“Embrulhando” crianças autistas

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Essa é mais uma para a série “Loucuras da Psiquiatria”: na última edição do Journal of the American Academy of Child & Adolescente Psychiatry (Fev. 2011) foi apresentada uma nota alertando sobre um tratamento ridículo originado da França para crianças autistas, o “Le Packing“. Dá só uma olhada:

Esta suposta terapia consiste em embrulhar o paciente (vestido apenas pelas roupas de baixo ou nus em caso de jovens crianças) várias vezes por semana durante semanas ou meses com toalhas encharcadas de água fria (10ºC à 15ºC). O indivíduo é também enrolado com cobertores para ajudar o corpo a se esquentar em um processo que dura 45 minutos, tempo em que a criança ou adolescente é acompanhada por duas pessoas da equipe.

E se você achou isso ruim, dê uma olhada nas explicações completamente pseudocientíficas:

A suposta meta desta técnica é “permitir a criança a se livrar progressivamente de seus mecanismos de defesa patológicos contra ansiedades arcaicas”, alcançando “uma maior percepção e integração do corpo, e um maior sentimento de confinamento”.

Embora possa parecer absurdo, temos que lembrar que em alguns casos as pessoas com autismo apresentam comportamentos extremamente bizarros, podendo chegar até mesmo à automutilação, levando seus pais (e pesquisadores) a buscar medidas extremas para tentar controlas estes comportamentos.
Não é a primeira vez que se utilizam medidas drásticas para se controlar comportamentos bizarros e me dá medo imaginar que provavelmente esta não será a última. Se você tem alguém assim na sua família, antes de prendê-lo à força ou com sedativos, procure por técnicas comprovadamente mais eficazes.
Vi primeiro no Neuroskeptic.
ResearchBlogging.orgAmaral D, Rogers SJ, Baron-Cohen S, Bourgeron T, Caffo E, Fombonne E, Fuentes J, Howlin P, Rutter M, Klin A, Volkmar F, Lord C, Minshew N, Nardocci F, Rizzolatti G, Russo S, Scifo R, & van der Gaag RJ (2011). Against le packing: a consensus statement. Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry, 50 (2), 191-2 PMID: 21241956

Algumas polêmicas do DSM-V

Pra quem não sabe, o DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) é o manual onde estão listados os diversos transtornos psicológicos e suas características. Atualmente ele está na 4ª edição e a 5ª já está em desenvolvimento por algum tempo. Algumas críticas costumam ser levantadas quanto à confiabilidade deste manual e muitas polêmicas têm sido levantadas durante a elaboração da sua 5ª edição.
Eu tenho evitado tocar neste assuno aqui no blog justamente para não levantar polêmicas e não acabar prejudicando ninguém nem nenhuma profissão, mas tenho lido tanta notícia que não dá mais pra passar em branco.
Na edição de janeiro da revista online Wired há uma publicação sobre a oposição de Allen Frances ao modo como o DSM-V tem sido construído. Embora ele seja apenas um de muitos insatisfeitos, o que chama atenção é que além de psiquiatra, ele trabalhou na construção da 4ª edição.
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Ele chega a dizer coisas como “Não há definições de doença mental, é tudo porcaria” (“There is no definition of a mental disorder. It’s bullshit,”) e “cometemos erros que tiveram terríveis consequências” (“We made mistakes that had terrible consequences“). Certamente ele se refere a casos como a extensão do transtorno bipolar para crianças, acarretando em um aumento de aproximadamente 40% de diagnósticos do transtorno e prescrição de antipsicóticos para estas crianças, mesmo que muitos dos efeitos destas drogas em cérebros em desenvolvimento sejam desconhecidos e podem levar à obesidade e diabetes. Ele ainda cita que em 2007, Joseph Biederman, um psiquiatra de Harvard que era a favor do diagnóstico de transtorno bipolar infantil, não quis revelar o quanto recebe da Johnson & Johnson, fabricante do medicamento risperdal (risperidona). O aumento de diagnósticos de TDAH então, fica em outro post.
Outra crítica que Frances levanta é o diagnóstico de síndrome de risco à psicose, em que apenas um quarto dos pacientes realmente desenvolveriam a psicose. Segundo ele, nada impede que novos tratamentos (e medicamentos) sejam criados para lucrar em cima desse “risco”.
Em resposta à estas críticas, a APA disse que Allen tem muito orgulho da 4ª edição e que deixará de receber os pagamentos pelos royalties da mesma assim que a nova edição for lançada e isso deve ser considerado ao avaliar suas afirmações. Ao meu ver, ao invés de criticar a personalidade de Allen, a APA deveria publicar os estudos científicos por trás das decisões do DSM-V. O problema é que não existem.
O artigo da Wired fala muito mais profundamente sobre o assunto, inclusive críticas a diagnósticos que eu já fiz muitas vezes no blog e pretendo continuar fazendo. Quem tiver um tempinho de sobra recomendo muito a leitura. Quem não tiver, pelo menos dê uma olhada na tabela que mostra como “do DSM-I ao DSM-V, definições de transtornos mentais têm evoluído com a cultura.”
Fontes:
Advances in the history of psychology
Wired Magazine

