Sobre o discurso do rei

“O Discurso do Rei” é o ganhador do Oscar de melhor filme de 2010. Quem não o assistiu, recomendo que não leia este post, pois ele contém spoilers. Você foi avisado!
Quando vi o trailer do filme já imaginei toda a história: um cara gago e com dificuldades de falar em público que faz vários tratamentos até que um diferente o ajuda e no final ele supera seu problema. O filme é exatamente isso, mas tem alguns pontos a mais que chamam a atenção.
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O príncipe Albert queria algo que solucionasse seu problema de gagueira e buscou diversos tratamentos. Infelizmente, nenhuma poção mágica estava disponível. Foi com a ajuda do terapeuta Lionel Logue que ele aprendeu a superar seu problema, mas não imediatamente – ele teve que, aos poucos, enfrentar seus demônios do passado e se abrir cada vez mais. Fica evidente que a gagueira de Albert está relacionada com sua história de vida e sua maneira de lidar com as situações da vida.
A mesma coisa acontece todos os dias em vários consultórios de psicólogos e psiquiatras, onde chegam pessoas com diferentes problemas e transtornos procurando pela cura rápida, ou a poção mágica que o salvará. A diferença é que hoje ela já existe: temos remédios para vários tipos de transtornos. No entanto, estes transtornos também estão relacionados com a história de vida e os comportamentos da pessoa, portanto não basta só tomar o medicamento, a pessoa precisa também enfrentar seus demônios se quiser ser independente um dia.
É claro que é mais fácil tomar remédio, além de ser mais prático e às vezes mais barato. Mas, na minha opinião, passar a vida inteira dependendo de um medicamento que mascara seus verdadeiros problemas certamente não é a solução.

Casey Heynes: O garoto que reagiu ao bullying

Você já deve ter visto esse vídeo, ficou extremamente famoso na internet e foi até parar no Jornal Hoje:

Ele mostra Casey Heynes reagindo a um garoto com um ataque após ser provocado e ter levado socos no rosto e na barriga. Este ato o fez ser aplaudido e apoiado por milhões de pessoas no mundo todo. Casey ainda é visto como um herói para muitos, mas por que tanta gente aplaude a violência?
O bullying não é uma coisa nova. Todos nós ou fomos vítimas de bullying ou vimos acontecer quando éramos novos. Mas só recentemente o assunto ganhou essa dimensão, muito provavelmente porque as antigas vítimas hoje assumem cargos que podem fazer alguma coisa, como Obama, que disse já ter sido vítima de bullying.
Semestre passado uma aluna minha quis investigar o fenômeno e entrevistou vários professores dos colégios da região e percebemos algo que ainda não havia passado pela minha cabeça: embora todos os professores soubessem o que era bullying, diziam que não aconteciam em sua sala de aula, mas que se acontecesse tomariam providência. Acho difícil que em todas essas turmas em nenhuma houvesse um exemplo sequer,e por isso este ano tenho alunos que irão fazer observações diretas junto à entrevistas.
Saber o que é bullying todo mundo sabe, os jornais falam muito disso. Mas como identificar se isso ocorre na minha sala de aula ou com alguém da minha família? E se ocorre, como ajudar a criança ou como agir com os bullies? Pouca gente sabe. Infelizmente, nisso quase não se fala! No caso dos garotos do vídeo, ambos levaram suspensão pois a escola não tolerava violência. Tornar o ambiente escolar mais aversivo certamente não é a melhor escolha, mas é o que todos aprendemos a fazer desde cedo: punir.
Me pergunto se as escolas seriam palcos de tantas brigas e intimidações se seguíssemos mais as dicas que Skinner nos passou sobre aprendizagem. Eu mesmo não tenho a resposta, terminarei o post com o vídeo da entrevista com Casey e a promessa de que voltarei a falar no assunto.

Obrigado ao Sedentário pelo link legendado!

3096 dias: por trás de um sequestro

20110303_livrocapa.jpg“A impresionante história da garota que ficou em cativeiro durante oito anos, em um dos sequestros mais longos de que se tem história”. Esta é a frase que está na capa do livro, mas o livro nos mostra uma realidade muito diferente da que imaginamos e que vemos nos jornais. É a história de um pobre coitado que não conseguia se ajustar à sociedade e uma pobre coitada que acabou sendo sua vítima.
Quando Natascha Kampusch foi sequestrada, ela era uma gordinha tímida de 10 anos que estava a caminho da escola. Mas ela não vivia num conto de fadas: ela não tinha muitos amigos, não se sentia à vontade no condomínio em que morava, seus pais estavam separados com muitas brigas e ela já não se dava muito bem com seu pai. Não quero dizer que o sequestro foi uma coisa boa pra ela – não foi. Mas ainda que ela chorasse muito e sentisse falta da mãe, esses conflitos podem ter sido o que a manteve sã nos primeiros dias de cativeiro.

