{"id":54,"date":"2010-02-06T14:45:07","date_gmt":"2010-02-06T17:45:07","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/quimicaviva\/2010\/02\/quimica_fisica_e_estetica\/"},"modified":"2010-02-06T14:45:07","modified_gmt":"2010-02-06T17:45:07","slug":"quimica_fisica_e_estetica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/quimicaviva\/2010\/02\/06\/quimica_fisica_e_estetica\/","title":{"rendered":"Qu\u00edmica, F\u00edsica e Est\u00e9tica"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\">A natureza humana traz no seu bojo a manifesta\u00e7\u00e3o da beleza e a aprecia\u00e7\u00e3o da beleza como uma de suas caracter\u00edsticas \u00fanicas, associadas principalmente \u00e0 intui\u00e7\u00e3o e aos sentimentos. A cria\u00e7\u00e3o de obras de arte \u00e9 conhecida de antes mesmo da escrita, o que nos faz considerar que o senso est\u00e9tico precede a linguagem. Assim, n\u00e3o \u00e9 de se estranhar que v\u00e1rias culturas, ocidentais e orientais, desenvolveram v\u00e1rias formas de manifesta\u00e7\u00e3o est\u00e9tica atrav\u00e9s da arte.<\/p>\n<p>A arte da confec\u00e7\u00e3o de pe\u00e7as de cer\u00e2mica \u00e9 conhecida desde a antiguidade cl\u00e1ssica, no caso da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental, e mesmo de antes nas culturas orientais, para as quais j\u00e1 foram descobertas pe\u00e7as datadas de 16.000 anos. A cultura japonesa, em particular, traz consigo uma longa tradi\u00e7\u00e3o na confec\u00e7\u00e3o de jarros, cumbucas, x\u00edcaras e bules de uma beleza \u00fanica. S\u00e3o pe\u00e7as refinadas, utilizadas tanto no dia-a-dia como em ocasi\u00f5es especiais e cerim\u00f4nias. Os japoneses dominam como poucos a arte da confec\u00e7\u00e3o destas pe\u00e7as, que traz consigo nuances sofisticadas, reveladas em artigo de pesquisadores japoneses publicado na prestigiosa revista Accounts of Chemical Research. Fruto de 30 anos de investiga\u00e7\u00f5es, a narrativa mostra os processos qu\u00edmicos e f\u00edsicos associados \u00e0 confec\u00e7\u00e3o artesanal de jarros da regi\u00e3o de Bizen, prov\u00edncia de Okayama, no Jap\u00e3o.<\/p>\n<div align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/quimicaviva\/wp-content\/uploads\/sites\/218\/2011\/08\/bizen1.jpg\" \/><\/p>\n<\/div>\n<p>A origem da t\u00e9cnica foi copiada de artesanato da pen\u00ednsula da Cor\u00e9ia, e expressa, na sua ess\u00eancia, dois conceitos b\u00e1sicos: <i>wabi <\/i>(imagem de riqueza e beleza na simplicidade e pobreza) e <i>sabi <\/i>(senso est\u00e9tico de solid\u00e3o), criados pelo mestre Sen no Rikyu (1522-1591). O artesanato de Bizen \u00e9 um dos mais populares do Jap\u00e3o, e tem como base o emprego de argila e calor. O artista deve dominar a utiliza\u00e7\u00e3o tanto de um como de outro, de maneira a criar pe\u00e7as cer\u00e2micas com diferentes nuances de cores: vermelho, laranja, p\u00farpura, amarelo e preto, sem a utiliza\u00e7\u00e3o de tintas. Uma das tonalidades mais apreciadas do artesanato de Bizen \u00e9 o vermelho-alaranjado, chamada de <i>hidasuki<\/i>. Esta colora\u00e7\u00e3o foi descoberta acidentalmente quando do uso de palha de arroz na separa\u00e7\u00e3o dos jarros quando estes s\u00e3o levados ao forno. A palha de arroz, inicialmente utilizada para separar os jarros e n\u00e3o deix\u00e1-los grudar uns nos outros, promove o surgimento da cor <i>hidasuki <\/i>na superf\u00edcie da argila.