{"id":278,"date":"2009-11-29T08:43:25","date_gmt":"2009-11-29T11:43:25","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/quimicaviva\/2009\/11\/quando_a_verdade_doi\/"},"modified":"2009-11-29T08:43:25","modified_gmt":"2009-11-29T11:43:25","slug":"quando_a_verdade_doi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/quimicaviva\/2009\/11\/29\/quando_a_verdade_doi\/","title":{"rendered":"Quando a verdade d\u00f3i"},"content":{"rendered":"<p>Nada mais inc\u00f4modo sabermos de algo que nos incomoda profundamente. Uma cr\u00edtica bem feita, ainda que de maneira agressiva, mas que no fundo \u00e9 verdade, d\u00f3i. Tomarmos consci\u00eancia de nossas limita\u00e7\u00f5es, sejam estas quais forem, costuma doer. Receber uma m\u00e1 not\u00edcia de um m\u00e9dico competente, d\u00f3i muito. Muito mesmo. A verdade muitas vezes d\u00f3i. Mas \u00e9 uma dor que nos leva a crescer e amadurecer. Profissionalmente, ou em termos pessoais. Reconhecer a dor da verdade e aceitar os fatos constitui um dos processos mais importantes para nossa forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, muitas vezes preferimos esconder, e fazer de conta que a verdade n\u00e3o est\u00e1 presente.<\/p>\n<p>Fatos recentes ilustram como aceitar a verdade dos fatos pode ser dif\u00edcil. O apag\u00e3o do dia 11\/11\/2009 ilustra bem este caso. Logo ap\u00f3s o evento, o ministro de Minas e Energia, Edison Lob\u00e3o, manifestou-se dizendo que a causa seriam raios perto da regi\u00e3o de Itabera. Argumento confirmado pela ministra chefe da Casa Civil, Dilma Roussef. Todavia, pouco tempo depois engenheiros do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) afirmaram que<\/p>\n<p>&#8220;Embora houvesse uma tempestade na regi\u00e3o pr\u00f3xima a Itabera, no sul de S\u00e3o Paulo, com atividade de descargas no hor\u00e1rio do apag\u00e3o, as descargas mais pr\u00f3ximas do sistema el\u00e9trico estavam a cerca de 30 km da subesta\u00e7\u00e3o de Itabera e a cerca de 10 km de uma das quatro linhas de Furnas de 750 kV e cerca de 2 km de uma das outra linhas de 600 kV, que saem de Itaipu em dire\u00e7\u00e3o a S\u00e3o Paulo. Al\u00e9m disso, a baixa intensidade da descarga registrada [menor que 20 kA] n\u00e3o seria capaz de produzir um desligamento da linha, mesmo que incidisse diretamente sobre ela, como tamb\u00e9m confirma a Rede Brasileira de Detec\u00e7\u00e3o de Descargas, que estava no momento do apag\u00e3o operando com \u00f3timo desempenho. Em geral, apenas descargas com intensidade superiores a 100 kA, atingindo diretamente uma linha, podem causar um desligamento de linhas de transmiss\u00e3o operando com tens\u00f5es t\u00e3o elevadas como as linhas de Itaipu [duas de 600 kV e duas de 750 kV].&#8221;<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.jusbrasil.com.br\/politica\/4106366\/inpe-desconsidera-raio-como-causa-de-apagao-no-brasil\" rel=\"noopener noreferrer\">As declara\u00e7\u00f5es do INPE causaram profundo desconforto no governo<\/a>. No dia seguinte o ministro das Minas e Energia desqualificou as declara\u00e7\u00f5es do INPE que, no entanto, deu suporte \u00e0s declara\u00e7\u00f5es do engenheiro apresentadas no Jornal Nacional. Afinal, quem falou a verdade? Embora as reais causas do apag\u00e3o ainda n\u00e3o tenham sido estabelecidas, ficou evidente que o governo n\u00e3o gostou do ocorrido, e tentou minimizar o fato. Por\u00e9m, o importante n\u00e3o \u00e9 esconder o problema, e sim conhec\u00ea-lo. Como disse o t\u00e9cnico do INPE, se o sistema de distribui\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica fosse suscet\u00edvel a raios de t\u00e3o pequena intensidade, sua fragilidade estaria atestada. No mesmo dia o presidente Lula declarou que seria necess\u00e1rio se investigar a real causa do problema. As declara\u00e7\u00f5es apressadas para justificar o injustific\u00e1vel apenas pioraram o quadro geral que se formou depois do blecaute. Melhor \u00e9 esperar para se conhecer as reais causas do ocorrido, para que estas possam ser posteriormente evitadas.<\/p>\n<p>Anterior ao blecaute brasileiro foram as declara\u00e7\u00f5es de David Nutt, professor do Imperial College London e [ex-]presidente do comit\u00ea assessor do governo brit\u00e2nico sobre abuso de drogas, que causaram pol\u00eamica: o consumo de <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha\/equilibrio\/noticias\/ult263u644955.shtml\" rel=\"noopener noreferrer\">\u00e1lcool e tabaco seria pior para a sa\u00fade do que o consumo de maconha, LSD e ecstasy<\/a>. <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.estadao.com.br\/noticias\/vidae,perigo-da-maconha-opoe-governo-britanico-a-cientistas,465479,0.htm\" rel=\"noopener noreferrer\">Nutt foi recentemente demitido de suas fun\u00e7\u00f5es<\/a>, fato que gerou <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.rsc.org\/chemistryworld\/News\/2009\/November\/06110904.asp\" rel=\"noopener noreferrer\">protestos veementes da comunidade cient\u00edfica inglesa<\/a>, que considera o ato do governo como sendo de extrema arbitrariedade. O governo ingl\u00eas questionou a capacidade cient\u00edfica e profissional de Nutt. Por\u00e9m, o que Nutt ganhou apresentando os fatos sobre o uso de drogas? E o que ser\u00e1 que o governo ingl\u00eas perderia caso aceitasse os fatos apresentados por Nutt?<\/p>\n<p>\u00c9, muitas vezes a verdade d\u00f3i.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nada mais inc\u00f4modo sabermos de algo que nos incomoda profundamente. Uma cr\u00edtica bem feita, ainda que de maneira agressiva, mas que no fundo \u00e9 verdade, d\u00f3i. Tomarmos consci\u00eancia de nossas limita\u00e7\u00f5es, sejam estas quais forem, costuma doer. Receber uma m\u00e1 not\u00edcia de um m\u00e9dico competente, d\u00f3i muito. Muito mesmo. A verdade muitas vezes d\u00f3i. 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