Medicando viciados em Starcraft

Dia 27 de julho de 2010 foi um dia muito importante para milhares de adolescentes e outros jogadores de jogos de computador no mundo todo: o lançamento do Starcraft 2, um dos jogos mais esperados dos últimos anos.
Juro que não estou exagerando: este jogo é a sequência do Starcraft, lançado em 1998, que é tão jogado que hoje na Coreia do Sul, por exemplo, existem dois canais de televisão dedicados a transmitir partidas do jogo. Os jogadores vivem de patrocínio que recebem para jogar como qualquer outro esporte e isso até já virou tema de reality show. Curiosamente, também na Coreia do Sul, alguns jovens estão tendo prejuízos na vida social por causa de jogos como este, fazendo surgir o termo “dependência de jogos online“.
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Han et al, psiquiatras sul-coreanos, deram a 11 jovens com “dependência ao Starcraft” a droga bupropiona, um antidepressivo também usado em casos de dependência à substâncias e à nicotina. Estes garotos jogavam pelo menos 4 horas diárias, sendo que seis deles não frequentavam mais a escola por dois meses matando aula em lan houses e outros dois se divorciaram por causa do uso excessivo de internet durante a noite.
E parece que a droga funcionou: após 6 semanas de tratamento, foram observados decréscimos na vontade de jogar Starcraft (23.6%), no tempo total gasto jogando (35.4%) e nos escores de uma escala de medida da dependência à internet (15.4%). Quem sabe o Starcraft não ganha uma seção especial no DSM-V?
Ainda bem que trabalho fora de Goiânia e meu notebook não roda o Starcraft 2, pois nos finais de semana eu gasto muito mais do que 4 horas num dia com esse jogo.
Fonte: Han DH, Hwang JW, & Renshaw PF (2010). Bupropion sustained release treatment decreases craving for video games and cue-induced brain activity in patients with Internet video game addiction. Experimental and clinical psychopharmacology, 18 (4), 297-304
Vi no Neuroskeptic.

Procurando o lado bom da depressão

A última edição da Galileu estampa na capa o texto “O lado bom da depressão“, o que me fez ler a matéria. Curiosamente, em um debate com três profissionais da saúde, os três disseram não concordar que a depressão tenha um lado bom (quer dizer…).
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E realmente não tem! Acho que o que a revista quer dizer é que, no processo de superação da depressão (que geralmente envolve terapia) você pode adquirir um autoconhecimento muito grande, podendo até passar por reviravoltas na sua vida que, no fim, podem ser muito satisfatórias. Neste ponto eu concordo: a depressão não tem lado bom, mas o modo come você lida com ela pode trazer benefícios.
É por isso que defendo o uso da terapia mesmo quando a pessoa está tomando medicamentos, caso contrário é como tomar aspirina para a dor de cabeça: seu sintoma some, mas você não sabe porque ele apareceu e nem quando pode voltar.
A primeira capa da matéria diz: “Ela [a depressão] não pode ser diagnosticada por exames de sangue, detectada em chapas de raios-x ou investigada em testes de resistência física“. Isso porque a depressão não é uma doença como o mal de Alzheimer ou a diabetes, mas sim um transtorno comportamental.
20100511_depression.jpgIsso quer dizer que ela se desenvolve de acordo com a maneira que lidamos com nossas dificuldades do dia-a-dia. Pode até ser que algumas pesquisas apontem indícios de predisposição genética, mas ela ainda depende do ambiente. E a própria matéria, apesar de chamar a depressão de “doença” umas mil vezes, mostra isso em seus casos relatados: primeiro uma jovem morando só em uma cidade sem emprego nem amigos, depois uma mulher que trabalhava e estudava excessivamente (e aumentou essas horas para lidar com a sensação de vazio), e em seguida um rapaz insatisfeito com o curso que havia escolhido (e para mascarar a tristeza, gastava tempo e dinheiro em compras e baladas). São situações que já trazem mal estar e, dependendo de como lidamos com elas, podemos piorar ainda mais as coisas. A desesperança vem e daí a rotulamos de depressão – o “câncer da alma”.
Acho que acabei falando mais mal do que bem da matéria, mas ela é bem interessante sim! Principalmente para curiosos e pessoas que conheçam outras com o diagnóstico. Já para profissionais da área as revistas científicas são sempre preferíveis.

