Tratamento infantil para o transsexualismo?

Todo behaviorista já ouviu alguma vez falar do Dr. Ivar Lovaas. Ele é famoso por ter desenvolvido as primeiras técnicas sucedidas de intervenção em crianças autistas e com outros atrasos de desenvolvimento que são até hoje amplamente utilizadas, fazendo com que elas tenham qualidade de vida normal em todo o mundo (exemplo da técnica aqui).

Pesquisando sobre ele encontrei alguns artigos que eu não conhecia, como este aqui de 1974, intitulado “Tratamento comportamental de comportamentos de papéis sexuais desviantes em uma criança masculina“. Como nunca tinha visto algo no assunto, resolvi dar uma investigada.

20101028_bruno.jpgO garoto do estudo, Kraig, tinha quase 5 anos e apresentava “comportamentos femininos” como “(a) preferência por roupas de outro gênero, (b) uso real e imaginário de artigos cosméticos, (c) gestos afeminados, (d) aversão à atividades masculinas e preferência por brincar com meninas e atividades femininas, (e) preferência no papel feminino, (f) tom de voz feminino e conteúdo predominantemente feminino nas falas e (g) afirmações verbais sobre desejo ou preferência de ser uma menina”. Ou seja, comportamentos tipicamente chamados de “transtorno de identidade de gênero” (menos na França, que a partir de 2010 não considera mais a transsexualidade como transtorno mental).

Embora o experimento seja um tanto controverso, principalmente nos dias de hoje em que não se vê mais as diferenças em gostos sexuais como “doença”, deve-se admitir que o delineamento experimental dele é maravilhoso. A mãe foi ensinada a reforçar comportamentos “masculinos” e extinguir comportamentos “femininos” usando atenção social na clínica e economia de fichas em casa.

Na clínica a criança ficava em uma sala com vários brinquedos, “masculinos” e “femininos”, e o experimentador a assistia em outra sala por trás de um espelho unidirecional. Em outros momentos, a mãe ficava na sala com a criança usando um fone de ouvido segurando um livro, e o experimentador dava instruções para ela de como se comportar. Por exemplo: quando o garoto brincava com bonecas ou falava em ser mulher, era pedido que a lesse o livro e ignorasse a criança; quando o garoto usava brinquedos como bonecos ou armas de borracha, a mãe era instruída a interagir com ele, sorrir, dar atenção, etc. Em casa, estes comportamentos eram reforçados com fichas que podiam ser trocadas por uso da televisão, barras de chocolate e outros estímulos agradáveis.
Uma curiosidade: na primeira vez que a mãe ignorou o comportamento feminino de Kraig, a birra foi tão grande que tiveram que parar a sessão e iniciar novamente após um intervalo. Outra: a sessão em que Kraig mais emitiu verbalizações femininas foi quando um outro adulto foi colocado dentro da sala.

No final das contas os comportamentos afeminados diminuiram drasticamente e os masculinos passaram a ocorrer mais. Três anos depois os experimentadores voltaram a checar a criança e o resultado ainda tinha se mantido. E este é só o primeiro de vários outros experimentos semelhantes.

20102810_lovaasresults.jpg
É muito comum ouvir alguns homossexuais dizerem que são assim “desde pequenos” e transsexuais dizerem que se sentem como “um sexo dentro e outro por fora”. Afirmações como essas nos levam a crer que haja um fator genético por trás. A explicação que usamos hoje é o clichê entre todos transtornos mentais: “predisposição genética associado a fatores ambientais”, mesmo que não saibamos exatamente qual gene ou quais fatores causem as alterações.

Pensando deste modo, este estudo mostra que a atenção seletiva dos pais estava interferindo na escolha de gênero da criança (como no episódio de birra quando a mãe o ignorou). Na era em que só se fala em genoma humano e neurotransmissores, não podemos deixar de lado também os fatores sociais e culturais.

O assunto é controverso e eu acho que consegui formar uma opinião pessoal: ninguém escolhe ser depressivo ou esquizofrênico, mas possíveis predisposiçõe genéticas e situações ambientais infelizmente a fazem ficar daquele jeito, da mesma maneira que ninguém escolhe ser transsexual, mas as contingências genéticas e ambientais a levam para esse caminho. As consequências aversivas de ser homo ou transsexual hoje são bem menores se comparadas com alguns anos atrás – nossa sociedade tem mudado bastante – dispensando estudos como o mostrado neste post.

