{"id":343,"date":"2012-09-07T12:25:23","date_gmt":"2012-09-07T15:25:23","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/podeimburana\/?p=343"},"modified":"2012-09-07T12:25:23","modified_gmt":"2012-09-07T15:25:23","slug":"um-matematico-apaixonado-por-borges","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/podeimburana\/2012\/09\/07\/um-matematico-apaixonado-por-borges\/","title":{"rendered":"Um matem\u00e1tico apaixonado por Borges"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Talvez a maior express\u00e3o da minha brasilidade, agora que moro em terra norte-americana, seja o orgulho que sinto dos pesquisadores brasileiros daqui.<\/p>\n<p>Fico encantada com suas trajet\u00f3rias e diversificadas \u00e1reas de atua\u00e7\u00e3o. Hist\u00f3rias incr\u00edveis s\u00e3o reveladas quando converso sobre os caminhos pessoais e acad\u00eamicos percorridos antes de aqui desembarcarem.<\/p>\n<p>Foi o que aconteceu em um jantar recente na casa de amigos, onde tive a chance de aprender sobre o que leva um matem\u00e1tico a se enveredar pelos estudos liter\u00e1rios.\u00a0<a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/podeimburana\/2012\/09\/um-matematico-apaixonado-por-borges\/literatura_matematica-3\/\" rel=\"attachment wp-att-351\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright  wp-image-351\" title=\"literatura_matematica\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/podeimburana\/wp-content\/uploads\/sites\/214\/2012\/09\/literatura_matematica2.jpg\" alt=\"\" width=\"281\" height=\"249\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/podeimburana\/wp-content\/uploads\/sites\/214\/2012\/09\/literatura_matematica2.jpg 402w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/podeimburana\/wp-content\/uploads\/sites\/214\/2012\/09\/literatura_matematica2-300x266.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/podeimburana\/wp-content\/uploads\/sites\/214\/2012\/09\/literatura_matematica2-200x177.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 281px) 100vw, 281px\" \/><\/a><\/p>\n<p><a title=\"cv lattes Jacques Fux\" href=\"http:\/\/buscatextual.cnpq.br\/buscatextual\/visualizacv.do?metodo=apresentar&amp;id=K4766586D7\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jacques Fux<\/a>, bolsista de p\u00f3s-doutoramento da FAPESP, chegou em Cambridge h\u00e1 quinze dias, assumindo a posi\u00e7\u00e3o de <em>visiting scholar<\/em> em Harvard. Mineiro, formou-se em matem\u00e1tica e fez mestrado em ci\u00eancias da computa\u00e7\u00e3o, na UFMG.<\/p>\n<p>\u00c1vido leitor, apaixonado por Jorge Luis Borges, no seu doutorado optou por migrar para a literatura e acabou recebendo o pr\u00eamio CAPES de melhor tese de doutorado defendida em 2010 na \u00e1rea de Letras\/Lingu\u00edstica. Ele estudou as rela\u00e7\u00f5es entre matem\u00e1tica e literatura nas obras de Georges Perec e Jorge Luis Borges (<a title=\"tese doutorado jacques fux\" href=\"http:\/\/www.bibliotecadigital.ufmg.br\/dspace\/bitstream\/1843\/ECAP-8BQF7G\/1\/tesefinal2010revisada.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aqui<\/a>).<\/p>\n<p>Agora \u00e9 com ele.<\/p>\n<p><strong> 1) Como um matem\u00e1tico foi parar na literatura? <\/strong><\/p>\n<p><em>Eu sempre gostei de ler e era completamente fascinado pela literatura de Jorge Luis Borges. Lendo seus relatos fant\u00e1sticos, descobri que poder\u00edamos encontrar diversos problemas e, entre eles, os de matem\u00e1tica e l\u00f3gica. Assim, apaixonado por Borges, resolvi fazer uma mat\u00e9ria eletiva sobre esse autor argentino e o Juda\u00edsmo no doutorado em Letras da UFMG. Gostei muito e resolvi levar o projeto &#8216;maluco&#8217; adiante. Logo depois, conheci minha orientadora e as obras do escritor franc\u00eas Georges Perec. Descobri que existia um grupo na Fran\u00e7a que trabalhava com literatura e matem\u00e1tica e &#8216;voil\u00e1&#8217;, descobri o que gostaria de fazer. <\/em><\/p>\n<p><strong>2) Perec \u00e9 conhecido por ter escrito um livro de quase 400 p\u00e1ginas sem utilizar a letra \u201ce\u201d. Por que essa op\u00e7\u00e3o pela aus\u00eancia da vogal \u201ce\u201d? A matem\u00e1tica est\u00e1 presente nessa obra? <\/strong><\/p>\n<p><em>Essa restri\u00e7\u00e3o ou regra \u00e9 conhecida como &#8216;Lipograma&#8217;. A letra &#8220;e&#8221; em franc\u00eas \u00e9 a letra mais frequente e a que mais se usa nas constru\u00e7\u00f5es gramaticais. Retir\u00e1-la \u00e9, de fato, um grande problema e a\u00ed nasce a genialidade