{"id":92,"date":"2018-01-24T19:26:14","date_gmt":"2018-01-24T21:26:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/?p=92"},"modified":"2020-05-08T22:57:03","modified_gmt":"2020-05-09T01:57:03","slug":"genero-sexualidade-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2018\/01\/24\/genero-sexualidade-3\/","title":{"rendered":"Precisamos falar de g\u00eanero e sexualidade na escola? (Parte 3)"},"content":{"rendered":"<p>Ser\u00e1 que falar de g\u00eanero e sexualidade \u00e9 importante quando estudamos sa\u00fade, reprodu\u00e7\u00e3o e preven\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as e gravidez na adolesc\u00eancia? Nos \u00faltimos dois posts sobre o tema, falamos sobre os conceitos g\u00eanero, sexualidade e corpo, apontando suas rela\u00e7\u00f5es entre biologia, cultura e sociedade. A pr\u00f3xima quest\u00e3o para responder esta pergunta do t\u00edtulo \u00e9: e a sa\u00fade sexual e reprodutiva destes adolescentes escolares? Como anda?<\/p>\n<p>O Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE) tem publicado desde 2009 a PeNSE \u2013 Pesquisa Nacional de Sa\u00fade do Escolar (indica\u00e7\u00e3o e links no final do post). Esta pesquisa tem buscado apresentar e analisar dados de escolares brasileiros (Amostra 1: alunos do 9\u00ba ano do Ensino Fundamental; Amostra 2: estudantes de 13 a 17 anos, em sua s\u00e9rie correspondente na escola) em diferentes aspectos. H\u00e1 muitos itens no estudo: biometria, nutri\u00e7\u00e3o, aspectos socioecon\u00f4micos, pr\u00e1ticas de atividades f\u00edsicas, uso de drogas (l\u00edcitas e il\u00edcitas), higiene pessoal e familiar&#8230; Em especial destaco o que nos interessa aqui: <strong>Sa\u00fade sexual e reprodutiva<\/strong>.<\/p>\n<p>No ano de 2015, para os escolares brasileiros de 13 a 15 anos (final do Ensino Fundamental e in\u00edcio do Ensino M\u00e9dio), a PeNSE apresentou como dados:<\/p>\n<ul style=\"list-style-type: circle;\">\n<li>27% j\u00e1 teve rela\u00e7\u00f5es sexuais;<\/li>\n<li>59,7% dos jovens usaram preservativos na primeira rela\u00e7\u00e3o sexual;<\/li>\n<li>60,3% usaram preservativos na \u00faltima rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Para os escolares brasileiros entre 16 e 17 anos (estudantes do Ensino M\u00e9dio, em sua maioria)<\/p>\n<ul>\n<li>54,7% j\u00e1 teve rela\u00e7\u00f5es sexuais;<\/li>\n<li>68,2% dos jovens usaram preservativos na primeira rela\u00e7\u00e3o sexual;<\/li>\n<li>65,6% usaram preservativo na \u00faltima rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Estes n\u00fameros apontam que nossos adolescentes t\u00eam uma vida sexual ativa e n\u00e3o necessariamente cuidando de si, de sua sa\u00fade e de seus corpos. Onde se encaixa a ideia de g\u00eanero, sexualidade e corpo, neste contexto?<\/p>\n<p>Ora! A viv\u00eancia da pr\u00e1tica sexual n\u00e3o \u00e9 um ato meramente reprodutivo \u2013 se abordarmos somente por este motivo, j\u00e1 podemos apontar o qu\u00e3o raso \u00e9 tratar disso somente no campo da biologia&#8230; A viv\u00eancia da pr\u00e1tica sexual envolve prazer, descoberta do corpo, do desejo e, tamb\u00e9m, do afeto ligado \u00e0 atra\u00e7\u00e3o pelo corpo de outros sujeitos. J\u00e1 discutimos no primeiro post o quanto somos formados (ou constitu\u00eddos) \u2013 biologicamente e culturalmente \u2013 como sujeitos m\u00faltiplos. Isto \u00e9: n\u00e3o h\u00e1 argumentos que sustentem nossa defini\u00e7\u00e3o, enquanto esp\u00e9cie, dentro de dois g\u00eaneros. Muito menos, tachando a heterossexualidade como \u00fanica regra v\u00e1lida e toler\u00e1vel (biologicamente ou socialmente falando).<\/p>\n<p>A partir disto, temos por um lado dados contundentes de que nossos jovens est\u00e3o se expondo ao risco de doen\u00e7as e gravidezes, exatamente no contexto de descoberta de sua viv\u00eancia sexual. Por outro lado, temos um conjunto de compreens\u00f5es cient\u00edficas \u2013 de diferentes campos de conhecimento \u2013 que nos mostram que g\u00eanero e sexualidade n\u00e3o s\u00e3o quest\u00f5es simples de serem definidas como verdades absolutas, mas est\u00e3o sendo VIVIDAS por estes jovens.