Rekers GA, & Lovaas OI (1974) Behavioral treatment of deviant sex-role behaviors in a male child. J Appl Behav Analysis, 7(2), 173-190. PMID: 1311956

Discussão - 22 comentários

  1. Claudia Chow disse:

    Nossa, o estudo é bem antigo, na primeira lida isso passou batido pra mim e eu fiquei bem chocada!

  2. Felipe Epaminondas disse:

    Hehe pois é Cláudia a gente tem que levar em conta que foi feito na década de 70 né, hoje em dia duvido que um projeto desse passe em algum comitê de ética!

  3. Igor Santos disse:

    Mas será que isso não é só uma mudança de comportamento de X para Y, onde as variáveis podem representar qualquer coisa?
    Será que não funcionaria também para uma criança que não apresentasse tal comportamento passar a agir “transexualmente”?
    Talvez, não tenho como ter certeza disso, mas talvez o comportamento “normal” da criança fosse aquele e o tratamento apenas a adequou ao que os pais gostariam que fosse o normal.

  4. Felipe Epaminondas disse:

    Igor o que você falou está corretíssimo, o que foi feito foi mudar o comportamento de X para Y, mas isso é o que a gente sempre faz. Se a pessoa está agindo de outro jeito, pensando de acordo com esse novo jeito e se sentindo bem com esse novo jeito, quem pode dizer que este outro jeito é errado?
    Da mesma maneira que, acredito eu, uma criança “masculina” poderia ser transformada em “feminina” modificando a resposta dos outros a seu redor (a influência social novamente). Deste modo, não dá para saber se o comportamento “normal” da criança é o que ela apresenta “espontaneamente” ou o que ela apresenta após o tratamento pois ambos estão sendo controlados pelo ambiente, a diferença é que no tratamento esse ambiente é deliberadamente manipulado enquanto que no outro caso os pais e vizinhos e amigos etc não sabem que estão exercendo este controle.

  5. Francisco Boni Neto disse:

    Talvez as mais variadas dimensões multifatoriais pudessem colocar o garoto como potêncialmente bissexual. Como já falaram, não dá pra saber qual era o normal ou a pré-disposição real da criança.
    A maioria das pessoas transexuais e transgêneros não consideram seus sentimentos e comportamentos de gênero como desordens. Acho que a França progrediu ao não considerar a transsexualidade como transtorno mental. O que deve ser investigado é todo o sofrimento, a disforia de gênero.

  6. Jorge Oliveira disse:

    Tentei olhar científico, mas não consegui desfazer o sentimento de barbárie relacionado com o condicionamento baseado na satisfação da aprovação social.
    A inovação para a época, talvez tenha sido a descoberta da importância do reforço e do elogio para a atitude comportamental que a sociedade espera no seu estágio evolutivo.
    Achei muito desinteressada, a abordagem.
    E “Contigências genéticas” ?! A mãe também era bixa ?Francamente…

  7. Jorge Oliveira disse:

    Ah… não tinha reparado no título “Tratamento infantil para o transexualismo”.
    Concordo. Foi dado um tratamento realmente infantil para o tema.

  8. Felipe Epaminondas disse:

    Jorge, a atenção social mantém vários dos nossos comportamentos do dia-a-dia, inclusive terapeutas utilizam para ajudar muitas pessoas a saírem da depressão, melhorarem sintomas do autismo, esquizofrenia e outros. Concordo que mudar a orientação sexual de alguém é algo muito estranho, e por isso decidi compartilhar os resultados dessa pesquisa.
    Quanto às “contingências genéticas”, essa é uma visão que grande parte da comunidade científica acredita, você não precisa concordar. E, como explicado, estes fatores seriam apenas predisposições à orientação sexual e não determinantes, portanto, os pais não precisam ser “bixas”, como você disse, para que o filho também seja.

  9. Marcos disse:

    Orientação sexual é diferente de orientação de gênero!
    Orientação sexual: homo, hétero, bi, em tese.
    IDentidade de gênero: “feminina” e “masculina”.
    O estudo em questão, até onde pude entender, não focava em mudança de orientação sexual, mas, sim, em mudança de identidade de gênero de “feminina” para “masculina”. Não é correto imagir que toda mulher transexual é hétero (ou seja, nasceu com pênis, tornou-se transexual e sente atração por homens), pelo contrário, tenho conhecimento de mulheres transexuais que são lésbicas! (ou seja, nasceram com pênis, tornaram-se transexuais, e gostam de mulheres!). Logo, uma transexual pode ser homo ou hétero ou bissexual.