A Mente Brilhante de John Nash

20100126_nash.jpgA esquizofrenia é o transtorno que mais me interessa, principalmente pela sua complexidade. Na história deste transtorno, um dos casos mais marcantes é o do matemático John Nash que, com esse diagnóstico, além de apresentar comportamentos estranhos e delirantes, ganhou o prêmio Nobel de economia em 1994. A história dele pode ser vista no filme “Uma Mente Brilhante“, e uma análise comportamental do filme neste artigo.
Acabei de descobrir no Mindhacks que a PBS fez um documentário sobre a vida dele, incluindo entrevistas com pessoas próximas e até com o próprio Nash. Este documentário pode ser assistido aqui ou baixado por torrent.
Infelizmente o documentário está sem legendas, mas a transcrição pode ser lida aqui para quem quiser acompanhar, ou quem sabe legendá-lo para nós?!

Entrevista sobre TOC com Denis Zamignani

Vou tentar compensar a recente falta de posts com essa entrevista sobre o Transtorno Obsessivo Compulsivo com o psicólogo Denis Zamignani, que veio pra Goiânia dar umas aulas esse final de semana e eu pude ter o prazer de conhecer!

Ansiedade de arrancar os cabelos

Conhece Nip/Tuck? É uma série sobre dois cirurgiões plásticos que lá nos EUA já está na sexta temporada, e que eu gosto muito de assistir pelos personagens estranhos que aparecem em cada episódio, além disso, de vez em quando um ou outro transtorno mental aparece também.
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No último episódio, o terceiro da 6ª temporada, descobrimos que Annie, a filha de um dos cirurgiões apresenta tricotilomania – ela arranca fios de cabelo, principalmente em momentos de ansiedade, às vezes engolindo-os, deixado até parte do couro cabeludo exposto.
Estranho né? Parece coisa de outro mundo, ou até mesmo uma doença. E é assim que o senso comum vê a tricotilomania: como uma doença. Dêem uma olhada nesta reportagem.
Só que essa “doença” tem tratamento: chama-se Terapia Comportamental. Coincidentemente vi na semana passada, na reunião da SBP, um painel expondo os resultados de um caso semelhante intitulado “Tricotilomania: um estudo de caso em terapia comportamental“, orientado pelo Prof. Flávio Borges. E não foi o único trabalho que vi neste assunto: no ano passado um outro feito sob orientação da Profª Ilma Britto, realizado aqui na PUC-GO, também foi divulgado.
A tricotilomania é mais um exemplo de comportamentos que parecem doença, mas que na verdade são comportamentos complexos que podem ser modificados, ou em outras palavras, tem tramento. A terapia produz resultados maravilhosos com transtornos de ansiedade (e outros também), mas é uma pena que tão pouca gente tenha conhecimento disso.

