{"id":183,"date":"2026-07-12T18:20:36","date_gmt":"2026-07-12T21:20:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/prometeus\/?p=183"},"modified":"2026-07-12T18:22:29","modified_gmt":"2026-07-12T21:22:29","slug":"o-acesso-ao-ensino-superior-na-contemporaneidade-possibilidades-e-desafios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/prometeus\/2026\/07\/12\/o-acesso-ao-ensino-superior-na-contemporaneidade-possibilidades-e-desafios\/","title":{"rendered":"O Acesso ao Ensino Superior na Contemporaneidade: Possibilidades e Desafios"},"content":{"rendered":"<p>O blog hoje abre espa\u00e7o para uma importante contribui\u00e7\u00e3o externa. Recebemos e publicamos com muita satisfa\u00e7\u00e3o a resenha cr\u00edtica produzida por Gabriela Amanda Falsarella &#8211; <a href=\"https:\/\/orcid.org\/0009-0008-3799-7402\">https:\/\/orcid.org\/0009-0008-3799-7402<\/a>\u00a0 sob a orienta\u00e7\u00e3o da professora Ana Paula Silveira <a href=\"https:\/\/orcid.org\/0000-0002-6761-9807\">https:\/\/orcid.org\/0000-0002-6761-9807<\/a>, que se debru\u00e7a sobre o artigo <i data-path-to-node=\"6,0\" data-index-in-node=\"219\">Educa\u00e7\u00e3o superior no Brasil: panorama da contemporaneidade<\/i>, de Diniz e Goergen (2019). O texto traz uma an\u00e1lise afiada sobre o hiato entre a democratiza\u00e7\u00e3o formal e a equidade real no acesso \u00e0 universidade. Uma excelente leitura para iniciarmos a semana debatendo pol\u00edticas p\u00fablicas!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A expans\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o superior no Brasil nas \u00faltimas d\u00e9cadas promoveu um crescimento not\u00e1vel nas taxas de matr\u00edcula, fen\u00f4meno que os pesquisadores Rosa Virg\u00ednia Wanderley Diniz e Pedro Goergen (2019) caracterizam como uma mercantiliza\u00e7\u00e3o ou massifica\u00e7\u00e3o do acesso. Segundo os autores, esse crescimento quantitativo bifurcou-se entre a garantia do usufruto de um direito social e a mera aquisi\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os e mercadorias educacionais. Contudo, essa amplia\u00e7\u00e3o estat\u00edstica n\u00e3o se traduziu em igualdade efetiva de oportunidades. Persistem barreiras econ\u00f4micas e educacionais estruturais que continuam a dificultar o ingresso das classes populares na universidade, evidenciando que a democratiza\u00e7\u00e3o formal difere substancialmente da equidade real.<\/p>\n<p>A reflex\u00e3o proposta por Diniz e Goergen estabelece uma dial\u00e9tica imediata com o cotidiano das escolas p\u00fablicas de educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, onde a fragmenta\u00e7\u00e3o do ensino impede que muitos estudantes visualizem a universidade p\u00fablica como um horizonte concreto. Ao afirmarem que os estudantes brasileiros frequentemente acessam o n\u00edvel superior por meio de pol\u00edticas de democratiza\u00e7\u00e3o que n\u00e3o atuam diretamente sobre as causas da desigualdade social produtora da exclus\u00e3o (2019, p. 582), os autores exp\u00f5em como os capitais econ\u00f4mico e cultural condicionam as trajet\u00f3rias escolares. O estudante em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade enfrenta uma dupla jornada: a precariza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do ensino b\u00e1sico e a necessidade de inser\u00e7\u00e3o precoce no mercado de trabalho, fatores que restringem severamente sua competitividade nos processos seletivos.