O Acesso ao Ensino Superior na Contemporaneidade: Possibilidades e Desafios
O blog hoje abre espaço para uma importante contribuição externa. Recebemos e publicamos com muita satisfação a resenha crítica produzida por Gabriela Amanda Falsarella – https://orcid.org/0009-0008-3799-7402 sob a orientação da professora Ana Paula Silveira https://orcid.org/0000-0002-6761-9807, que se debruça sobre o artigo Educação superior no Brasil: panorama da contemporaneidade, de Diniz e Goergen (2019). O texto traz uma análise afiada sobre o hiato entre a democratização formal e a equidade real no acesso à universidade. Uma excelente leitura para iniciarmos a semana debatendo políticas públicas!
A expansão da educação superior no Brasil nas últimas décadas promoveu um crescimento notável nas taxas de matrícula, fenômeno que os pesquisadores Rosa Virgínia Wanderley Diniz e Pedro Goergen (2019) caracterizam como uma mercantilização ou massificação do acesso. Segundo os autores, esse crescimento quantitativo bifurcou-se entre a garantia do usufruto de um direito social e a mera aquisição de serviços e mercadorias educacionais. Contudo, essa ampliação estatística não se traduziu em igualdade efetiva de oportunidades. Persistem barreiras econômicas e educacionais estruturais que continuam a dificultar o ingresso das classes populares na universidade, evidenciando que a democratização formal difere substancialmente da equidade real.
A reflexão proposta por Diniz e Goergen estabelece uma dialética imediata com o cotidiano das escolas públicas de educação básica, onde a fragmentação do ensino impede que muitos estudantes visualizem a universidade pública como um horizonte concreto. Ao afirmarem que os estudantes brasileiros frequentemente acessam o nível superior por meio de políticas de democratização que não atuam diretamente sobre as causas da desigualdade social produtora da exclusão (2019, p. 582), os autores expõem como os capitais econômico e cultural condicionam as trajetórias escolares. O estudante em situação de vulnerabilidade enfrenta uma dupla jornada: a precarização histórica do ensino básico e a necessidade de inserção precoce no mercado de trabalho, fatores que restringem severamente sua competitividade nos processos seletivos.
Para além do ingresso, a obra de Diniz e Goergen desloca o debate para a centralidade da permanência estudantil como pilar indissociável da democratização real. Conforme apontam os autores, garantir a entrada e a continuidade nas instituições é condição necessária, porém insuficiente, para assegurar uma apropriação efetiva dos conhecimentos socialmente relevantes (2019, p. 583). Sob essa ótica, as políticas públicas de assistência estudantil — materializadas em bolsas de apoio, moradia universitária, restaurantes universitários e suporte psicopedagógico — deixam de ser concessões periféricas e passam a figurar como estratégias de sobrevivência institucional, determinantes para mitigar a evasão.
Essa dinâmica excludente gera um desdobramento subjetivo perverso: a internalização das limitações estruturais por parte dos próprios jovens, que passam a desacreditar de seu potencial acadêmico. A escassez de estímulos e as urgências financeiras convertem a universidade em um espaço simbólico distante e inacessível. Em termos socioculturais, esse cenário de escassas perspectivas contamina inclusive o corpo docente da educação básica que, pressionado pelas carências cotidianas da escola, por vezes reproduz discursos que limitam o horizonte dos alunos. Romper esse ciclo de desmotivação exige ações afirmativas contínuas, capazes de expandir o repertório cultural dos estudantes e consolidar o ensino superior público como um direito legítimo e viável de transformação social.
Embora a expansão universitária tenha alargado as fronteiras acadêmicas no país, as assimetrias sociais ainda funcionam como filtros de exclusão. A permanência estudantil impõe-se com o mesmo peso político do ingresso, exigindo o fortalecimento de redes de apoio financeiro e pedagógico ao longo da graduação. A universidade pública conserva seu papel indispensável na democratização do conhecimento e na formação do pensamento crítico; por isso, incentivar as juventudes periféricas a ocuparem esses espaços constitui um passo fundamental para o combate à reprodução das desigualdades e para a construção de novas perspectivas de futuro.
Referências
DINIZ, Rosa Virgínia Wanderley; GOERGEN, Pedro L. Educação superior no Brasil: panorama da contemporaneidade. Avaliação: Revista da Avaliação da Educação Superior, Campinas; Sorocaba, v. 24, n. 3, p. 573-593, set./dez. 2019. DOI: 10.1590/S1414-40772019000300002. Disponível em: https://periodicos.uniso.br/avaliacao/article/view/3787. Consulta em 10/abril/2026
One thought on “O Acesso ao Ensino Superior na Contemporaneidade: Possibilidades e Desafios”
Oi pessoal!
Obrigada por essa reflexão tão importante.