Como explicar o massacre no Rio?

A notícia que parou o Rio hoje de manhã: um ex-aluno entra armado na escola municipal dizendo que irá fazer uma palestra e abre fogo contra as crianças. Até agora temos dez mortes confirmadas sendo que nove eram meninas. A pergunta que todos fazem é: o que levou essa pessoa a cometer tal crime?
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Inicialmente nem queria comentar sobre o ocorrido, primeiro porque não sou especialista na área criminal e segundo porque sem conhecer a pessoa e sua história tudo o que eu dissesse sobre ele seria apenas especulação (e continua sendo). Mas a breve entrevista da Ilana Casoy no Jornal Hoje me serviu como boa inspiração.
O próprio assassinato em massa já nos diz um pouco sobre seu autor. Alguns matam por prazer, outros para passar uma mensagem, outros por que estão com raiva. Dos tiroteios escolares que temos conhecimento, a maioria envolve ódio, como o de Columbine. A pessoa entra com a meta de matar, como se estivesse revidando algo que aconteceu com ele no passado. Neste caso, ele não atirou pra todo lado, ele mirou nas cabeças e tórax dos alunos, ou seja, ele sabia o que estava fazendo.
20110407_rio2.jpgO garoto poderia fazer isso em mil lugares diferentes, mas escolheu a escola em que estudou. Provavelmente a vida escolar dele não foi boa, a Ilana levantou a possibilidade de bullying, e eu concordo com ela. Além disso tem o fato de 9 das 10 mortes serem meninas, o que me faz indagar se o atirador não sofreu durante a vida escolar ou recentemente por causa de alguma garota.
Junte aí problemas escolares, de relacionamento, familiares, estresse no trabalho ou sei lá mais o quê e o resultado é uma pessoa extremamente frustrada. Daí você mistura um pouco de falta de habilidades para lidar com frustração e problemas do dia a dia e você tem uma pessoa que não vê saída para seus problemas além da morte. Coloque um pouco de sofrimento causado por outras pessoas e você tem o ódio e sede de vingança.
Não estou o isentando da culpa de ter cometido este crime. Ninguém tem o direito de matar inocentes assim. Estou somente dizendo que para explicar o crime de hoje temos que olhara para a história dele, e com certeza encontraremos os fatores que o influenciaram a cometer tal ato.
Geralmente eles já começam o crime com a intenção de se suicidarem. Eles têm plena consciência de que estão fazendo algo errado e se matar serve como uma forma de fugir da pena posterior. No final das contas, ele descontou sua raiva, “se vingou das pessoas que o fizeram mal” (pelo menos na cabeça dele) e acabou com seu sofrimento, com a morte.
Nos EUA isso já virou quase rotina mas este é só o primeiro caso no Brasil. E imagino que mais ainda podem ocorrer enquanto as escolas forem um local de tanta coerção e punição.
Para saber mais sobre o assunto recomendo os ótimos livros da Ilana Casoy.
Atualização: foi divulgada na internet uma carta que o assassino levou consigo. A carta é bastante confusa e dá indícios de alguma psicopatologia, como delírios severos. Em breve farei um outro post sobre o mesmo, levando em conta estes novos dados.

Discussão - 11 comentários

  1. Bessa disse:

    Felipe, ser mal interpretado é sempre um risco em se tratando de explicar comportamentos atrozes. Espero que os leitores não encarem uma explicação como uma justificativa. É engraçado que quando explicamos por que a radiação mata uma pessoa todo o mundo entende que não estamos sugerindo que a radiação tem mesmo é que matar, mas quando explicamos temas como o que você abordou hoje logo surge a impressão de que explicar o crime é apoiá-lo. Parabéns pela ousadia.
    Bessa

  2. Pedro disse:

    Bem, ficou bem superficial e até entendo porque não sabemos quase nada do homem mas já apontou a alternativa mal provável.
    De qualquer forma eu fiquei sabendo por cima que ele foi capturado pela polícia e somente depois, >segundo a mesma

  3. hugo dias perpetuo disse:

