E coca-cola, vicia?

20090729_cocacola.jpgEstava almoçando hoje e bem na minha frente estava um senhor tomando uma Coca-cola direto da latinha. Estava quente, eu com a comida salgada na boca, vendo ele tomar a coca e no fundo uma geladeira cheia de refrigerantes, nessa hora me deu uma vontade incontrolável de tomar Coca-cola.
E eu pensei “Gastar dinheiro pra quê? Lá em casa tem suco!”. Mas a imagem do suco não me pareceu muito atraente, eu queria Coca-cola!
Não sou médico nem conheço a química que tem na Coca-cola, mas sei falar do lado psicológico da coisa. Bebida gelada no calor é algo que todos gostamos, certo? Ver a Coca-cola quando eu estiver um bom tempo sem tomar nada é suficiente para eu salivar, mas outros estímulos ambientais também contribuíram para essa minha sede, que foram o sal da comida, o calor, o horário e o desenho da lata da coca.
Isso aconteceu por causa de um processo chamado emparelhamento de estímulos ou condicionamento pavloviano (clique aqui para ver um vídeo explicando o que é isso). Basicamente, um estímulo (a coca) que eliciava uma resposta (o salivar) quando apresentado várias vezes junto a outros estímulos neutros (horário do almoço, comida, desenho na lata) acabam fazendo, no futuro, com que esses outros estímulos neutros causem na pessoa a mesma resposta, o salivar, e daí a minha sede de coca-cola.
Me fez lembrar na época da graduação que costumávamos jogar sinuca em um bar que ficava na esquina da minha casa. Um dia fiz um experimento: paguei uma Coca 600ml pra mim e meu colega. Uma semana depois paguei novamente. Na outra semana ele virou e disse “nossa deu vontade de tomar uma coca, peraí vou pegar pra gente“. Bingo!

Morre, aos 100, Sidney Bijou

20090728_bijou.jpgUma coisa que costumo falar muito é do quanto subestimamos o poder da atenção social, e isso fica muito óbvio quando observamos crianças birrentas ou algum episódio de Supernanny, que por sua vez, não teria muitas técnicas para mostrar na televisão se não fosse pelo Sidney Bijou.
Nascido em 12 de novembro de 1908, Bijou chegou a trabalhar com o próprio B. F. Skinner nos anos 40 e percebeu que reforçar comportamentos desejáveis na criança com doces, abraços, elogios ou simples atenção trazia grandes resultados, principalmente naquelas crianças que não respondiam a punições ou terapias tradicionais – enquanto isso o comportamento indesejado era simplesmente ignorado ou, em casos mais extremos, resultavam em um simples “time out”, quase que um leve tempo de castigo.
Ele sempre foi contra o uso de procedimentos aversivos, e essas técnicas logo se espalharam para o tratamento de várias crianças difíceis como as com TDAH (numa época em que este diagnóstico nem existia) e principalmente as autistas, servindo de inspiração para O. Ivar Lovaas, referência na área, e ao Princeton Child Development Institute, que já mostrei em alguns vídeos aqui no blog.
Pode-se dizer que Bijou ajudou a definir o que hoje é visto como intervenção padrão para crianças com diversos problemas de aprendizagem. Ele teve um ataque e faleceu enquanto trocava de roupa no dia 11 de junho em sua residência em Santa Barbara.
Obituário no New York Times: link
Página Oficial Sidney W. Bijou: link

Autismo e Síndrome de Asperger

Acabei de disponibilizar no Youtube a terceira parte dos vídeos de propaganda do Instituto de Princeton sobre o autismo, e para complementar o vídeo aqui, irei postar um e-mail que recebi perguntando sobre a Síndrome de Asperger:

“Olá Felipe.
O que você sabe sobre a Síndrome de Asperger? Preciso de ajuda para entender, mas à luz da ciência do comportamento…
Grata,
Cynthia.”

