender que para al\u00e9m delas outras formas de desenvolvimento de saberes, relacionadas diretamente \u00e0 atividade humana, s\u00e3o poss\u00edveis. O ensino dessa \u201coutra parte\u201d faz-se necess\u00e1rio para que aspectos culturais sejam preservados e sua import\u00e2ncia seja ressaltada. Trata-se aqui de descolonizar saberes e pensar o trabalho considerando uma perspectiva intercultural.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Legalmente falando<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Em termos do ensino escolar, a Lei no 11.645\/08, de 10 de mar\u00e7o de 2008 estabeleceu a obrigatoriedade do estudo da hist\u00f3ria e cultura afro-brasileira e ind\u00edgena em todo o curr\u00edculo escolar. Apesar do foco nas \u00e1reas de artes, hist\u00f3ria e literatura, podemos considerar esse marco expans\u00edvel \u00e0s demais \u00e1reas. Portanto, trabalhar a produ\u00e7\u00e3o de conhecimentos dentro da perspectiva da etnoqu\u00edmica em sala de aula \u00e9 n\u00e3o apenas necess\u00e1rio como legalmente institu\u00eddo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de a aprova\u00e7\u00e3o da lei ter ocorrido h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada, notamos pouca inser\u00e7\u00e3o de conhecimentos tradicionais em espa\u00e7os de sala de aula. Sobre isso, muitas quest\u00f5es podem ser apontadas. Tais como a aus\u00eancia de materiais did\u00e1ticos e forma\u00e7\u00e3o dos profissionais da educa\u00e7\u00e3o para que atuem dentro desse cen\u00e1rio espec\u00edfico. Afinal, pelo longo tempo que passamos aprendendo apenas \u201cconhecimentos colonizados\u201d nossa forma\u00e7\u00e3o pessoal mesma nos torna incapaz de atuar, como professores, frente a esse contexto. Nesse sentido, precisamos de aux\u00edlio.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Entre o falar e o fazer<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Provavelmente as nossas primeiras tentativas de integrar conhecimentos tradicionais ao curr\u00edculo escolar ser\u00e3o falhas. N\u00e3o se trata de pessimismo, mas de compreender que o processo de descoloniza\u00e7\u00e3o dos saberes e pr\u00e1ticas \u00e9 tamb\u00e9m um processo de aprendizado. No entanto, \u00e9 poss\u00edvel olhar trabalhos que j\u00e1 foram desenvolvidos, compreender seus erros e repensar propostas. Afinal, \u00e9 esse o trabalho com educa\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;Tenho tido acesso, na \u00e1rea da qu\u00edmica \u00e0s mais diversas produ\u00e7\u00f5es. Isso inclui relatos de experi\u00eancias que discutem aspectos mais gerais, como preserva\u00e7\u00e3o ambiental e uso sustent\u00e1vel da terra. Ou ainda aos diferentes m\u00e9todos de produ\u00e7\u00e3o de alimentos em comunidades ind\u00edgenas e quilombolas. Bem como, quest\u00f5es mais espec\u00edficas da qu\u00edmica como o estudo de propriedades f\u00edsico-qu\u00edmicas do urucum no uso como protetor solar. Destaco, aqui, os trabalhos da professora Anita Canavarro Benite. Esta pesquisadora, junto ao seu grupo de pesquisa vem desenvolvendo e publicando pesquisas e relatos de experi\u00eancias em sala de aula.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesses caminhos dif\u00edceis, de reestrutura\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias, o importante \u00e9 reconhecermos, como destaca a primeira frase deste texto, a necessidade de revisitarmos os sentidos da ci\u00eancia e as diferentes historiografias que a constr\u00f3i.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Para saber mais:&nbsp;<\/h2>\n\n\n\n<p>ALVINO, ACB; MOREIRA, MB; LIMA, GLM; SILVA, AG; MOURA, AR; Benite, Anna Maria Canavarro (2020) Qu\u00edmica Experimental e a Lei 10.639\/2003: a inser\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria e cultura africana e afro-brasileira no ensino de Qu\u00edmica. <strong>QU\u00cdMICA NOVA NA ESCOLA (IMPRESSO)<\/strong>, v42, p136-146.<\/p>\n\n\n\n<p>SILVA, JP, ASSIS, GAF, ALVINO, ACBATISTA, BENITE, CRM, BENITE, AMC (2020) Leite em -mama- \u00c1frica e a Educa\u00e7\u00e3o para as Rela\u00e7\u00f5es \u00c9tnico-Raciais (ERER) no Ensino de Qu\u00edmica. <strong>QU\u00cdMICA NOVA NA ESCOLA (IMPRESSO)<\/strong>, v42, p4-12.<\/p>\n\n\n\n<p>KUNDLATSCH, A, SILVEIRA, C (2018) Interculturalidade e ensino de qu\u00edmica: considera\u00e7\u00f5es sobre uma atividade did\u00e1tica envolvendo a cultura ind\u00edgena. Revista Eletr\u00f4nica Cient\u00edfica Ensino Interdisciplinar. Mossor\u00f3, v4, n12.<\/p>\n\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>texto escrito por Gildo Girotto Junior, Mariana Bercht e Gian Carlo Guadagnin \u201c\u00c9 necess\u00e1rio estarmos sempre abertos a novos enfoques, novas metodologias, a novas vis\u00f5es <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2021\/04\/13\/ensino-de-ciencias-descolonizado-espaco-de-todos-os-saberes\/\" title=\"Ensino de ci\u00eancias descolonizado: espa\u00e7o de todos os saberes\">[&#8230;]<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":411,"featured_media":791,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_eb_attr":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[64,3],"tags":[6,303,7,301,302],"class_list":["post-790","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-educacao","category-educacao-em-ciencia","tag-ciencia","tag-conhecimento-cientifico","tag-educacao-em-ciencias","tag-ensino-tradicional","tag-etnociencia"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-content\/uploads\/sites\/150\/2021\/04\/Captura-de-tela-de-2021-04-13-22-43-40.png","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/790","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/users\/411"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=790"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/790\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":793,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/790\/revisions\/793"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/media\/791"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=790"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=790"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=790"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}