  10. zymed disse:

    Um post interessantíssimo!

  11. Junior disse:

    Estou indo para o último ano de Psicologia, e pretendo abordar como tema do meu TCC, sobre a clínica afirmativa LGBT que tem pouquíssimos estudos, principalmente no Brasil. Vendo este tópico, pude perceber o quanto o behaviorismo foi utilizado para um mal uso de suas técnicas, e o quanto a psicologia se prendia a biologia e ao ambiente para tentar explicar as questões relativas a sexualidade humana. E eu acredito que estas pesquisas devem ser lembradas para que nunca mais sejam feitas!!!

  12. Sidnei disse:

    NÃO CONCORDO MUITO COM ESTE COMENTÁRIO ACIMA SOBRE O TRANSEXUALISMO, PARA MIM ISTO NADA TEM HAVER COM FATORES AMBIENTAIS, JÁ QUE QUANDO NASCEMOS ESCOLHEMOS SER HOMEM, SER MULHER, SER GAY, SER LÉSBICA, E ESTE TIPO DE COMPORTAMENTO ESTÁ ALEM DO GENE, JÁ QUE OS NOSSOS TEMPERAMENTOS SÃO PARTE DE NÓS E NÃO DO GENE PROPRIAMENTE DITO, QUEM DECIDE SER GAY POR EXEMPLO AS VEZES NÃO É GAY, ELE ESTÁ GAY, OUTROS JÁ NASCERAM COM ESTA CABEÇA, MUITOS HOMENS SÃO MULHERES EM UM CORPO MASCULINO, E MUITAS MULHERES SÃO HOMENS EM UM CORPO FEMININO, A TRANSEXUALIDADE EM CRIANÇAS OU EM ADULTOS TEM E NÃO TEM HAVER, JÁ QUE EM ALGUNS CASOS SÃO GENÉTICOS, OUTROS NÃO SÃO, PORQUE A CRIANÇA POR EXEMPLO SÓ TEM O CORPO NOVINHO, MAS SEU ESPIRITO JÁ É MUITO ANTIGO PARA O MULTIVERSO, EM OUTROS CASOS TEM HAVER COM REJEIÇÃO, JÁ QUE ALGUMAS PESSOAS NÃO ACEITAM SUA VERDADEIRA PERSONALIDADE E SUA SEXUALIDADE, JÁ TROUXERAM ESTE PROBLEMA ANTES MESMO DA SUA ENCARNAÇÃO, AS NOSSAS ESCOLHAS SÓ SÃO VÁLIDAS QUANDO ESTAMOS CONSCIÊNTES DESTA DECISÃO, POIS NOSSAS DECISÕES ESTÃO ALÉM DA PSICOLOGIA MODERNA, DESDE NOSSO ENCAIXE NA CARNE QUE ESTAMOS DECIDINDO, PARA VC ANALIZAR ALGO ALÉM DO FISICO, TERÁ QUE ANALIZAR OUTROS CORPOS EXISTÊNTES, JÁ QUE O SER HUMANO TEM MAIS DE SETE CORPOS, O TRANSEXUALISMO É MUITO COMPLEXO PARA ALGUMAS CIÊNCIAS, MAS NÃO É TÃO COMPLEXO PARA O MUNDO ASTRAL, QUEM TROCA DE SÊXO ESTÁ E NÃO ESTÁ INTERFERINDO NA SUA NATUREZA, POIS A NATUREZA FISICA AS VEZES SE CHOCA COM A NATUREZA CONSCIÊNCIÓLOGICA, NOSSOS ORGÃOS GENITAIS FAZ PARTE DO CORPO VITAL, MAS NÃO FAZ PARTE DO CORPO ASTRAL, MUITA MULHER NÃO É MULHER, ELA ESTÁ MULHER, E MUITO HOMEM NÃO É HOMEM, ELE ESTÁ HOMEM, QUEM REALMENTE É O QUE É, É SUA ORIGEM ESPIRITUAL QUE NÃO TEM SÊXO, O CORPO FISICO FOI CRIADO NÃO SÓ ATRAVÉZ DO GENE, MAS TAMBEM DA MENTE ABSTRATA, ATRAVÉZ DO SEU FLUÍDO VITAL.

