Um psicólogo precisa ler mentes?

-…Mas escute só isto. Num recanto aberto do meu jardim plantei uma trepadeira. Quando mal começava a brotar do solo, finquei uma estaca a um metro de distância. A planta imediatamente se lançou para aquele lado e, depois de alguns dias, quando já ia alcançá-la, troquei a posição da estaca, levando-a para mais longe. A trepadeira logo mudou de novo, para o lado da estaca. Repeti a manobra várias vezes até que, afinal, como se tivesse desanimado, a planta desistiu da perseguição e, ignorando minhas novas tentativas para desviá-la da direção, resolveu se enroscar numa arvorezinha afastada.
– As raízes de um pé de eucalipto são capazes de se estender de maneira incrível à procura de umidade (…).
– Aonde você quer chegar?
– Mas será que não deu pra entender? Isso demonstra a consciência das plantas. Prova que são capazes de raciocinar.

Acho difícil acreditar que plantas sejam capazes de raciocinar, mas a questão que eu levanto aqui é: será que para modificar o “comportamento” da planta precisamos saber o que ela está pensando?
O que o rapaz fez no exemplo foi introduzir uma variável no ambiente (estaca úmida de madeira) que modificou o crescimento da planta. E o mesmo princípio pode ser usado com seres humanos:

  • Se o garoto não aprende na escola, pode-se mudar as contingências de ensino.
  • Se meus empregados estão desmotivados, posso melhorar os planos de benefícios.
  • O depressivo pode engajar em novas atividades e assim entrar em contato com novas pessoas e sensações, melhorando seus estados emocionais.

São todas mudanças no ambiente. E é assim que se faz pesquisa em psicologia usando o método científico: modificando variáveis ambientais e verificando os resultados nos comportamentos das pessoas.
É claro que as pessoas pensam (o próprio pensar é um comportamento), mas nem sempre é necessário saber o que ela está pensando para modificar seu comportamento.
(O texto citado é um trecho do conto “O Feitiço e o Feiticeiro”, de Ambrose Bierce, incluído no livro “Histórias de Robôs”, Vol.1, editado por Isaac Asimov – que será novamente mencionado no blog muito em breve).View imageView image

Discussão - 8 comentários

  1. Igor Santos disse:

    Comprei esse livro anteontem!
    Ah, se eu tivesse tempo de ler…

  2. João Carlos disse:

    O “truque” está no emprego do termo “raciocinar”. Resta saber até que ponto o “raciocínio humano” não pode ser reduzido a reações químicas e impulsos elétricos…

  3. Rodrigo disse:

    Olá.
    Mas fiquei curioso agora: como é que a planta “sabe” que há uma estaca ali? E se fosse de um material impermeável, não-úmido, ela não “saberia”?
    Um abraço,
    R.

  4. A esse respeito pelo pouco tempo que estudo psicologia e através do ando lendo penso assim: Que nem sempre é necessário saber o que uma pessoa pensa para modificar seu comportamento, um exemplo disso é a publicidade que nos estimula a comprar certos produtos sem que os publicitários precisem saber o que cada pessoa está pensando. No entanto nos casos em que há um transtorno mental é necessário saber identificar a estrutura de pensamento da pessoa. Por exemplo, pesquisas mostram que depressivos tem uma maneira negativa (padrão) de ver os acontecimentos de sua vida e de dar atenção na maioria das vezes a acontecimentos ruins e minimizar a importância das coisas boas, peso que não dá para ignorar isso. Assim é necessário ressignificar essa maneira de encarar a vida porque não adianta, por exemplo, dizer a um depressivo faça uma atividade física, uma caminhada porque sabemos que o exercício libera serotonina. Se ele fizer essa caminha como quem vai a um velório ou ele desiste ou não vai adiantar. Penso assim, que a ressignificação do pensamento promove  mudança no comportamento que promove  mudança neuroquímica, a neuroplasticidade. Deste modo não se trata de ler mentes, mas de identificar no discurso do depressivo, pensamentos disfuncionais e atráves de técnicas psicoterápicas modificá-los por pensamentos adaptativos.

  5. Sim, sim, por isso usei a expressão “nem sempre” é necessário ao invés de nunca!
    Muitas vezes quando a gente propõe uma nova atividade a um cliente, ele pode até relutar ou não acreditar na eficácia, mas muda de idéia quando percebe os resultados. Em outras, modificar as regras que ele segue (ou os pensamentos, chame como quiser) auxilia na mudança de outros comportamentos.

  6. Felipe Epaminondas disse:

    Não sou biólogo, mas acredito que ela tenha alguma sensibilidade à umidade. Assim como o cão segue um odor com o nariz ela “segue” a umidade através disso?
    Sei lá, são as maravilhas da evolução (ou para outros, da criação :P).

  7. Bruna disse:

    Ótimos comentários!!

  8. Gregore disse:

    Cada comentário que eu leio eu vou aprendendo, e esses tipo de comentarios são otimos para mim, que apenas tou reiniciando.

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