Medicando viciados em Starcraft

Dia 27 de julho de 2010 foi um dia muito importante para milhares de adolescentes e outros jogadores de jogos de computador no mundo todo: o lançamento do Starcraft 2, um dos jogos mais esperados dos últimos anos.
Juro que não estou exagerando: este jogo é a sequência do Starcraft, lançado em 1998, que é tão jogado que hoje na Coreia do Sul, por exemplo, existem dois canais de televisão dedicados a transmitir partidas do jogo. Os jogadores vivem de patrocínio que recebem para jogar como qualquer outro esporte e isso até já virou tema de reality show. Curiosamente, também na Coreia do Sul, alguns jovens estão tendo prejuízos na vida social por causa de jogos como este, fazendo surgir o termo “dependência de jogos online“.
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Han et al, psiquiatras sul-coreanos, deram a 11 jovens com “dependência ao Starcraft” a droga bupropiona, um antidepressivo também usado em casos de dependência à substâncias e à nicotina. Estes garotos jogavam pelo menos 4 horas diárias, sendo que seis deles não frequentavam mais a escola por dois meses matando aula em lan houses e outros dois se divorciaram por causa do uso excessivo de internet durante a noite.
E parece que a droga funcionou: após 6 semanas de tratamento, foram observados decréscimos na vontade de jogar Starcraft (23.6%), no tempo total gasto jogando (35.4%) e nos escores de uma escala de medida da dependência à internet (15.4%). Quem sabe o Starcraft não ganha uma seção especial no DSM-V?
Ainda bem que trabalho fora de Goiânia e meu notebook não roda o Starcraft 2, pois nos finais de semana eu gasto muito mais do que 4 horas num dia com esse jogo.
Fonte: Han DH, Hwang JW, & Renshaw PF (2010). Bupropion sustained release treatment decreases craving for video games and cue-induced brain activity in patients with Internet video game addiction. Experimental and clinical psychopharmacology, 18 (4), 297-304
Vi no Neuroskeptic.

Mental – Psicopatologia na televisão

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A série Mental acabou de estrear no canal Fox e tem tudo que eu, como psicólogo, gosto: pessoas com transtornos mentais (começando com a esquizofrenia!), crítica ao uso e abuso de medicamentos, aos seus efeitos colaterais, ao método de tratamento tradicional da psiquiatria e pelo visto ainda virão críticas à indústria farmacêutica.
Também percebi uma grande consideração ao lado humano dos pacientes, o que é genial! Não é raro ver em instituições os pacientes trancados ou abandonados de um lado e os profissionais em seus “cantinhos especiais”, como se os pacientes tivessem alguma doença contagiosa. No seriado o personagem principal, Dr. Jack Gallagher, é claramente contra essa divisão.
Enfim, temos mais uma série disponível na televisão para os profissionais da saúde mental e, claro, os curiosos. Só espero que ela mantenha a qualidade do primeiro episódio! O horário é às quartas, 10 da noite – mais informações aqui.

Thomas Szasz entrevistado sobre a psiquiatria

20090422_szasz.jpgO site australiano All in the Mind realizou este mês uma extensa (e muito interessante) entrevista com o Dr. Thomas Szasz. Ele pode não ser tão conhecido entre as pessoas fora da psiquiatria, mas já escreveu 33 livros como “O Mito da Doença Mental“, “A Fabricação da Loucura” e “Esquizofrenia: O Símbolo Sagrado da Psiquiatria“, é considerado por muitos um dos “cabeças” do movimento da reforma psiquiátrica nos Estados Unidos e é, além de tudo, psiquiatra e professor na State University of New York!
A visão de Szasz é bastante controversa, e alguns até o consideram muito radical, mas seus livros certamente dão muito o que pensar e ele levanta bons questionamentos como a inexistência da mente, das doenças mentais como algo físico e do excesso de prescrições medicamentosas para problemas comportamentais. Assuntos que eu tentarei aprofundar nos próximos posts.
Por enquanto, vou traduzir alguns trechos que mais me chamaram a atenção:

