{"id":995,"date":"2023-11-28T15:24:33","date_gmt":"2023-11-28T18:24:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/planteia\/?p=995"},"modified":"2023-11-28T21:09:54","modified_gmt":"2023-11-29T00:09:54","slug":"diario-de-israel-7","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/planteia\/diario-de-israel-7\/","title":{"rendered":"Di\u00e1rio de Israel #7: J\u00e1 estivemos aqui antes"},"content":{"rendered":"\n<h6><em><strong data-rich-text-format-boundary=\"true\">Para dar o tom:&nbsp; <\/strong><\/em><b><i>&#8220;Sign of the Times&#8221;, de Harry Styles<\/i><\/b><\/h6>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer eplus-wrapper\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na sexta-feira, dia 06 de outubro de 2023, eu esbo\u00e7ava mentalmente uma entrada no di\u00e1rio sobre o medo de bombas, mencionado na postagem anterior <strong><em><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/planteia\/6-de-pe-no-chao\/\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/planteia\/6-de-pe-no-chao\/\">De p\u00e9 no ch\u00e3o<\/a><\/em><\/strong>. Refleti sobre a serenidade dos primeiros meses em Israel, interrompida pelos bombardeios de maio de 2021.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu estava em Israel h\u00e1 seis meses e a crise entre Israel-Palestina parecia distante. A pandemia estava no auge e vencer a COVID-19 parecia um risco mais iminente do que uma guerra. Enquanto no Brasil, a vacina\u00e7\u00e3o ainda avan\u00e7ava lentamente nos grupos priorit\u00e1rios, eu j\u00e1 estava imunizada com duas doses da vacina da Pfizer. A rotina de trabalho seguia sem restri\u00e7\u00f5es e eu me sentia segura.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mesmo com a calmaria aparente, Reut \u2015 uma das estudantes no meu laborat\u00f3rio \u2015 considerou que era hora de me familiarizar com uma mamad (acr\u00f4nimo do hebraico &#8220;<strong>merhav mugan dirati<\/strong>&#8220;, que significa espa\u00e7o protegido em pr\u00e9dios). Essa decis\u00e3o foi tomada depois de um debate acalorado entre aqueles que achavam o assunto desagr\u00e1vel para depois de um almo\u00e7o pregui\u00e7oso.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote eplus-wrapper\"><blockquote><p>A <strong>mamad<\/strong> representa o ep\u00edtome da vida do cidad\u00e3o israelense <\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao entrar na sala de estudos, sempre animada com alunos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e com a porta sempre aberta, surpreendi-me ao encontrar ali uma mamad. Estrategicamente localizada no centro do corredor e ao lado da escada de inc\u00eandio, a mamad \u00e9 acess\u00edvel aos pesquisadores distribu\u00eddos em tr\u00eas grandes laborat\u00f3rios. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No edif\u00edcio Nella &amp; Leon Benoziyo de Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas, onde trabalho, h\u00e1 quatro mamadim (plural de mamad) por andar, totalizando seis andares. Em todo o campus do Instituto Weizmann de Ci\u00eancia, existem onze miklatim (plural de miklat, abrigo anti-bombas) e seis mamadim em espa\u00e7os p\u00fablicos, como estacionamentos e jardins.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Logo depois do estabelecimento do Estado de Israel (1951), a constru\u00e7\u00e3o de abrigos antibombas j\u00e1 era incentivada em todo o pa\u00eds. Em 1992, tornou-se obrigat\u00f3ria a constru\u00e7\u00e3o de mamadim em todas as unidades habitacionais, e hoje mais de 40% das resid\u00eancias est\u00e3o em conformidade com a lei.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A mamad \u00e9 um quarto de cinco a doze metros quadrados, com paredes, piso e teto revestidos por 20 a 40 cent\u00edmetros de concreto maci\u00e7o, al\u00e9m de uma porta de a\u00e7o que se abre para fora e uma janela \u00e0 prova de explos\u00f5es em formato quadrado, tamb\u00e9m revestida com a\u00e7o. As vers\u00f5es mais modernas incluem at\u00e9 um sistema de ventila\u00e7\u00e3o para ataques biol\u00f3gicos e qu\u00edmicos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No ambiente dom\u00e9stico, a mamad desempenha diversos pap\u00e9is, desde quarto de crian\u00e7a, quarto de visitas, escrit\u00f3rio, sala de televis\u00e3o at\u00e9 simples quartos de bagun\u00e7a. Em edif\u00edcios mais antigos, como o meu atual, contamos com uma miklat comunal localizada no primeiro piso, utilizada pelos cond\u00f4minos como um espa\u00e7o extra de armazenamento.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/planteia\/wp-content\/uploads\/sites\/170\/2023\/11\/shelter2-1024x768.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-999\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/planteia\/wp-content\/uploads\/sites\/170\/2023\/11\/shelter2-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/planteia\/wp-content\/uploads\/sites\/170\/2023\/11\/shelter2-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/planteia\/wp-content\/uploads\/sites\/170\/2023\/11\/shelter2-768x576.