    Felipe, gostei do texto, mas com todo respeito, não adianta muito tratar o caso analisando apenas a vida do criminoso, como você deixou claro, estas coisas acontecem em sociedades de massas e, por muitas vezes, a culpa está nas massas. A única coisa que a escola pode fazer no máximo é colocar guaritas. Matar pessoas era a chance dele sair no anonimato e não mais ser aquele menino que não consegue se comunicar. Já reparou que a maioria desses crimes tem sempre uma carta escrita? As pessoas querem que as outras sejam “pop star”, e essas que não conseguem ser “populares”, ser ouvidas, matam pessoas como uma forma de desabafar seu odio: seu odio de não mais conseguir ficar em silêncio. Nessas horas me vem em mente somente a 2 lei da termodinamica: a entropia de um sistema isolado tende a aumentar, jamais diminuir.
    Amplexo.

  4. Marcelo disse:

    Muito bom o post, a situação deu para ver que não é de justificar, mas sim entender o cenário que influenciou o ser a cometer tal fato. Não entendo muito de psicologia, mas analisando friamente todas as informações passadas pela imprensa ( o que não se deve fazer, muito sensacionalismo),a primeira questão é ele sofreu bullying? Porque contra crianças? Porque na escola que ele estudou? São muitas perguntas que acho que só o próprio poderia responder e o que sobra são fragmentos de uma mente perturbada, que podem dar mil respostas diferentes para cada pergunta.
    Acredito que as pessoas deixaram de se importar umas com as outras ainda mas nas metropolis, como algumas coisas estão em frequência como depressão, stress e outras muitas vezes não percebemos isso em outras pessoas. Acho que se alguém no convívio social com a pessoa tivesse notado algo extenuante no comportamento, poderia evitar tal tragedia dando uma devida atenção e reportando a pessoa a especialistas que cuidassem dessa doença que ele poderia estar sofrendo.
    Na verdade e muito difícil analisar uma caso onde a mortes de terceiros ainda mais como foi esse.

  5. Érico disse:

    Oras, uma explicação é óbvio que existe. Mas isto não é agora possível de identificação, podem ser traumas de infância, lesões cerebrais, doenças mentais inatas ou adquiridas, carga genética… o mais provável é que algo tão grave e raro assim seja uma combinação de vários desses elementos. Mas a verdade é que ninguém sabe precisamente, e qualquer tipo de análise agora seria extremamente superficial. Mas entendi o intuito do tópico, pq pro público às vezes é difícil discernir que mesmo um comportamento deste pode ser explicado pela cognição…

  6. André Souza disse:

    Acabei lembrando desta música…
    Jeremy -Pearl Jam
    At home
    Drawing pictures
    Of mountain tops
    With him on top
    Lemon yellow sun
    Arms raised in a V
    Dead lay in pools of maroon below
    Daddy didn’t give attention
    To the fact that mommy didn’t care
    King Jeremy the wicked
    Ruled his world
    Jeremy spoke in class today
    Jeremy spoke in class today
    Clearly I remember
    Pickin’ on the boy
    Seemed a harmless little fuck
    But we unleashed a lion
    Gnashed his teeth
    And bit the recessed lady’s breast
    How could i forget
    He hit me with a surprise left
    My jaw left hurtin
    Dropped wide open
    Just like the day
    Like the day i heard
    Daddy didn’t give affection
    And the boy was something mommy wouldn’t wear
    King jeremy the wicked
    Ruled his world
    Jeremy spoke in class today
    Jeremy spoke in class today
    Try to forget this…
    Try to erase this…
    From the blackboard.