Anorexia: um caso de quase morte

20090920_anorexia2.jpgNa década de 60 a Análise do Comportamento ainda estava engatinhando, mas suas aplicações já traziam resultados quase milagrosos, embora seus procedimentos podiam ser às vezes mal vistos por outros profissionais. Como exemplo disso resolvi mostrar este experimento interessantíssimo publicado em 1965:
A paciente sofria de anorexia nervosa, não comia e estava em perigo de morte. Ela media 1,64m e pesava 23kg e meio. Os autores a descreveram como tendo “a aparência de uma múmia mal preservada a que se dera repentinamente um sopro de vida”.
Antes da terapia, ela vivia em um quarto atraente do hospital com quadros, flores, uma vista agradável, livre acesso à visitas, rádio, televisão e uma radiola. Mas um caso crítico desses precisou de uma intervenção crítica: os experimentadores lhe tiraram seus benefícios e a moveram para um quarto pobre e sem acesso às visitas. Ela podia ficar com seu tricô o tempo todo, mas só teria acesso às visitas, televisão, música e flores como reforços para o comportamento de comer (passo necessário para se fazer o condicionamento operante).
Além disso, as enfermeiras foram instruídas a retirar a atenção e a simpatia que elas usavam para tentar convencer a paciente a comer. Elas só podiam dizer no máximo um “bom dia” ao entrarem em seu quarto, e os experimentadores se encarregaram de tomar as refeições diárias com a paciente. Segundo sua hipótese, a atenção dada pelas enfermeiras poderia estar ajudando a manter a recusa de se alimentar.
Nestes momentos de refeição, os autores modelaram o comportamento de comer conversando com a paciente quando pegava seu garfo, punha comida na boca, mastigava o alimento e assim por diante. Também modelaram a quantidade de alimento ingerido, dando acesso ao rádio ou à televisão quando ela ingerisse maiores quantidades de comida. Mais tarde, quando ela começou a ganhar peso, outros reforços foram introduzidos, ela foi estimulada a escolher seu próprio cardápio, convidar outro paciente para jantar com ela, etc.
À primeira vista parece um procedimento estranho e o pessoal do hospital precisou ser informado das razões deste “tratamento desumano” de retirar os bens de seu quarto, além de serem convencidos de que era mais humano do que deixar a paciente morrer, uma vez que ela já tinha sido internada 8 vezes sem sucesso. A eficácia do tratamento pode ser julgada pelas fotos tiradas da paciente.
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Outros procedimentos também foram estabelecidos para depois que a paciente deixou de residir no hospital: a família foi instruída a não deixá-la comer sozinha, controlar os horários e só conversar sobre bons assuntos nas refeições, entre outros.
Curiosamente, cinco anos depois os experimentadores tiveram notícia da ex-paciente: ela estava se mantendo com 40 quilos e estava trabalhando feliz e com êxito em uma enfermaria de recém-nascidos no hospital de sua universidade!
Adaptado de: Reese, E. P. (1978). Análise do Comportamento Humano.Tradução de G. P. Witter. Rio de Janeiro: José Olympio. (Trabalho original publicado em 1966).

Tratamento para ansiedade: Respiração? Yoga? Meditação?

Uma das coisas mais básicas sobre ansiedade é que apesar dela parecer coisa de outro mundo, como eu disse aqui, ela é algo normal do corpo humano e acontece com todos, seja em menor ou maior grau. E é importante saber disso para ajudar no seu controle.
Seja para enfrentar situações amedrontadoras, para ajudar a prevenir ataques de pânico ou mesmo para relaxar durante momentos do dia, uma técnica muito utilizada na Terapia Comportamental é a Respiração Diafragmática, que envolve respirar utilizando os músculos do diafragma, aumentando assim a captação de oxigênio pelos pulmões. Como consequência disso, a pessoa se sente mais calma e a ansiedade é diminuída.

A leitora Clarissa me fez a seguinte pergunta:

“Felipe, você acha que meditação e yoga ajudam a controlar a ansiedade?”

Eu acredito que sim. Muitas pessoas ficam ansiosas ou estressadas durante grande parte do dia e isso pode trazer más consequências como dor de coluna ou de cabeça, gastrite nervosa, entre outros problemas. A meditação e o Yoga ajudam a pessoa a ter um maior controle sob seu corpo além de fazê-la entrar em contato com um estado de relaxamento.
Outras técnicas de consultório também possuem semelhança com essas atividades, como o Relaxamento Muscular Progressivo, que envolve relaxar a pessoa ajudando ela a perceber seu corpo em relaxamento – assim como falei no parágrafo acima!
Embora seja interessante trabalhar o relaxamento e baixar a ansiedade, é fundamental também no tratamento identificar as situações do dia-a-dia que estão deixando a pessoa ansiosa em primeiro lugar, para que enfim a pessoa possa fazer alguma mudança nesse aspecto, prevenindo outras crises e recaídas!

Lobotomia no Youtube

Acabei de encontrar esse vídeo muito interessante sobre Dr. Walter Freeman e o início da Lobotomia, hoje também conhecida como psicocirurgia – um nome mais bonito para um procedimento que continua porco.

No desespero para encontrar soluções para os problemas comportamentais, a ciência já tentou muitas coisas absurdas, na maioria das vezes não de modo tão científico assim, como no caso da própria lobotomia.
Na busca de melhores tratamentos devemos olhar para trás e nos perguntar se estamos seguindo o caminho certo, aprender com os erros do passado, senão a coisa fica mais ou menos como está hoje: embora este procedimento seja menos utilizado, ainda não foi extinto, e além dele ainda vemos pessoas internadas, abandonadas pelos familiares, tomando diariamente 2, 3, ou até 7 diferentes medicamentos tarja-preta para controlar os comportamentos inadequados. Controlar, mas não resolver. Grande evolução!

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