<\/p>\n<p>Tratar do tema \u201csa\u00fade sexual e reprodutiva\u201d somente partindo das quest\u00f5es prescritivas (com os dizeres \u201cuse camisinha\u201d, ou pior: \u201cn\u00e3o transe\u201d, por exemplo), n\u00e3o possibilita ao jovem que ele compreenda seu corpo e as mudan\u00e7as hormonais e seus efeitos. Muito menos as implica\u00e7\u00f5es sociais desta fase que est\u00e1 vivendo, em sua complexidade, social, biol\u00f3gica e cultural. E neste contexto me interrogo: que condi\u00e7\u00f5es este adolescente tem de avaliar e decidir sobre o uso de preservativo? Apenas por n\u00f3s \u2013 adultos respons\u00e1veis, professores e pais \u2013 termos dito que \u00e9 necess\u00e1rio usar? Isso faz sentido para algum de voc\u00eas?<\/p>\n<p>N\u00e3o estamos tratando aqui de uma \u201cgarantia\u201d de que os jovens v\u00e3o se cuidar a partir de um ensino que aborde as quest\u00f5es de g\u00eanero e sexualidade. A ideia \u00e9 que o tema abordado a partir da simplifica\u00e7\u00e3o da sa\u00fade reprodutiva, sem conex\u00e3o com quest\u00f5es que est\u00e3o sendo vividas por estes jovens \u2013 n\u00f3s queiramos ou n\u00e3o&#8230; \u2013 torna o problema distante e sem qualquer v\u00ednculo com as d\u00favidas e anseios desta popula\u00e7\u00e3o. E veja: os n\u00fameros j\u00e1 nos indicam que eles est\u00e3o se relacionando sexualmente.<\/p>\n<p>Vou trazer, se me permitem, um outro dado alarmante da PeNSE 2015, em um item nomeado &#8220;<strong>Rela\u00e7\u00e3o Sexual For\u00e7ada<\/strong>&#8220;:<\/p>\n<p>Entre os escolares do 9\u00ba ano, 4,0% afirmam j\u00e1 terem sido for\u00e7ados a ter rela\u00e7\u00e3o sexual. Sendo 3,7% para os meninos e 4,3% para as meninas. E quem ser\u00e1 que violentou estes jovens? Segundo as respostas, os maiores percentuais foram: namorado(a)\/ex-namorado(a) (26,6%); amigo(a) (21,8%); pai\/m\u00e3e\/padrasto\/ madrasta (11,9%); e outros familiares (19,7%).<\/p>\n<p>O reconhecimento da viola\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio corpo se d\u00e1 em diferentes n\u00edveis. E isto pode afetar a imagem corporal, a auto estima, a compreens\u00e3o do desenvolvimento sexual e do que \u00e9 viv\u00eancia sexual (sadia e prazerosa, como deveria ser). Tudo isto n\u00e3o passaria por aprendermos sobre como nos reconhecemos, enquanto sujeitos, diante da sociedade? Ou de como nosso corpo \u00e9 nosso e deve ser respeitado em sua integralidade?<\/p>\n<p>Estas quest\u00f5es passam, necessariamente, pela no\u00e7\u00e3o de g\u00eanero e sexualidade enquanto conceito social, biol\u00f3gico e cultural \u2013 e sua rela\u00e7\u00e3o com as experi\u00eancias individuais. Ou seja: quem somos e como vivemos nosso corpo. Como (e quem) desejamos sexualmente e os motivos de termos que ser respeitados por isso. Quem pode ou n\u00e3o pode manusear nosso corpo, de que forma isso pode ser feito, o que \u00e9 consentimento, afeto, viol\u00eancia, abuso&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 fundamental ressaltar que estes dados de viol\u00eancia sexual* apontam 80% dos agressores como pessoas pr\u00f3ximas \u00e0 v\u00edtima. Seria, ent\u00e3o, o espa\u00e7o familiar o \u00fanico que deveria ser respons\u00e1vel para ensinar os adolescentes sobre quest\u00f5es de g\u00eanero, sexualidade, corpo e sa\u00fade sexual, quando \u2013 al\u00e9m de preven\u00e7\u00f5es de IST\u2019s e gravidez \u2013 estamos falando, tamb\u00e9m, de outros aspectos sociais que abarcam a viv\u00eancia destes jovens com seus corpos?<\/p>\n<p>Sim, tratar de g\u00eanero e sexualidade no espa\u00e7o escolar abarca sa\u00fade sexual e reprodutiva, bem como viol\u00eancia sexual, em diversidade de \u00e1reas de saber e possibilidades de viv\u00eancias mais sadias, tanto socialmente, quanto individualmente, para nossos jovens!