Bem, confesso que conheço pouco sobre essa Síndrome de Asperger, mas pelo que eu li, se parece muito com um autismo de alta funcionalidade, ou seja, um “quase autista”.
Embora seja interessante conhecer estes nomes, a Análise do Comportamento se preocupa menos com eles e mais com o que a pessoa faz ou deixa de fazer. Se uma criança fala pouco, engaja em comportamentos estereotipaodos ou está se tornando agressiva, estes são os comportamento que devem sofrer intervenção, independentemente do nome que foi dado à condição dela, seja autismo, asperger, “falha na mente” ou qualquer outra coisa.
Tanto é que o Transtorno de Asperger só entrou no DSM na edição de 1994 e já estão pensando em retirá-lo pela sua similaridade com o autismo.
A seguir o vídeo enviado:

Depoimentos em vídeo sobre o autismo (Parte 1)
Autismo e agressividade: existe relação? (Parte 2)
Princeton Child Development Institute: http://www.pcdi.org/

Dependência de substâncias: fisiológica ou psicológica?

20090713_christianef2.jpgO livro da Christiane F. pode até ser antigo, mas ainda serve como ótimo exemplo para os casos de abuso e dependência de substâncias, além de trazer ótimos insights como a inspiração para este post.
Primeiro, para esclarecimento, usa-se o nome abuso de substância para a pessoa que não é exatamente dependente da droga, mas que tem prejuízos pelo seu uso, como o estudante que perde aulas por consequência da droga ou alguém que repetidamente dirige intoxicada. Já na dependência há a necessidade de doses cada vez maiores para obter o efeito desejado, sintomas de abstinência com o uso reduzido, ocasional ingestão de quantidades maiores do que o pretendido, tentativas malsucedidas de cortar ou controlar o uso da substância e redução da participação em atividades normais sociais por causa do uso da droga.
Costuma-se dizer então que a pessoa apresenta crises de abstinência por uma dependência química, enquanto em outras situações há a dependência psicológica, como no caso do LSD, que dificilmente causa posteriores crises de abstinência mas pode fazer com que a pessoa, na próxima situação, se sinta incapaz de se divertir sem tomar sua dose.
Os momentos de abstinência do livro da Christiane são bastante chocantes, principalmente nos que ela está tentando largar a droga. Em meio a vômitos e tremedeiras, ela e seu namorado Detlef ficam imaginando um futuro “cor-de-rosa”, onde formariam uma família, teriam um emprego decente e uma casa bonita. Mas após todo o sofrimento e uns poucos momentos de sobriedade, é que a ficha cai:

“Falamos a minha mãe que tínhamos vontade de tomar ar fresco, pois acabávamos de passar a semana toda fechados em um quarto minúsculo. Ela aprovou: “Aonde vamos?” perguntou Detlef. Não tinha nada a lhe propor. Nos demos conta, naquele momento, de que não tínhamos mais onde ir. Todos os nossos amigos eram viciados. E todos os lugares que conhecíamos e onde nos sentíamos bem eram lugares em que nos picávamos. Encontrar os fumadores de haxixe? Não tínhamos mais contato com eles. […] O fato de não sabermos aonde ir nos deixava mais nervosos.”

Não basta simplesmente desintoxicar a pessoa, toda dependência vai além disso. Deve se também identificar as outras variáveis que mantém o comportamento do indivíduo e trabalhar em cima deles. Alguns bebem para não lidar com os problemas do dia, outros fumam maconha por pressão dos amigos e isso pode variar muito.
Christiane estava em um ponto que não tinha mais outra vida longe dos viciados, uma vez desintoxicada, o que ela iria fazer? Neste momento ela precisava de novos amigos, novas ocupações, novas fontes de lazer, mas acabou indo aos mesmos lugares de sempre e, infelizmente, sofrendo as mesmas consequências.
E aí vale a velha regra: se continuar fazendo o que sempre faz, terá o resultado que sempre teve!

Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída

Tive sempre uma enorme imaginação quando se tratava de contar para minha mãe onde e como passava meus fins de semana.

