{"id":22,"date":"2009-12-18T21:32:45","date_gmt":"2009-12-19T00:32:45","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/quimicaviva\/2009\/12\/ciencia_fundamental_ou_ciencia\/"},"modified":"2009-12-18T21:32:45","modified_gmt":"2009-12-19T00:32:45","slug":"ciencia_fundamental_ou_ciencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/quimicaviva\/2009\/12\/18\/ciencia_fundamental_ou_ciencia\/","title":{"rendered":"Ci\u00eancia fundamental ou ci\u00eancia aplicada?"},"content":{"rendered":"<p>Em refer\u00eancia \u00e0 postagem anterior, o texto a seguir foi publicado no <i>Jornal da Ci\u00eancia<\/i>, <b>1998<\/b>, <i>13 <\/i>(395), 7, sem as cita\u00e7\u00f5es finais em ingl\u00eas. O mais inusitado \u00e9 que o ent\u00e3o diretor cient\u00edfico da FAPESP, Prof. Jos\u00e9 Fernando Perez, publicou texto relacionado ao mesmo tema no mesmo n\u00famero do Jornal da Ci\u00eancia, <b>1998<\/b>, <i>13 <\/i>(395), 6. N\u00e3o encontrei vers\u00f5es on-line destes textos. Assim, escaneei e disponibilizei ambos no blog <a href=\"http:\/\/quiprona.wordpress.com\/2009\/12\/18\/foto\/\">Qu\u00edmica de Produtos Naturais<\/a>.<\/p>\n<div align=\"center\"><b>Ci\u00eancia fundamental ou ci\u00eancia aplicada?<\/b><\/div>\n<p><\/p>\n<div align=\"right\">&#8220;<i>Pure and applied science are inseparable and can only grow together<\/i>.&#8221;<\/div>\n<div align=\"right\">&nbsp;Charles H. Townes, Nobel de f\u00edsica em 1964 <\/div>\n<p><\/p>\n<div align=\"justify\">Tal quest\u00e3o t\u00eam sido frequentemente levantada, por\u00e9m com muito mais \u00eanfase na \u00faltima d\u00e9cada visto que o investimento na pesquisa cient\u00edfica atingiu n\u00fameros sem precedentes. A fus\u00e3o das ind\u00fastrias farmac\u00eauticas Glaxo Wellcome e SmithKline Beecham, por exemplo, levar\u00e1 as mesmas a aplicar um montante equivalente a 2,34 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em pesquisa e desenvolvimento durante os pr\u00f3ximos anos, e dever\u00e1 constitu\u00edr uma companhia com valor de mercado estimado em 125 bilh\u00f5es de d\u00f3lares (The Globe and Mail, 02.03.98) . Se por um lado o setor empresarial privado internacional n\u00e3o mede esfor\u00e7os para desenvolver novos produtos e processos, por outro lado pouco se sabe sobre investimentos dessa natureza no mercado brasileiro. Seja porque pouco se divulga sobre esse assunto ou porque tal investimento \u00e9 neglig\u00edvel.<\/p>\n<p>No Brasil, tanto a pesquisa cient\u00edfica quanto tecnol\u00f3gica s\u00e3o essencialmente financiadas por \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos estaduais e federais de fomento. Este financiamento \u00e9 e continuar\u00e1 sendo por muito tempo absolutamente imprescind\u00edvel. Por\u00e9m, este \u00e9 um quadro em mudan\u00e7a: atualmente, estimula-se a elabora\u00e7\u00e3o de projetos de pesquisa cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica em parceria com o setor privado, de tal maneira que o conhecimento adquirido ou gerado possa levar ao desenvolvimento de processos e produtos de utilidade para a sociedade. Essas iniciativas s\u00f3 podem ser vistas com bons olhos, tendo-se em vista necessidades regionais de desenvolvimento cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico. Contudo, ainda questiona-se a efic\u00e1cia de tais programas pois acredita-se que o financiamento de pesquisa por parte do setor privado possa limitar o campo de atua\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia que obtenha este tipo de financiamento. A hist\u00f3ria nos mostra, por\u00e9m, que cabe ao pr\u00f3prio cientista conduzir o trabalho de investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. De acordo com sua filosofia de trabalho, o cientista poder\u00e1 caracterizar sua investiga\u00e7\u00e3o seja por um car\u00e1ter mais fundamental, seja por um car\u00e1ter mais aplicado, ou ainda por uma mistura de ambas, denominada &#8220;pesquisa fundamental orientada \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Como exemplo da primeira, poder\u00edamos citar: a) o trabalho de Niels Bohr, f\u00edsico alem\u00e3o que dedicou-se a estudar a estrutura do \u00e1tomo no in\u00edcio do s\u00e9culo; b) as pesquisas de Linus Pauling sobre a natureza das liga\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas e a estrutura das prote\u00ednas; c) as descobertas de Albert Einstein sobre a teoria da relatividade e a <b>LASER<\/b> (<b>L<\/b><i>ight<\/i> <b>A<\/b><i>mplification<\/i> <i>by<\/i> <b>S<\/b><i>timulated<\/i> <b>E<\/b><i>mission<\/i> <i>of<\/i> <b>R<\/b><i>adiation<\/i>), ou; d) a descri\u00e7\u00e3o por Bloch e Purcell do fen\u00f4meno de Resson\u00e2ncia Magn\u00e9tica Nuclear (RMN) no fim dos anos 40. Interessante, por\u00e9m, \u00e9 notar que todos estes exemplos serviram de base para o desenvolvimento posterior de in\u00fameros projetos de ci\u00eancia aplicada, os quais modificariam o rumo da hist\u00f3ria: no caso de Bohr e outros f\u00edsicos e qu\u00edmicos que se dedicaram ao estudo das part\u00edculas fundamentais da mat\u00e9ria, ao desenvolvimento e aplica\u00e7\u00e3o da energia at\u00f4mica; no caso de Pauling, ao desenvolvimento da biologia molecular e em \u00faltima inst\u00e2ncia da biotecnologia; no caso de Einstein, a teoria da relatividade, em conjunto com outras descobertas, permitiu a implanta\u00e7\u00e3o dos programas de explora\u00e7\u00e3o espacial e a LASER levou \u00e0 descoberta da <b>MASER <\/b>(<b>M<\/b><i>icrowave<\/i> <b>A<\/b><i>mplification<\/i> <i>by<\/i> <b>S<\/b><i>timulated<\/i> <b>E<\/b><i>mission<\/i> <i>of<\/i> <b>R<\/b><i>adiation<\/i>) a qual, por exemplo, \u00e9 utilizada em leitores de discos compactos e c\u00f3digos de barra; e no caso de Bloch e Purcell, ao desenvolvimento das in\u00fameras t\u00e9cnicas de RMN tanto em estado s\u00f3lido como em estado l\u00edquido, dentre as quais a gera\u00e7\u00e3o de imagens em medicina. Fato interessante, quando Einstein descreveu a LASER, o fen\u00f4meno foi considerado de &#8220;interesse puramente te\u00f3rico, sem qualquer utiliza\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica&#8221;.<\/p>\n<p>Como exemplo da segunda forma de utiliza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia, de car\u00e1ter essencialmente aplicado, poder\u00edamos citar a descoberta da t\u00e9cnica de polymerase chain reaction (PCR), descrita por Kary Mullis (pr\u00eamio Nobel de qu\u00edmica de 1993), e as in\u00fameras inven\u00e7\u00f5es de Thomas Edison. No primeiro caso, Mullis estava preocupado em como obter maior quantidade de material gen\u00e9tico, sem ter que se limitar a extrair DNA durante semanas a partir da fonte original do mesmo. As decorr\u00eancias da descoberta da t\u00e9cnica de PCR s\u00e3o in\u00fameras, como, por exemplo, para a realiza\u00e7\u00e3o do Projeto Genoma Humano. No caso de Edison, \u00e9 not\u00f3rio o fato deste cientista n\u00e3o ter se preocupado em estudar a natureza do fen\u00f4meno el\u00e9trico, mas apenas em desenvolver uma enorme gama de aparelhos que pudessem ser \u00fateis. Tanto em um caso como em outro, a vis\u00e3o de ci\u00eancia essencialmente aplicada foi essencial para descobertas revolucion\u00e1rias.<\/p>\n<p>A terceira forma de utiliza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia, que combina pesquisa fundamental e aplicada, poderia ser exemplificada pelos trabalhos de Louis Pasteur. Por possuir liga\u00e7\u00f5es familiares com produtores leiteiros, Pasteur esteve inicialmente inclinado \u00e0 trabalhos de natureza essencialmente aplicada. Contudo, com o intuito de melhor compreender a contamina\u00e7\u00e3o do leite e outros alimentos, Pasteur rapidamente iniciou estudos de car\u00e1ter fundamental para encontrar as raz\u00f5es para tal e dos fen\u00f4menos microbiol\u00f3gicos em geral, bem como para as causas de doen\u00e7as infecciosas e da natureza quiral do \u00e1tomo de carbono. Mesmo assim, Pasteur nunca perdeu de vista a aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica de seus conhecimentos na ind\u00fastria de alimentos, por exemplo, que consequentemente levou \u00e0 descoberta do m\u00e9todo de pasteuriza\u00e7\u00e3o do leite.