  7. Boa tarde Felipe.Parabéns pelo blog.Estou no quarto período de Psicologia, todavia tenho a impressão de que já está passando da hora do CFP e dos Psicólogos apresentarem propostas preventivas com relação a estes fatos ocorridos.Sabemos que a cultura de cada povo é peculiar, no entanto penso que EDUCAÇÃO é a base de tudo.Não adianta aumentar a segurança se não houver desde a infância campanhas elucidativas sobre:direitos humanos, moral e cívica, constituição, liberdade de crença e , porque não, orientação religiosa nas escolas para pais e alunos.É fato que principalmente na adolescência ocorrem muitos desvios de conduta, dentre eles grande parte por falta de acompanhamento psicológico, pois muitos pais não convivem com seus filhos – dedicando-se ao trabalho e delegando esta atribuição a outros.Quem sabe não seria a hora de reivindicarmos do governo abrirem concursos par Psicólogos atuarem em todas as escolas, públicas e particulares, durante o horário de funcionamento para realizarem acompanhamento contínuo do perfil Psicológico de nossas crianças e jovens e, junto aos Educadores, participarem de Palestras sobre tais temas.Sabemos igualmente sobre o inevitável incremento tecnológico na informática, contudo, é preciso dosar a interação da criança e jovem com tal tecnologia, uma vez que ela também é uma das responsáveis pelo afastamento do convívio familiar e isolamento de muitos jovens.Enfim,espero siceramente que a sociedade, em todo seu âmbito, possa mover recursos para melhorar o atendimento social deste povo tão sofrido.Um abraço fraterno.Semíramis Reis.

  8. Silene David Jorge disse:

    Muito bom Felipe…pensei o mesmo a respeito do assassino e sua provável dinâmica mental. Mas ainda acrescento mais. Ele estudou naquela escola no ano letivo de 2002, ou seja há 9 as atrás. Estamos em 2011, ou seja, naquele ano de 2002 ele tinha mais ou menos a mesma idade das vítimas. Em sua doença mental ele estava assassinando na verdade, talvez o seu lado feminino e o que vivenciou dentro daquele local e que marcou toda a sua adolescência. Claro que temos que considerar os fatores sociais e familiares do tal indivíduo, que sendo filho adotivo, se sentia de alguma forma rejeitado e odiado pela mãe natural. Bem, são tantas as hipóteses que cultivaram tanto ódio de si mesmo. E devemos nos lembrar que o silêncio fala mais do que qualquer palavra. É pena que ninguém pode evitar tal acontecimento. Um abraço e fiquem com Deus.

  9. Aline Correa disse:

    Realmente não se pode isentar o cara de culpa, como você mesmo escreveu, ninguém tem direito de matar inocentes. Mas tachá-lo de psicopata não resolve o problema que foi criado. A Sociedade que, certamente, o oprimiu durante sua vida tem uma grande parcela da culpa. Com toda a mídia divulgando o perfil do rapaz, não há dúvida que ele não se encaixava nos “padrões” impostos pela Sociedade, e deve ter sido rejeitado por isso, como acontece com muitas pessoas consideradas diferentes. Não sou psicóloga, mas suponho que essa rejeição deve ter contribuído (se não tiver criado) para agravar sua condição mental. Julgá-lo e condená-lo ao inferno não vai trazer de volta as vidas perdidas ou diminuir o sofrimento dos pais, nem evitar que outras tragédias similares venham a ocorrer. O que podemos fazer é ensinar nossas crianças e adolescentes a não humilhar ou perseguir ninguém por não ser o modelo que a sociedade prega, a respeitar quem quer que seja.

  10. Dell disse:

    Ah, Filipe, eu estava pensando a mesma coisa sobre esse fato. A sociedade chocada com o ocorrido, taxando o indivíduo de psicopata, mas nada de analisar o porque desse ato tão abominável. Este rapaz está morto, não pode mais matar, mas quantos Wellingtons estão espalhados pelo Brasil, a um passo de fazer outros massacres?
    Analisar o perfil deste rapaz e repensar o modelo da instituição escolar é mais do que necessário para evitar outras tragédias similares.

  11. Concordo com seu ponto de vista! acho que é bem por aí…
    A propósito, fiz um post em que analiso um pouco mais o caso, partindo do mesmo pressuposto, pesquisando bastante e citando trechos da 2ª carta.
    Dê uma olhada:
    “Um louco num mundo perverso”
    http://vivopelavida.com.br/2011/04/11/um-louco-num-mundo-perverso/

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