20090713_christianef1.jpgTaí um livro que eu nunca me canso de ler! Nele Christiane conta um pouco sobre sua história de vida, principalmente nos momentos recheados de drogas e prostituição. Diferentemente dos filmes que tratam do assunto, o foco não é só esse, por exemplo, leva aproximadamente 1/3 do livro até ela tomar sua primeira dose de heroína. Tudo isso para conhecermos bem a sua infância e a de seus amigos mais próximos.
Nessas primeiras 100 páginas é fácil ver como o ambiente dela nunca foi dos melhores: criada em um bairro sujo e cheio de bêbados dormindo na rua, apanhando do pai junto com a irmã e a mãe, em um condomínio onde nada era permitido Christiane foi aprendendo a se divertir quebrando as regras. Participava de um grupo de acolhimento para jovens onde se encontrava com os amigos para fumar maconha e brigava com os professores na escola – que ela odiava por ser de má qualidade e somente estimular a competição entre os alunos. E isso não é quase nada perto das histórias de alguns dos seus amigos.
Mas a gente até se identifica com muitas passagens do livro como ir à uma boate pela primeira vez e se sentir deslocado, procurar aceitação de uma roda de adolescentes ao andar com eles pela primeira vez ou sentir nojo ao olhar pessoas usando drogas.
O notável é que, talvez por falta de opção, esses fatos eram os que mais prendiam a atenção da jovem Christiane, e em pouco tempo passou a ser o centro de sua vida: escalar cada vez mais, não no mundo das drogas, mas em seu grupo de amigos. Para ser bem aceita, e cada vez mais “descolada” o uso de drogas era algo natural. Infelizmente, em pouco tempo este uso de drogas não passou mais a ser controlado pela atenção social dos amigos, mas sim pelo alívio de sensações internas.

Naquela primavera de 1976, esperei em vão meu habitual sentimento de felicidade. Pensei: é impossível que a vida não se transforme em uma coisa mais bela quando o sol se torna cada vez mais quente. O tempo todo, porém, carregava um monte de problemas sem mesmo saber quais eram. Quando cheirava, os problemas desapareciam, mas havia muito tempo que isso não me satisfazia por uma semana.

Enfim, a dica está dada! É um ótimo livro para conhecer bem o que se passa na cabeça de uma jovem começando a criar seu próprio grupo social, em suas primeiras baladas e no abuso de drogas.
Vou deixar aqui em baixo o trailer do filme, que é bom, mas não chega nem perto do livro:

Como terminar com a sua namorada em 64 passos

Genial!

Vi primeiro aqui.

A psicologia das plantas

20090701_plants1.jpgTodo mundo aprendeu no primário que as plantas costumam crescer em direção à luz. Mas pesquisas já mostraram que diferentes plantas também brigam por recursos e respondem a estímulos dependendo da sua história de experiências, o que alguns chamam de memória. Por causa de achados assim, certos pesquisadores já estão procurando o “cérebro” das plantas, usando em seus artigos termos como “inteligência das plantas”. Mais detalhes sobre estas pesquisas podem ser lidos aqui.
Não vejo nada de errado em emprestar termos da ciência animal e adaptá-los à botânica, mas problemas surgem quando atribuímos cognição à elas!
Acontece que como aparentemente as plantas se comportam (sim, elas respondem à estimulos do ambiente, crescem em determinadas direções e algumas até se alimentam de animais) já querem atribuir processos cognitivos à elas.
Ora, deve-se tomar cuidado para não mudar o foco de atenção das coisas! Não é porque a planta responde a estímulos ambientais que ela possue processos cognitivos! Então a planta tem mente? Não só a planta, mas os cachorros, as moscas, as minhocas, e as bactérias também? Nesse vídeo vemos claramente uma bactéria perseguindo seu alimento, quer dizer que ela age por causa de uma mente ou inteligência?
20090701_plants2.jpg
No campo das ciências naturais, nunca precisamos de termos como mente para explicar os comportamentos: assim como seres inferiores, somos animais respondendo à estimulos do ambiente! A grande diferença dos seres humanos é que somos capazes de descrever o que fazemos e como fazemos, e essas descrições em si podem servir como novos estímulos para outros comportamentos. Isso não implica que um comportamento tenha originado na “mente” ou no cérebro. O cérebro é só mais um órgão respondendo a estímulos ambientais, assim como o fígado.
E onde fica a mente nisso? No mundo metafísico, junto do Saci Pererê e do Papai Noel. (Ou como Skinner disse, no lado criacionista da psicologia!)
Minha inspiração pra esse post foi o MindHacks.

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