<\/p>\n<p>Outra \u00e1rea que combina conhecimentos de pesquisa fundamental e aplicada \u00e9 a descoberta de novos medicamentos. In\u00fameros cientistas est\u00e3o atualmente envolvidos em projetos para melhor entender o funcionamento do sistema imunol\u00f3gico, de resist\u00eancia de microorganismos e na descoberta de novas subst\u00e2ncias farmacologicamente ativas, para que estes conhecimentos possam contribuir para melhorar a qualidade de vida de uma forma geral. Particularmente neste \u00faltimo caso, a natureza inter- e multidisciplinar da pesquisa em sa\u00fade humana \u00e9 t\u00e3o ampla que deixou de ser tema de \u00e1reas exclusivas do conhecimento e passou a integrar ecologia, biof\u00edsica, medicina, farmacologia, antropologia, qu\u00edmica, bioqu\u00edmica e biologia.<\/p>\n<p>O ponto fundamental \u00e9 que, tanto a ci\u00eancia aplicada como a ci\u00eancia fundamental mant\u00eam entre si la\u00e7os bastante estreitos para serem separadas como se fossem dois ramos extremos da atividade cient\u00edfica. Tal separa\u00e7\u00e3o foi proposta por Vanevar Bush, quando da elabora\u00e7\u00e3o de um plano nacional norte-americano para o financiamento de pesquisa cient\u00edfica, solicitado pelo ent\u00e3o presidente Franklin D. Roosevelt ap\u00f3s a 2a Guerra Mundial. Al\u00e9m do plano de Bush ter sido bastante criticado pelos seus pares, o plano sugeria que se fortalecessem estudos principalmente na \u00e1rea de agricultura, engenharia mec\u00e2nica e para a fabrica\u00e7\u00e3o da gasolina sint\u00e9tica, a qual, acreditavam, estaria sendo desenvolvida pelos alem\u00e3es. Em ess\u00eancia, a comiss\u00e3o que elaborou o plano solicitado por Roosevelt priorizou estudos<br \/>\nque j\u00e1 vinham sendo desenvolvidos, pois \u00e9 praticamente imposs\u00edvel prever novas e importantes descobertas. Dentre aquelas que surgiram nos anos seguintes (e que passaram &#8220;despercebidas&#8221; \u00e0 referida comiss\u00e3o) est\u00e3o os antibi\u00f3ticos, ent\u00e3o j\u00e1 descritos por Fleming, mas completamente ignorados, os jet aircraft (&#8220;carros flutuadores&#8221;), os foguetes e a explora\u00e7\u00e3o espacial, os computadores, o trans\u00edstor, a MASER, a engenharia gen\u00e9tica, entre outras.<\/p>\n<p>O estabelecimento de prioridades para a pesquisa cient\u00edfica \u00e9 uma realidade. Do mesmo modo, os pr\u00f3prios cientistas n\u00e3o devem perder a convic\u00e7\u00e3o de que a pesquisa fundamental \u00e9 absolutamente necess\u00e1ria. Como complemento, voltar os olhos para a aplicabilidade do conhecimento cient\u00edfico deve ser uma das metas daqueles que s\u00e3o respons\u00e1veis pela forma\u00e7\u00e3o de profissionais altamente qualificados, bem como pela gera\u00e7\u00e3o de conhecimento.<\/p>\n<p>A integra\u00e7\u00e3o universidade-setor privado, por\u00e9m, ainda \u00e9 vista com extrema cautela por diversos setores da comunidade cient\u00edfica. Talvez por falta de experi\u00eancia, acredita-se que o desenvolvimento de projetos de ci\u00eancia aplicada deixar\u00e1 de lado a busca de quest\u00f5es fundamentais. O caso de Pasteur mostra que n\u00e3o \u00e9 esse o caso. Cabe ao cientista combinar os elementos necess\u00e1rios, sejam eles de car\u00e1ter fundamental ou aplicado, para o desenvolvimento de um projeto em particular. Tamb\u00e9m, cabe \u00e0 iniciativa privada levantar quest\u00f5es e problemas, bem como estimular a busca de solu\u00e7\u00f5es de car\u00e1ter aplicado que possam contribuir para o aprimoramento de um setor produtivo mais competitivo, menos imediatista e que se integre de forma muito mais efetiva \u00e0 comunidade cient\u00edfica e ao desenvolvimento da na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para