e aud\u00e1cia de Perec. Um dos motivos de Perec retirar essa letra \u00e9 prestar uma homenagem a seus pais, mortos durante a Segunda Guerra Mundial. Sua m\u00e3e (m\u00e8re) morreu em Auschwitz e seu pai (p\u00e8re) no fronte de batalha. Segundo o pr\u00f3prio autor, os nazistas subtra\u00edram dele as pessoas mais importantes de sua vida. Ele, ainda crian\u00e7a e \u00f3rf\u00e3, foi capaz de seguir adiante mesmo sentindo a grande falta que seus faziam. Assim decidiu escrever um livro privando-se da letra mais importante do alfabeto, das letras que formam seu pr\u00f3prio nome e construir arduamente um projeto que fizesse refer\u00eancia a esses &#8216;desaparecimentos&#8217; &#8211; &#8220;La disparition&#8221;.<\/em><\/p>\n<p><strong> 3) Voc\u00ea poderia citar um exemplo do uso da matem\u00e1tica por Perec e Borges em suas obras? <\/strong><\/p>\n<p><em>Perec usa a matem\u00e1tica como estrutura na sua escrita, como por exemplo o Lipograma, o Pal\u00edndromo e os quadrados m\u00e1gicos. J\u00e1 Borges utiliza a matem\u00e1tica como um artif\u00edcio conceitual. Trabalha com o problema do infinito, da contagem (enumera\u00e7\u00e3o) e dos paradoxos. <\/em><\/p>\n<p><strong>4) Quais foram as conclus\u00f5es da sua tese? <\/strong><\/p>\n<p><em>O que eu tentei mostrar na minha tese \u00e9 que quanto maior o conhecimento matem\u00e1tico de um leitor diante dos textos do Perec e do Borges, maior sua capacidade de entender e desvendar os diversos segredos, mist\u00e9rios e belezas de seus escritos. Por\u00e9m, mesmo sem conhecer matem\u00e1tica, h\u00e1 diversas camadas e possibilidades de leituras. <\/em><\/p>\n<p><strong>5) O que voc\u00ea pretende fazer com os recursos do pr\u00eamio? <\/strong><\/p>\n<p><em>Estou migrando definitivamente para a Literatura. A escrita, a poesia e a beleza das letras me conquistaram. Meu projeto \u00e9 trabalhar mais profundamente com os escritos testemunhais e com os problemas da mem\u00f3ria e da narra\u00e7\u00e3o de momentos traum\u00e1ticos. <\/em><\/p>\n<p><strong>6) Agora voc\u00ea est\u00e1 partindo para o seu segundo p\u00f3s-doutoramento. <\/strong><\/p>\n<p><em>No primeira parte do meu p\u00f3s-doutorado estudei a rela\u00e7\u00e3o entre Perec e a Shoah. Como podemos entender seus escritos e seus relatos &#8216;faltantes&#8217; e inventados j\u00e1 que viveu uma grande perda na vida. Agora pretendo estudar as novas representa\u00e7\u00f5es poss\u00edveis e art\u00edsticas da Shoah (Holocausto) em uma \u00e9poca em que os sobreviventes est\u00e3o desaparecendo por completo. Como as novas gera\u00e7\u00f5es &#8220;receber\u00e3o&#8221; esse acontecimento terr\u00edvel que foi a morte industrializada de milh\u00f5es de pessoas durante o per\u00edodo nazi. <\/em><\/p>\n<p><strong>7) De onde vem o seu interesse por literatura infantil? <\/strong><\/p>\n<p><em>Eu gosto muito de escrever e minha escrita \u00e9 muito tocada pelo Borges. Segundo ele, a literatura \u00e9 a pr\u00f3pria capacidade de falar e escrever sobre ela mesma. Logo escrevi um livro (ainda n\u00e3o publicado) para crian\u00e7as de todas as idades sobre os &#8220;Porqu\u00eas&#8221; da vida dando respostas liter\u00e1rias a essas quest\u00f5es. Os personagens do livro s\u00e3o escritores, poetas e personagens liter\u00e1rios bem conhecidos, como Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Riobaldo, O Gato de Cheschire, As baratas de Kafka e Lispector, o Tigre de Borges, entre outros. <\/em><\/p>\n<p><strong>8) Qual trecho de Borges que mais te toca? E de Perec? <\/strong><\/p>\n<p><em>Do Borges: &#8220;que a hist\u00f3ria tivesse copiado a hist\u00f3ria j\u00e1 era suficientemente assombroso; que a hist\u00f3ria copiasse a literatura era inconceb\u00edvel&#8221;.<\/em><\/p>\n<p><em>Do Perec: \u201cUma vez mais, as armadilhas da escrita se instalaram. Uma vez mais, fui como uma crian\u00e7a que brinca de esconde-esconde e n\u00e3o sabe o que mais teme ou deseja: permanecer escondida, ser descoberta.\u201d Essas duas frases me deram in\u00fameros argumentos liter\u00e1rios e, a partir delas, escrevi meu primeiro romance recentemente chamado &#8220;Antiterapias&#8221;.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Talvez a maior express\u00e3o da minha brasilidade, agora que moro em terra norte-americana, seja o orgulho que sinto dos pesquisadores brasileiros daqui. Fico encantada com suas trajet\u00f3rias e diversificadas \u00e1reas de atua\u00e7\u00e3o. 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