Porque o Facebook vicia (parte 2)

Há um tempo atrás expliquei o sucesso do Facebook comparando a função “curtir” do site como um reforçador positivo para nossas respostas de escrever.

Alguns pesquisadores lá da Itália resolveram explicar que o Facebook é agradável mas de outra maneira: medindo as respostas fisiológicas da pessoa. Eles mediram a condutância da pele, volume de sangue do pulso, eletroencefalograma, eletromiografia, a atividade respiratória e a dilatação da pupila de 30 sujeitos saudáveis em 3 diferentes condições: relaxamento, mostrando slides do seu perfil no Facebook e uma condição de estresse.

Quando era mostrado ao sujeito o seu perfil no Facebook, a pessoa ficava emocionalmente mais agitada que nas outras condições, ou seja, ele ficava mais feliz e animado. A pesquisa conclui dizendo que sites de relacionamento social podem ter seu sucesso devido aos estados positivos que geram nos seus usuários.

Muito interessante essa pesquisa, mas agora vou analisar as duas explicações a partir de uma visão pragmatista, ou seja, de função prática:

  1. Sabendo que o “curtir” e as outras interações sociais são reforçadores eu posso prever que: a) se eu retirar os reforçadores, no caso se eu não tiver respostas de amigos ou ninguém “curtir” o que escrevo, esta minha resposta de escrever no site diminuirá podendo chegar à extinção; b) se eu colocar um estímulo aversivo, como uma função “não curtir”, isso pode diminuir minha frequência de escrever no site.
  2. Por outro lado, sabendo que o Facebook produz respostas fisiológicas de excitação eu posso prever que… as pessoas ficam felizes quando estão usando o Facebook! Grande descoberta!

Agora só falta um paper falando sobre atividade dopaminérgica no sistema límbico ao usar o Facebook… ops!

ResearchBlogging.orgMauri, M., Cipresso, P., Balgera, A., Villamira, M., & Riva, G. (2011). Why Is Facebook So Successful? Psychophysiological Measures Describe a Core Flow State While Using Facebook Cyberpsychology, Behavior, and Social Networking DOI: 10.1089/cyber.2010.0377

Tratamento infantil para o transsexualismo?

Todo behaviorista já ouviu alguma vez falar do Dr. Ivar Lovaas. Ele é famoso por ter desenvolvido as primeiras técnicas sucedidas de intervenção em crianças autistas e com outros atrasos de desenvolvimento que são até hoje amplamente utilizadas, fazendo com que elas tenham qualidade de vida normal em todo o mundo (exemplo da técnica aqui).

Pesquisando sobre ele encontrei alguns artigos que eu não conhecia, como este aqui de 1974, intitulado “Tratamento comportamental de comportamentos de papéis sexuais desviantes em uma criança masculina“. Como nunca tinha visto algo no assunto, resolvi dar uma investigada.

20101028_bruno.jpgO garoto do estudo, Kraig, tinha quase 5 anos e apresentava “comportamentos femininos” como “(a) preferência por roupas de outro gênero, (b) uso real e imaginário de artigos cosméticos, (c) gestos afeminados, (d) aversão à atividades masculinas e preferência por brincar com meninas e atividades femininas, (e) preferência no papel feminino, (f) tom de voz feminino e conteúdo predominantemente feminino nas falas e (g) afirmações verbais sobre desejo ou preferência de ser uma menina”. Ou seja, comportamentos tipicamente chamados de “transtorno de identidade de gênero” (menos na França, que a partir de 2010 não considera mais a transsexualidade como transtorno mental).

Embora o experimento seja um tanto controverso, principalmente nos dias de hoje em que não se vê mais as diferenças em gostos sexuais como “doença”, deve-se admitir que o delineamento experimental dele é maravilhoso. A mãe foi ensinada a reforçar comportamentos “masculinos” e extinguir comportamentos “femininos” usando atenção social na clínica e economia de fichas em casa.

Na clínica a criança ficava em uma sala com vários brinquedos, “masculinos” e “femininos”, e o experimentador a assistia em outra sala por trás de um espelho unidirecional. Em outros momentos, a mãe ficava na sala com a criança usando um fone de ouvido segurando um livro, e o experimentador dava instruções para ela de como se comportar. Por exemplo: quando o garoto brincava com bonecas ou falava em ser mulher, era pedido que a lesse o livro e ignorasse a criança; quando o garoto usava brinquedos como bonecos ou armas de borracha, a mãe era instruída a interagir com ele, sorrir, dar atenção, etc. Em casa, estes comportamentos eram reforçados com fichas que podiam ser trocadas por uso da televisão, barras de chocolate e outros estímulos agradáveis.
Uma curiosidade: na primeira vez que a mãe ignorou o comportamento feminino de Kraig, a birra foi tão grande que tiveram que parar a sessão e iniciar novamente após um intervalo. Outra: a sessão em que Kraig mais emitiu verbalizações femininas foi quando um outro adulto foi colocado dentro da sala.

No final das contas os comportamentos afeminados diminuiram drasticamente e os masculinos passaram a ocorrer mais. Três anos depois os experimentadores voltaram a checar a criança e o resultado ainda tinha se mantido. E este é só o primeiro de vários outros experimentos semelhantes.

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É muito comum ouvir alguns homossexuais dizerem que são assim “desde pequenos” e transsexuais dizerem que se sentem como “um sexo dentro e outro por fora”. Afirmações como essas nos levam a crer que haja um fator genético por trás. A explicação que usamos hoje é o clichê entre todos transtornos mentais: “predisposição genética associado a fatores ambientais”, mesmo que não saibamos exatamente qual gene ou quais fatores causem as alterações.

Pensando deste modo, este estudo mostra que a atenção seletiva dos pais estava interferindo na escolha de gênero da criança (como no episódio de birra quando a mãe o ignorou). Na era em que só se fala em genoma humano e neurotransmissores, não podemos deixar de lado também os fatores sociais e culturais.

O assunto é controverso e eu acho que consegui formar uma opinião pessoal: ninguém escolhe ser depressivo ou esquizofrênico, mas possíveis predisposiçõe genéticas e situações ambientais infelizmente a fazem ficar daquele jeito, da mesma maneira que ninguém escolhe ser transsexual, mas as contingências genéticas e ambientais a levam para esse caminho. As consequências aversivas de ser homo ou transsexual hoje são bem menores se comparadas com alguns anos atrás – nossa sociedade tem mudado bastante – dispensando estudos como o mostrado neste post.

Rekers GA, & Lovaas OI (1974) Behavioral treatment of deviant sex-role behaviors in a male child. J Appl Behav Analysis, 7(2), 173-190. PMID: 1311956

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