Fobia Musical?

Comecei a ler o “Alucinações Musicais” de Oliver Sacks e estou gostando muito do que li nas primeiras 60 páginas. O autor é neurologista e, neste livro, relata vários casos de pacientes cujo diagnóstico tem algo a ver com música. Um dos casos me chamou muito a atenção:
Sílvia N. tinha epilepsia musicogênica, ou seja, um certo tipo de música a fazia sofrer sérias convulsões. No seu caso, músicas napolitanas, que ela até então adorava pois a faziam relembrar sua infância. Após o aumento da frequência das convulsões, foram descobertas anormalidades anatômicas e elétricas em seu lobo temporal esquerdo, e em seguida ela foi submetida a uma cirurgia cerebral para tratar o problema.
Daí vem a parte mais curiosa: após a cirurgia, as músicas napolitanas não mais eliciavam convulsões em Sílvia, mas ainda assim ela evitava o contato com essas músicas, o que é de se esperar do ponto de vista comportamental. Quando um estímulo é muito punitivo, tendemos a evitá-lo, mesmo quando a função punitiva não está mais em vigor. Daí a gente continua sempre esquivando desses estímulos, sofrendo com os efeitos colaterais dessas situações de fuga e esquiva (medo e ansiedade) enquanto que a solução está no simples enfrentamento. Sílvia logo se encontrou em uma situação em que não conseguiu escapar da música, e se surpreendeu com o resultado. Voltou pra casa, juntou toda sua coragem, pôs para tocar as músicas e assim “curou” sua fobia.
Este processo poderia ser muito menos chocante para Sílvia se ela tivesse um psicólogo do lado. Falando nisso, por que não se vê mais psicólogos e neurologistas trabalhando juntos? Uma pena…

Discussão - 7 comentários

  1. Igor Santos disse:

    Esse livro é ótimo!
    Aliás, todos os livros de Sacks o são.

  2. Joel disse:

    Olá
    muito interessante esse assunto. Mas tenho que discordar em um ponto,hehe. Enfrentar quaze sempre nao é tao simples assim, uma vez que temos a tendencia de evitar aquilo que causa sofrimento. Falo isso por minha propria experiencia, sempre sofro ansiedade e outros sintomas a qualquer situaçao de fala, seja um seminario ou uma simples colocaçao durante a aula. Fiz terapia cognitivo-comportamental e me ajudou bastante, mas de forma alguma o enfrentamento é algo simples para a pessoa que o pratica.
    Abraço !!!
    Continue trazendo temas interessantes como este
    Os visitantes agradecem
    hehe

  3. Felipe disse:

    Oi Joel, obrigado pelo comentário! Realmente o enfrentamento não é nada fácil, por isso que no final do post ressaltei que seria mais facil para ela ter um psicólogo do lado a ajudando.
    Eu mesmo já tive muita dificuldade em falar para grandes audiências, hoje, ainda bem, quanto mais gente em uma palestra mais animado eu fico! 🙂

  4. tatiana leão disse:

    tenho que ratificar que é uma pena e um desperdício de progresso científico que os neurologistas e os psicólogos não se unam em seus estudos. mas um dia, um dia… 😉

  5. E eu estou igual a você: “um dia…”

  6. Tarcísio Paz disse:

    Oi Felipe, tudo bom cara ? Obrigado pela resposta do email sobre Psicopatologia. Eu estou lendo esse livro também e até agora ele está sendo um livro muito bom. Quem dera que esse dia chegasse logo, que os neurologistas se unissem com os psicólogos !

  7. Lisa Yen disse:

    Olá, Felipe! Obrigada pela matéria. Eu não sei se tenho medo de músicas, mas as vezes quando as escuto, elas ficam na cabeça, e às vezes me dá um pânico pois a música não quer sair. O coração chega a bater, e eu tento olhar em volta, para passar o momento. Chega a ser bizarro, mas agora que li a matéria percebi que pode ser algo sério.

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