    • adriana disse:

      sidney, nada a haver seu comentário pois a psicologia é alem de cosmos e de 7 vidas, ninguém tem (7 vidas) isso não é comprovado, a ciência e a psicologia são claras e testadas cientificamente .

  13. jackeline disse:

    Sidnei.: em psicologia comportamental não tem essa de que ”nasceu com este comportamento” comportamentos não sugem do nada… não adianta querer defender seu ponto de vista com enfoque em espiritualismo…

  14. Flávia disse:

    Muito bom este Post! Tenho um filho de 5 anos que está bem com estes comportamentos. Vamos levá-lo ao psicólogo para que sejamos orientados quanto ao que fazer. Eu e meu esposo já conversamos sobre o assunto e queremos uma orientação justamente para saber se é o ambiente que está fazendo com que ele seja assim e se tem algo que podemos fazer por ele, ou se realmente é da essência dele. Se for a segunda opção vamos acolher e amar do mesmo jeito. Mas seja como for queremos fazer o que tiver a nosso alcance, sem que haja traumas para eles, para que num futuro a gente não fique pensando que tivemos culpa ou que erramos em algum ponto…

  15. […] mesma época, em 1974, Ivar Lovaas chegou a publicar um estudo de caso intitulado “Tratamento comportamental de comportamentos de papéis sexuais desviantes em uma criança masculina“. Aparentemente ele conseguiu bons resultados, mas não há um acompanhamento a longo prazo, […]

  16. Soraia Santos disse:

    Oi Flávia! Me identifiquei com o seu post. Pois tenho um sobrino de 3 anos que desde mt pequenininho prefere os brinquedos femininos e gosta de se vestir como menina. Inclusive nas expressões gestuais. Quando ele percebe que alguém está observando com recriminação ele trava e geralmente tem dificuldade de se aproximar da pessoa depois. Se ele se percebe aceito se torna uma criança feliz e doce. Do contrário fica arredio e agressivo.
    Gostaria mt de saber como agir. Nao temos preconceito, mas nós não sabemos como agir por exemplo quando ele quer se vestir de menina e brincar de boneca.

    Muito interessante esse tema para nós que estamos passando por essa situação.
    Soraia

    • Raquel disse:

      Flávia, se você ainda tiver esse canal de
      Comunicação aqui, gostaria que você falasse mais a respeito, se seu filho está indo psicólogo! Me identifiquei com seu caso! Obrigada

  17. Flávia Carneiro disse:

    Gente, transexualismo só se trata com cirurgia de redesignação sexual, desde que o diagnóstico seja correto. Eu lutei contra o transexualismo até os 40 anos quando tive que reconhecer que a única coisa que me curaria seria a transição de gênero. Estou muito feliz com o resultado da hormonioterapia , é incrível como os hormonios recuperam a mulher que a sociedade me proibiu de ser.

  18. Mundo Trans disse:

    Travesti Kimberly, no Especial #DiadasCrianças, relata trechos de sua história em sua infância.
    Veja o vídeo completo ⇢ https://youtu.be/ea9TAWg_9Z0

  19. Sheila disse:

    Meu filho fala gesticulando com as mãos e voz afemininada, mas ele não si percebi, e sofre porque as pessoas fazem bullying com ele.
    O que fazer pra ajudar!

  20. Eliane Ribeiro Vivian Hollas disse:

    Olá, tenho um menino lindo de 3 anos e meio…ele é encantador e tem demonstrado o tempo todo insatisfação de ser menino…afirma ser menina…quer vestidos…pintar unhas…pega meus sapatos e anda pela casa pega panos e enrola no corpo afirmando ser um vestido, fantasia com vestidos…quer brinquedos de menina…afirma ” nao sou menino, sou menina…E se vc pergunta reafirma: sou menina!
    Não temos preconceito, porem sabemos que o preconceito existe e gostaríamos de poupá-lo disso tudo..permitimos que ele ganhasse uma Barbie, ficou muito feliz, dorme com a boneca…estamos tentando encontrar um meio termo.. ir conduzindo da melhor forma possível, se é que é certo dizer isto, não tolindo tanto, nem incentivando..mas confesso não sabemos muito com o agir…gostaria de receber alguma troca de ideias com outros pais que estão enfrentando situação semelhante, alguma orientação de profissional da área…pois amamos ele demais e queremos o melhor para ele, que viva com equilíbrio, seja feliz..queremos ajuda-lo.Obrigada.
    Aguardo
    Eliane

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