terminar, aproveitaria para citar o livro, &#8220;Science and Society&#8221;*, o qual re\u00fane uma s\u00e9rie de palestras proferidas por ganhadores de pr\u00eamios Nobel por ocasi\u00e3o das &#8220;John C. Polanyi Nobel Laureates Lectures&#8221; em 1994 na Universidade de Toronto. Os textos cont\u00e9m men\u00e7\u00f5es interessantes sobre a quest\u00e3o ci\u00eancia basica e ci\u00eancia aplicada:<\/p>\n<p>&#8220;Nature speakes in many tongues. They are all alien. The task of the scientist pursuing &#8220;curiosity-driven&#8221; research is to try to discover something of the vocabulary and the grammar of one or more of these languages. To the extent that the scientist succeeds, we gain the ability to decipher many messages that nature has left for us, blithely or coyly. No matter how much human effort and money we might invest to solve a practical problem in science or technology, failure is inevitable unless we can read the answers that nature is willing to give us. The basic research that provides such understanding is the most practical investment we can make.&#8221; (no cap\u00edtulo <i>The Shape of Molecular Collisions<\/i>, por Dudley R. Herschbach, pr\u00eamio Nobel de qu\u00edmica de 1986).<\/p>\n<p>&#8220;Science and technology can bring about changes within a decade or so. Young people can expect to see profound changes in their lifetime. No one knows now what they will be &#8211; making it difficult to plan for them &#8211; but they will take place, and science will play a major role in producing them. How can we devise a plan to accomplish important tasks if we do not know where the changes will be? A look ahead reveals nothing very clearly about presently unknown and new discoveries. Contrary to what most people believe, scientists do not possess the ability to predict the future, despite their intensive knowledge.&#8221; (no cap\u00edtulo <i>Unpredictability in Science and Technology<\/i>, pelo pr\u00eamio Nobel de f\u00edsica de 1964, Charles H. Townes).<\/p>\n<p>&#8220;We do not know exactly what research will pay off, what will build up, but we do know, historically, that important discoveries will occur and that they will have a major effect on technology and business.&#8221; (idem)<\/p>\n<p>&nbsp;&#8220;Society must be interested in ideas and must value them; it must be excited by them and by new discoveries. We must accept a long-range approach. We must accept failures by encouraging trial and error, because no person can plan what scientific research is going to be successful. We must support people in a variety of situations, especially people with different ideas, because the different ideas are most likely to lead to something new. There must be a diversity of approach, a diversity of situations, a diversity of people. There must also be a lot of interaction among them so they can exchange their thoughts.<br \/>The places where the activity is high, where many scientists are interacting, where there are outstanding people, where many factors are just right &#8211; those are the circumstances that are going to pay off the most. That doesn&#8217;t mean we don&#8217;t need the others, but we must see that there are places where the important factors all add up; that&#8217;s where we can expect to find the most intensive productivity.&#8221; (idem)<\/p>\n<\/div>\n<div align=\"justify\">*(editado por Martin Moskovits, editora da Universidade de Toronto, 1995, ISBN 0-88784-589-4)<\/div>\n<div class=\"zemanta-pixie\"><img decoding=\"async\" class=\"zemanta-pixie-img\" alt=\"\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/quimicaviva\/wp-content\/uploads\/sites\/218\/2011\/08\/pixy5.gif\" \/><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em refer\u00eancia \u00e0 postagem anterior, o texto a seguir foi publicado no Jornal da Ci\u00eancia, 1998, 13 (395), 7, sem as cita\u00e7\u00f5es finais em ingl\u00eas. 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