<\/p>\n<p>*Eu marco aqui minha prefer\u00eancia em utilizar o termo \u201c<strong>Viol\u00eancia Sexual<\/strong>\u201d, ou mesmo \u201c<strong>Estupro<\/strong>\u201d, ao contr\u00e1rio de \u201c<strong>Rela\u00e7\u00e3o Sexual For\u00e7ada<\/strong>\u201d, que \u00e9 usada no PeNSE. N\u00e3o me parece forte o suficiente para apontar a gravidade da situa\u00e7\u00e3o, o termo apresentado no estudo. \u00c9 viol\u00eancia, \u00e9 estupro \u2013 e contra menores de idade. \u00c9 necess\u00e1rio demarcar, com toda a gravidade que cabe a este tema.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Para saber mais:<\/strong><\/p>\n<p>IBGE. 2009. Pesquisa Nacional de Sa\u00fade do Escolar: 2009. Rio de Janeiro: IBGE. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/biblioteca.ibge.gov.br\/visualizacao\/livros\/liv43063.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/biblioteca.ibge.gov.br\/visualizacao\/livros\/liv43063.pdf<\/a>. Acesso em: 24\/01\/2018<\/p>\n<p>IBGE. 2013. Pesquisa Nacional de Sa\u00fade do Escolar: 2012. Rio de Janeiro: IBGE. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/biblioteca.ibge.gov.br\/visualizacao\/livros\/liv64436.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/biblioteca.ibge.gov.br\/visualizacao\/livros\/liv64436.pdf<\/a>. Aesso em: 24\/01\/2018.<\/p>\n<p>IBGE. 2016. Pesquisa Nacional de Sa\u00fade do Escolar: 2015. Rio de Janeiro: IBGE. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/biblioteca.ibge.gov.br\/visualizacao\/livros\/liv97870.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/biblioteca.ibge.gov.br\/visualizacao\/livros\/liv97870.pdf<\/a>. Acesso em: 24\/01\/2018.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Posts anteriores:<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2017\/12\/15\/genero-sexualidade-escola-1\/\">Precisamos falar de g\u00eanero e sexualidade na escola? (Parte 1)<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2018\/01\/09\/genero-sexualidade-escola-2\/\">Precisamos falar de g\u00eanero e sexualidade na escola? (Parte 2)<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Varia\u00e7\u00f5es sobre o tema:<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2018\/01\/19\/cultura-do-estupro-1\/\">Sobre a Cultura do Estupro: senta aqui, vamos conversar&#8230;<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Ser\u00e1 que falar de g\u00eanero e sexualidade \u00e9 importante quando estudamos sa\u00fade, reprodu\u00e7\u00e3o e preven\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as e gravidez na adolesc\u00eancia? Nos \u00faltimos dois posts <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/2018\/01\/24\/genero-sexualidade-3\/\" title=\"Precisamos falar de g\u00eanero e sexualidade na escola? (Parte 3)\">[&#8230;]<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":296,"featured_media":591,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_eb_attr":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[17,142],"tags":[35,26,5,27,18,34,33,19,31],"class_list":["post-92","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-genero-e-sexualidade","category-genero-e-sexualidade-na-escola","tag-adolescencia","tag-corpo","tag-cultura","tag-escola","tag-genero","tag-saude-reprodutiva","tag-saude-sexual","tag-sexualidade","tag-sociedade"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-content\/uploads\/sites\/150\/2018\/01\/estudo.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/92","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/users\/296"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=92"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/92\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":310,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/92\/revisions\/310"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/media\/591"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=92"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=92"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/pemcie\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=92"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}