“Thomas Szasz: A palavra chave é comportamental, é por isso que os psiquiatras frequentemente chamam um transtorno mental de transtorno comportamental. Mas o comportamento não é uma doença, não pode ser uma doença, apenas o corpo pode ter uma doença.
“Thomas Szasz: Como pode a depressão ser diferente da tristeza? Depressão é se sentir mal, sentir fatigado, com falta de esperança, sem ajuda – e são os sentimentos normais de alguém que se encontra em uma situação de vida muito ruim, que de repende perdeu seu dinheiro ou ficou doente, ou tipicamente é um sentimento comum em idosos. Se você vai a um asilo e olha em volta, é um lugar deprimente, e o que é deprimente no lugar é que é todo mundo depressivo.”

Questionado quanto aos medicamentos e sua eficácia, Szasz diz:

Thomas Szasz: Não vejo dificuldade em explicar isso. O comportamento humano, seja normal ou anormal não acontece no vácuo, obviamente ele é mediado pelo modo como o corpo e cérebro da pessoa funciona, e o fato de substâncias químicas afetarem o cérebro em instituições mentais não é mais misterioso do que cerveja, álcool ou outros tipos de bebida afetarem pessoas normais. Elas vão pra casa após um dia de trabalho, se sentem cansadas e deprimidas e tomam alguma bebida e se sentem melhor. Isto não quer dizer que elas estavam doentes antes. Podemos tomar vários tipos de substâncias químicas que afetam nosso comportamento. Isso de maneira alguma prova que o estado anterior era um estado de doença médica.

Desnecessário dizer, recomendo a entrevista a todos os profissionais da área da saúde!
Entrevista com Thomas Szasz: Parte 1 e Parte 2
(Pode-se ouvir a entrevista clicando em “Listen Now” no site principal, ou fazer o download do mesmo clicando em “Download Now”)
Ah, para quem ainda não viu, também recomendo MUITO este vídeo, do próprio Szasz:

Ponto para a psiquiatria!

Ponto para a psiquiatria!
A Associação de Psiquiatria Americana acaba de votar para o fim de simpósios patrocinados por indústrias privadas (como a farmacêutica), e de quebra também o fim das refeições “bancadas” pelas mesmas.
Segundo o Medical News Today, a APA é pioneira na tendência da medicina em aumentar sua transparência, reduzindo potenciais conflitos de interesse monetários.
Isso faz muito sentido, já que se uma empresa financia tais simpósios, como saber se o palestrante fala de um medicamento porque ele é o melhor ou porque esta ganhando algo?
Claro que menos patrocínio dificulda a organização destes congressos, mas não impede: a psicologia nunca ganha apoio farmacêutico, e temos nos virado muito bem até hoje!

Esquizofrenia: informe-se!

“Schizophrenia: Get the Facts” Public Service Annoucement from For the Record Productions on Vimeo.
Um destes garotos tem esquizofrenia.
Esquizofrenia, informe-se!

Um dos maiores erros é achar que a pessoa com este diagnóstico é agressiva. Outro pior é achar que ela não é capaz de se socializar.
É só reparar em como estas pessoas costumam ser tratadas pelos amigos, parentes e “cuidadores”: frequentemente há preconceito, impaciência e descaso. Eu também perderia a motivação e paciência sendo tratado assim.

Ritalina: A solução para seus problemas?

Em um outro post sobre um vídeo do Bart Simpson com TDAH (Déficit de Atenção e Hiperatividade) acabei comentando sobre a Ritalina, que é hoje o medicamento mais prescrito em casos como este.