“…ninguém no mundo exterior acreditaria que uma vítima de sequestro pudesse se sentar com seu sequestrador para jogar ludo. Mas o mundo exterior não era mais meu mundo. (…) E havia apenas uma pessoa que podia me tirar da solidão opressiva – a mesma que criara aquela solidão pra mim.”

Nos primeiros anos o sequestrador, Wolfgang Priklopil, a dava tudo que ela pedia, apesar de a manter no quartinho fechado. Ele tentava convencê-la de que ninguém do mundo exterior ligava mais pra ela. E provavelmente ele realmente acreditava nisso, o coitado achou que, com o tempo, ela poderia se apaixonar por ele e eles viveriam uma vida feliz juntos.
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Imagine você se sentindo carente, solitário, precisando de uma namorada. Você pode resolver sair de casa, se apaixonar por alguém que já conheça ou pedir a um amigo te apresentar alguém. Priklopil resolveu sequestrar alguém. Ele era uma pessoa metódica, explosiva e socialmente desajeitada, não sabia como fazer uma mulher gostar dele. A única mulher que ele confiava era sua mãe, então ele resolveu criar uma menina para que fosse como sua mãe, e eventualmente, sua mulher.
Mas Priklopil era um psicopata frio e explosivo, já não sabia como atrair mulheres muito menos como criar uma! Fez do único modo que conhecia: montando rituais, dando ordens e sendo extremamente controlador e agressivo. Eu não ficaria surpreso se me dissessem que ele também apanhou muito quando criança.

“…Priklopil queria apenas criar seu próprio mundinho perfeito, com uma pessoa que estivesse ali só pra ele. Provavelmente ele nunca teria podido fazer isso do jeito normal e decidira, assim, forçar e modelar alguém para isso. Em essência, ele não queria nada mais do que as outras pessoas: amor, aprovação, calor. Queria alguém para quem ele fosse a pessoa mais importante do mundo. Ele parecia não ter visto outro modo de conseguir isso senão sequestrando uma menina tímida de 10 anos e a afastando do mundo exterior, até que ela estivesse tão psicologicamente alheia que ele pudesse ‘recriá-la'”.

Para quem esteve aqui fora é facil dizer que ela tinha “Síndrome de Estocolmo”, uma condição que faz uma vítima se sentir próxima do agressor. Obviamente não é isso, ela conseguiu enxergar algo que ninguém mais via em Priklopil. Coisa que poucos conseguem entender e, por ser mais fácil, preferem dizer que ela tem uma síndrome qualquer.
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Além do abuso físico havia também o abuso psicológico. Ele obrigava Natascha a se ajoelhar para ele, a chamá-lo de mestre (que ela se recusava), dizia que ninguém mais gostava dela, que ela era imprestável e que ela não era tão boa nos trabalhos domésticos como sua mãe. Ele era claramente paranoico e obsessivo, tinha um medo exagerado de ser descoberto e suspeitava de todos, além de fazer rituais de limpeza para evitar qualquer pista do sequestro. Curiosamente, a própria Natascha começou a pensar como ele em alguns momentos, questionando se o jardim fora da casa era real ou construído. Se o vizinho que acenou para ela era um vizinho mesmo ou um contratado de Priklopil. Por causa disso ela não fugiu em várias oportunidades que teve: com medo de não acreditarem nela.
Ela passou 8 anos em cativeiro lutando e brigando com o sequestrador, se recusando a chamá-lo de mestre (e apanhando muito por isso), sempre pensando em como escapar até que finalmente conseguiu. Ela conseguiu isso justamente por ser uma menina “durona”. Quando ela escapou, após 8 anos sendo fria e desconfiada, logicamente ela continou sendo desta maneira – foi o que a experiência toda fez com ela. Mas o público não reagiu bem a isso: a ofereceram trabalho, pediram em casamento, ofereceram cuidados e quando viram que ela não queria ser tratada como uma pobre coitada, que não tinha medo de saber notícias do sequestrador e ainda visitou (e comprou) a casa dele começaram a achar que ela e sua mãe pudessem ser cúmplices do crime. Incrível.
20110303_priklopil.jpgE que fim teve o sequestrador? Então, quando ela fugiu o sonho dele desmoronou, junto com todos os rituais e controle que ele tinha sobre sua vida. Sem saber o que fazer (assim como nunca soube em situações complicadas) escolheu a solução mais fácil: se suicidar. Se jogou na frente de um trem em movimento. Quando vi a foto dele achei muito curiosa: o cabelo bem cuidado e a camisa branca abotoada até o topo: típico obsessivo com sua arrumação excessiva.
Enfim, o que eu mais gostei do livro é que ele não conta simplesmente a história de uma herói e o vilão, como todos esperam que seja. Não é como um livro sobre psicopatas e serial killers ou um episódio de Criminal Minds. Neste livro, fica clara a frieza de Natascha, que acabou a salvando, e a carência do Priklopil, que o fez cometer tal crime. Genial!

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