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/planteia\/wp-content\/uploads\/sites\/170\/2023\/11\/shelter2-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/planteia\/wp-content\/uploads\/sites\/170\/2023\/11\/shelter2-2048x1536.jpg 2048w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/planteia\/wp-content\/uploads\/sites\/170\/2023\/11\/shelter2-500x375.jpg 500w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/planteia\/wp-content\/uploads\/sites\/170\/2023\/11\/shelter2-800x600.jpg 800w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/planteia\/wp-content\/uploads\/sites\/170\/2023\/11\/shelter2-1280x960.jpg 1280w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/planteia\/wp-content\/uploads\/sites\/170\/2023\/11\/shelter2-1920x1440.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Mamad na minha segunda resid\u00eancia em Israel (2023).<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A mamad representa o ep\u00edtome da vida do cidad\u00e3o israelense, independentemente de sua etnia ou status socioecon\u00f4mico. Essa constru\u00e7\u00e3o \u00e9 considerada um <strong><em>vetor de resili\u00eancia emocional<\/em><\/strong>, tornando a vida poss\u00edvel mesmo durante intensos bombardeios ao mesmo tempo que cria uma complexa e amb\u00edgua am\u00e1lgama entre normalidade e estado de emerg\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A supress\u00e3o moral da esperan\u00e7a pela paz, em troca de uma rotina poss\u00edvel, \u00e9 tamb\u00e9m uma estrat\u00e9gia pol\u00edtico-militar que torna o conflito administr\u00e1vel e menos suscet\u00edvel \u00e0 press\u00e3o popular. Em uma sociedade onde guerra e paz n\u00e3o s\u00e3o fen\u00f4menos distintos \u2015 alguns autores a descrevem como um continuum &#8220;<strong><em>nem guerra, nem paz<\/em><\/strong>&#8221; ou &#8220;<strong><em>quase guerra, quase paz<\/em><\/strong>&#8221; \u2015, as mamadim, combinadas com a tecnologia do Domo de Ferro (sistema de defesa antim\u00edsseis), tornam-se quase terap\u00eauticas, embora n\u00e3o sejam um ant\u00eddoto para a depress\u00e3o e o estresse p\u00f3s-traum\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"Mamad residencial em Israel\" width=\"525\" height=\"295\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Ff3XvIDF12k?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><figcaption class=\"wp-element-caption\">Mamad na minha primeira resid\u00eancia em Israel (2021).<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes do sono, revisitei as rea\u00e7\u00f5es fisiol\u00f3gicas de viver em um pa\u00eds em estado de guerra, apenas para acordar no s\u00e1bado (7) \u00e0s 6:30 ao som estridente das sirenes. Meu cora\u00e7\u00e3o acelerou, e uma onda de oxig\u00eanio e adrenalina inundou meu corpo. Levantei-me com agilidade da cama, calcei os chinelos, abri a porta com destreza e desci as escadas, pulando degraus. Em Rehovot, tenho um minuto e meio para alcan\u00e7ar um local seguro. A cada andar, as portas se abriam, e as fam\u00edlias emergiam em filas, algumas com crian\u00e7as ainda adormecidas no colo, acompanhadas por cachorros; a escada ficou cheia. Meu corpo, no modo aut\u00f4mato, conhecia o percurso de cor.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:52px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer eplus-wrapper\"><\/div>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\"><em><strong>Leia mais:<\/strong> <\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">BIRD-DAVID, N.; SHAPIRO, M. Domesticating spaces of security in Israel. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">In<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">: LOW, S.; MAGUIRE, M. (Ed.) <\/span><b>Spaces of security: ethnographies of securityscapes, surveillance, and control<\/b><span style=\"font-weight: 400\">. Nova Iorque: New York University Press, 2019. p. 163-183.<\/span><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:36px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer eplus-wrapper\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><strong><em>Camila Pinto da Cunha, engenheira agr\u00f4noma, jornalista cient\u00edfica e pesquisadora de p\u00f3s-doutorado no Instituto Weizmann de Ci\u00eancias, escreve sobre viv\u00eancias pessoais e experi\u00eancias cient\u00edficas em Israel.<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:33px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer eplus-wrapper\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"eplus-wrapper wp-block-paragraph\"><em>Cr\u00e9dito imagem: DALL*E<\/em><br><em>Revis\u00e3o de texto: <\/em>ChatGPT<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para dar o tom:&nbsp; &#8220;Sign of the Times&#8221;, de Harry Styles Na sexta-feira, dia 06 de outubro de 2023, eu esbo\u00e7ava mentalmente uma entrada no di\u00e1rio sobre o medo de bombas, mencionado na postagem anterior De p\u00e9 no ch\u00e3o. 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