Para satisfazer mais minha curiosidade, fui atrás de mais informações e vou citar aqui o que li no incrível livro “O Cérebro do Século XXI“, escrito pelo neurocientista Steven Rose:

“O peremptório Diagnostic and Statistic Manual, com base em dados dos Estados Unidos, agora inclui como categorias de doenças o transtorno opositor desafiante, o distúrbio do comportamento destrutivo e, mais notavelmente, uma doença chamada de distúrbio de hiperatividade e déficit de atenção, que supostamente afeta até 10% das crianças pequenas (principalmente meninos). o ‘distúrbio’ é caracterizado por fraco desempenho na escola e incapacidade de se concentrar nas aulas ou de ser controlado pelos pais. Supostamente é consequência de função cerebral defeituosa associada a outro neurotransmissor, a dopamina. O tratamento prescrito é um remédio análogo à anfetamina, chamado Ritalina. Há uma epidemia mundial crescente de uso da Ritalina. Dizem que as crianças não tratadas apresentam um risco maior de se tornarem criminosas, e há uma literatura em expansão sobre ‘a genética do comportamento criminoso e anti-social’. Será esta uma abordagem médico-psiquiátrica apropriada para um problema individual, ou um quebra-galho barato para evitar a necessidade de questionar a escola, os pais e o contexto social mais amplo da educação?” (pág.14)

“…não há dúvidas que a Ritalina ‘funciona’, como no testemunho de crianças entrevistadas (…). Entretanto, a Ritalina não ‘cura’ o TDAH mais que a aspirina cura a dor de dente. Mascarar a dor psíquica indicada pelo comportamento destrutivo pode propiciar um espaço para pais e professores respirarem e para a criança negociar um relacionamento novo e melhor; mas, se a oportunidade não for agarrada, mais uma vez vamos nos encontrar tentando ajustar a mente, em vez de ajustar a sociedade.” (p. 289).

Fiquei até sem palavras!

Bart Simpson com o Transtorno de Déficit de Atenção

O desenhos dos Simpsons é famoso por fazer críticas inteligentes e bem humoradas de tudo o que se pode imaginar, até mesmo um episódio que tirava sarro do Brasil foi quase proibido de passar por aqui.
No segundo episódio da 11ª temporada, o diretor Skinner chega à conclusão de que Bart é portador do Transtorno de Déficit de Atenção, em uma cena que até me lembrou o ótimo filme Impulsividade. O episódio mostra também Marge buscando os medicamentos receitados em um laboratório e os efeitos colaterais que eles trazem no pobre Bart.
Eu juntei estas cenas do episódio e os legendei em português:

http://www.youtube.com/watch?v=SVtZwUEdFgA
O diagnóstico de Transtorno de Déficit de Atenção é dado a pessoas (principalmente crianças) que apresentam dificuldade de atenção e concentração, interferindo de maneira significativa em sua qualidade de vida. Assim como em outros transtornos psiquiátricos, este diagnóstico é feito na base do “olhômetro” e dos relatos da pessoa, não existindo nenhum exame que comprove a real existência do transtorno, e o episódio dos Simpsons dá uma beliscada nesse ponto, pois o próprio direto Skinner faz o diagnóstico.
Os medicamentos também são controversos, dizem por aí que a Ritalina possui quase a mesma composição química que a anfetamina, mas isso eu não posso confirmar já que farmacologia não é a minha área (quem souber mais sobre isso por favor poste nos comentários). Mas o episódio brincou bastante em cima disso!
* Atualização: O leitor Leonardo comentou que “mesma composição química não seria o termo correto. Está mais para ações farmacológicas semelhantes às da Anfetamina.” Valeu!

Humor: Medicamentos para ansiedade


“E aquele é para o alívio da ansiedade causada pelo alto custo da medicação.”