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m do ingresso, a obra de Diniz e Goergen desloca o debate para a centralidade da perman\u00eancia estudantil como pilar indissoci\u00e1vel da democratiza\u00e7\u00e3o real. Conforme apontam os autores, garantir a entrada e a continuidade nas institui\u00e7\u00f5es \u00e9 condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria, por\u00e9m insuficiente, para assegurar uma apropria\u00e7\u00e3o efetiva dos conhecimentos socialmente relevantes (2019, p. 583). Sob essa \u00f3tica, as pol\u00edticas p\u00fablicas de assist\u00eancia estudantil \u2014 materializadas em bolsas de apoio, moradia universit\u00e1ria, restaurantes universit\u00e1rios e suporte psicopedag\u00f3gico \u2014 deixam de ser concess\u00f5es perif\u00e9ricas e passam a figurar como estrat\u00e9gias de sobreviv\u00eancia institucional, determinantes para mitigar a evas\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa din\u00e2mica excludente gera um desdobramento subjetivo perverso: a internaliza\u00e7\u00e3o das limita\u00e7\u00f5es estruturais por parte dos pr\u00f3prios jovens, que passam a desacreditar de seu potencial acad\u00eamico. A escassez de est\u00edmulos e as urg\u00eancias financeiras convertem a universidade em um espa\u00e7o simb\u00f3lico distante e inacess\u00edvel. Em termos socioculturais, esse cen\u00e1rio de escassas perspectivas contamina inclusive o corpo docente da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica que, pressionado pelas car\u00eancias cotidianas da escola, por vezes reproduz discursos que limitam o horizonte dos alunos. Romper esse ciclo de desmotiva\u00e7\u00e3o exige a\u00e7\u00f5es afirmativas cont\u00ednuas, capazes de expandir o repert\u00f3rio cultural dos estudantes e consolidar o ensino superior p\u00fablico como um direito leg\u00edtimo e vi\u00e1vel de transforma\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Embora a expans\u00e3o universit\u00e1ria tenha alargado as fronteiras acad\u00eamicas no pa\u00eds, as assimetrias sociais ainda funcionam como filtros de exclus\u00e3o. A perman\u00eancia estudantil imp\u00f5e-se com o mesmo peso pol\u00edtico do ingresso, exigindo o fortalecimento de redes de apoio financeiro e pedag\u00f3gico ao longo da gradua\u00e7\u00e3o. A universidade p\u00fablica conserva seu papel indispens\u00e1vel na democratiza\u00e7\u00e3o do conhecimento e na forma\u00e7\u00e3o do pensamento cr\u00edtico; por isso, incentivar as juventudes perif\u00e9ricas a ocuparem esses espa\u00e7os constitui um passo fundamental para o combate \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o das desigualdades e para a constru\u00e7\u00e3o de novas perspectivas de futuro.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>DINIZ, Rosa Virg\u00ednia Wanderley; GOERGEN, Pedro L. Educa\u00e7\u00e3o superior no Brasil: panorama da contemporaneidade. <em>Avalia\u00e7\u00e3o: Revista da Avalia\u00e7\u00e3o da Educa\u00e7\u00e3o Superior<\/em>, Campinas; Sorocaba, v. 24, n. 3, p. 573-593, set.\/dez. 2019. DOI: 10.1590\/S1414-40772019000300002. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/periodicos.uniso.br\/avaliacao\/article\/view\/3787\">https:\/\/periodicos.uniso.br\/avaliacao\/article\/view\/3787<\/a>. Consulta em 10\/abril\/2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O blog hoje abre espa\u00e7o para uma importante contribui\u00e7\u00e3o externa. Recebemos e publicamos com muita satisfa\u00e7\u00e3o a resenha cr\u00edtica produzida por Gabriela Amanda Falsarella &#8211; https:\/\/orcid.org\/0009-0008-3799-7402\u00a0 sob a orienta\u00e7\u00e3o da professora Ana Paula Silveira https:\/\/orcid.org\/0000-0002-6761-9807, que se debru\u00e7a sobre o artigo Educa\u00e7\u00e3o superior no Brasil: panorama da contemporaneidade, de Diniz e Goergen (2019). O texto traz uma an\u00e1lise afiada sobre o hiato entre a democratiza\u00e7\u00e3o formal e a equidade real no acesso \u00e0 universidade. 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