Sobre o “True Life: Tenho Síndrome do Pânico”

Falei outro dia que ia passar um programa na MTV chamado “True Life: Tenho Síndrome do Pânico“. Então, assisti – e gostei!
O programa mostra 3 jovens que costumam ter ataques de pânico: Monica, de 18 anos, uma garota bastante impaciente que diz que coisas cotidianas aumentam a sua ansiedade; Nichole, de 24 anos, que quase não sai mais de casa sozinha e teme que seu noivado não vá durar muito se ela continuar assim; e Frank, de 21, que fica ansioso principalmente perto de pontes, o que dificulta muito sua vida já que ele mora em uma ilha.
O programa nem tenta explicar o que é ansiedade ou a Síndrome do Pânico, muito menos sobre as possibilidades de tratamento, apenas mostra o cotidiano dessas pessoas. No entanto, sabendo que inúmeras variáveis ambientais interferem na ansiedade que a pessoa sente (e que podem levar a um ataque de pânico), eu, como psicólogo, não consegui assistir ao programa sem fazer anotações destas possíveis variáveis.
Monica é uma garota que se irrita muito facilmente, portanto ela está sempre gritando ou brigando com alguém além de estar sempre preocupada, ou seja, seu corpo está sempre a mil – com certeza isso aumenta seus níveis de ansiedade. Somando a isso, quando ela se sente ansiosa logo começa a hiperventilar (respirar rápido demais, isso pode ser visto no programa) o que é quase um passe livre para um ataque de pânico.
Vemos também a Nichole acordar durante a madrugada sentindo altos níveis de ansiedade. Mas ao invés de procurar se deitar, relaxar, controlar sua respiração ou se distrair com outra coisa, ela anda pela casa. Andar pela casa é exercício físico, e isso aumenta a atividade corporal, o que pode contribuir para a ansiedade. É só para mim que isso parece óbvio?
O legal de ver Frank é que ele é o mais decidido a mudar: mais de uma vez ele aparece querendo superar seu medo de pontes. E com ele também se pode observar outra característica comum de quem tem síndrome do pânico: a hipervigilância. Ele vai ao restaurante com a família, mas ao invés de dar atenção às conversas, à comida ou ao ambiente, ele prefere falar sobre como a luz o incomoda, como está com uma sensação estranha no braço ou sobre como ele gostaria de sair de lá… pra piorar, depois do passeio, ao invés de reconhecer que pelo menos foi capaz de entrar no restaurante e ficar um bom tempo lá, fica se lamentando por não ter ficado lá o tempo todo. Legal mesmo é a sua tia no final do programa, dando uma força pra ele na superação do medo.
Enfim, o programa é bem interessante sim, principalmente para quem tem curiosidade sobre o tema, mas pode deixar a desejar a quem procura algo mais técnico ou sobre possibilidades de tratamento. Segundo o site da minha tv por assinatura, as reprises vão ao ar nesta quinta-feira (06/11) às 23:00 e no domingo (09/11) às 01:00 na MTV!

True Life: Tenho Síndrome do Pânico

Eu estava aqui à toa (momento raro hoje em dia), abri a programação da tv a cabo e encontrei por acaso um programa chamado “True Life: Tenho Síndrome do Pânico” que vai passar daqui a pouco às 23:00 na MTV. Não conheço, nunca vi e nem sei se vai ser bom, mas sei que vou assistir! A sinopse é a seguinte:
Nome Original: True Life
Direção: Mark Herwick, Evan B. Stone
Ano: 1998
País: EUA
Classificação: Maiores de 13 anos
Sinopse: Nesse episódio de True Life nós vamos seguir os passos de Monica, Nichole e Franklin enquanto eles tentam viver uma vida normal apesar de sofrer de Síndrome do Pânico.
Duração: 60 minutos”
Os ataques de pânico surgem aparentemente do nada e atrapalham muito a vida das pessoas. Curiosamente, este é um dos transtornos em que a pessoa melhora mais rapidamente na terapia comportamental, embora pouquíssima gente saiba disso. A maioria das pessoas só chegam ao psicólogo depois de inúmeros ataques e exames com cardiologistas, endocrinologistas, neurologistas, enfim, ummontedecoisagistas. Ou então ela chega quando se cansou dos remédios.
Vou tentar assistir e postar um feedback aqui depois. Se eu gostar, ainda coloco horários das reprises!

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