<\/p>\n<div align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/quimicaviva\/wp-content\/uploads\/sites\/218\/2011\/08\/jarros-arroz1.jpg\" \/><\/p>\n<\/div>\n<p>Os artes\u00e3os que descobriram por acaso o <i>hidasuki <\/i>observaram que dois fatores influenciam na tonalidade da cor: a qualidade da argila e da palha de arroz utilizadas. A argila empregada na confec\u00e7\u00e3o destas pe\u00e7as deve necessariamente ser de planta\u00e7\u00f5es de arroz da regi\u00e3o de Bizen \u2013 da\u00ed o nome \u2013 e apresenta na sua composi\u00e7\u00e3o SiO2, TiO2, Al2O3, Fe2O3, CaO, MgO, MnO, K2O, Na2O e P2O5. A palha de arroz utilizada na confec\u00e7\u00e3o das porcelanas de Bizen \u00e9 rico em pot\u00e1ssio, o qual \u00e9 reduzido a K2O na presen\u00e7a de cristobalita (SiO2) em forno. O surgimento da cor <i>hidasuki <\/i>se deve \u00e0 presen\u00e7a de hematita na argila. A colora\u00e7\u00e3o das part\u00edculas de hematita muda de acordo com seu tamanho \u2013 pequenas part\u00edculas de colora\u00e7\u00e3o vermelha a part\u00edculas grandes, pretas. O aquecimento da hematita a temperaturas acima de 800 oC leva \u00e0 agrega\u00e7\u00e3o e crescimento dos cristais.<\/p>\n<div align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/quimicaviva\/wp-content\/uploads\/sites\/218\/2011\/08\/jarros-antes-depois.jpg\" \/><\/p>\n<\/div>\n<p>Sem a palha de arroz a cer\u00e2mica de Bizen n\u00e3o adquire a colora\u00e7\u00e3o <i>hidasuki<\/i>. Como ilustrado na figura abaixo, os autores japoneses prepararam pastilhas de argilas de Bizen de diferentes maneiras. Na figura (a) \u00e9 mostrada uma pastilha feita de argila de Bizen sem arroz, e cont\u00e9m quartzo, cristobalita e mulita [(Al,Fe)6Si2O13, com a raz\u00e3o Al\/Fe de aproximadamente 9\/1]. A pastilha (b) foi feita na presen\u00e7a de palha de arroz, por\u00e9m foi rapidamente resfriada, levando \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de uma superf\u00edcie vitrificada. As pastilhas (c) e (d) foram preparadas com argila de Bizen e palha de arroz, mas resfriadas lentamente. Medidas por difratometria de raios-X, microscopia eletr\u00f4nica de varredura, microscopia de transmiss\u00e3o de el\u00e9trons e difratometria de el\u00e9trons permitiram os autores japoneses verificar que o resfriamento lento das pe\u00e7as de cer\u00e2mica leva a um aumento da concentra\u00e7\u00e3o de hematita cristalizada de diferentes formas.<\/p>\n<div align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/quimicaviva\/wp-content\/uploads\/sites\/218\/2011\/08\/pastilhas-1.jpg\" \/><\/p>\n<\/div>\n<p>As an\u00e1lises indicaram que a argila preparada sem palha de arroz apresenta cristais de mulita na forma de agulhas [figura (a), a seguir]. J\u00e1 a pastilha obtida por resfriamento r\u00e1pido apresenta grandes cristais planos (b), que podem se tornar hexagonais na presen\u00e7a de Si, Ca, Mg e Na. Quando preparada com arroz e deixada a resfriar lentamente, as pastilhas formadas apresentam grandes cristais esf\u00e9ricos de corundum (\u00f3xido de alum\u00ednio, Al2O3) sobre os quais est\u00e3o cristais escuros de hematita (c) e (d). An\u00e1lises refinadas por microscopia de transmiss\u00e3o de el\u00e9trons destes cristais mostram cristais de corundum de aproximadamente 1,5 \u00b5m coberto de cristais de hematita de 0,5 \u00b5m [fotografia (a), depois do conjunto (a)-(d)] A fotografia (d) indica estruturas cristalinas marcadas C+H, com uma composi\u00e7\u00e3o \u201csandu\u00edche\u201d alfa-Fe2O3\/alfa-Al2O3\/alfa-Fe2O3. Os autores indicam que o mecanismo de forma\u00e7\u00e3o da colora\u00e7\u00e3o hidasuki \u00e9 o seguinte: primeiro, uma rea\u00e7\u00e3o dos componentes da argila de Bizen com o pot\u00e1ssio presente na palha de arroz a 1250 \u00b0C resulta na forma\u00e7\u00e3o de duas fases: uma l\u00edquida \u2013 SiO2 \u2013 e corundum, s\u00f3lida (Al2O3). Durante o processo de resfriamento, os cristais de hematita crescem sobre os cristais de corundum. O problema \u00e9 o oxig\u00eanio.<\/p>\n<div align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/quimicaviva\/wp-content\/uploads\/sites\/218\/2011\/08\/cristais-1.jpg\" \/><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/quimicaviva\/wp-content\/uploads\/sites\/218\/2011\/08\/cristais-2.jpg\" \/><\/p>\n<\/div>\n<p>O teor de oxig\u00eanio durante o processo de prepara\u00e7\u00e3o da porcelana de Bizen tamb\u00e9m \u00e9 cr\u00edtico. Os pesquisadores japoneses prepararam diferentes pastilhas de argila a 1250 \u00b0C, sob diferentes atmosferas: (a) atmosfera de N2 (nitrog\u00eanio), livre de O2; (b) com uma atmosfera composta de 99% de N2 e 1% de O2; (c) 98% N2 e 2% O2; (d) 95% N2, 5% O2. Como \u00e9 poss\u00edvel ver, a colora\u00e7\u00e3o das pastilhas muda bastante de acordo com a composi\u00e7\u00e3o de gases utilizada na sua prepara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/quimicaviva\/wp-content\/uploads\/sites\/218\/2011\/08\/pastilhas-22.jpg\" \/><\/p>\n<\/div>\n<p>A presen\u00e7a de f\u00f3sforo (na forma de P2O5) e carbono (das cinzas da palha de arroz) tamb\u00e9m influencia na colora\u00e7\u00e3o da cer\u00e2mica obtida. A presen\u00e7a de f\u00f3sforo leva \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de schreibersita (Fe3P). J\u00e1 a presen\u00e7a de car<br \/>\nbono leva \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de grafite. Ambos participam na colora\u00e7\u00e3o final da pe\u00e7a de cer\u00e2mica preparada. As pe\u00e7as de cer\u00e2mica mais claras s\u00e3o ricas em uma forma de hematita denominada de epsilon-Fe2O3, que forma cristais perpendiculares \u00e0 superf\u00edcie de mulita onde est\u00e3o aderidos (figuras a, b e c, a seguir). Esta forma de hematita, epsilon-Fe2O3, muda sua forma cristalina de acordo com a press\u00e3o parcial de oxig\u00eanio (O2) na atmosfera em que os cristais s\u00e3o formados, e \u00e9 respons\u00e1vel pela colora\u00e7\u00e3o de tom alaranjado das pe\u00e7as de cer\u00e2mica.<\/p>\n<div align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/quimicaviva\/wp-content\/uploads\/sites\/218\/2011\/08\/cristais-3.jpg\" \/><\/p>\n<\/div>\n<p>O trabalho dos autores japoneses traz \u00e0 luz fatores qu\u00edmicos e f\u00edsicos que determinam a composi\u00e7\u00e3o de materiais argilosos utilizados na prepara\u00e7\u00e3o de cer\u00e2micas, material extremamente vers\u00e1til utilizado para os mais diversos fins. Surpreendente \u00e9 a tecnologia desenvolvida pelos artes\u00e3os japoneses durante s\u00e9culos de maneira intuitiva e emp\u00edrica. A principal motiva\u00e7\u00e3o para a cria\u00e7\u00e3o das pe\u00e7as de cer\u00e2mica de Bizen \u00e9 est\u00e9tica \u2013 pura beleza.<\/p>\n<p>Refer\u00eancia<\/p>\n<\/div>\n<p><span style=\"padding: 5px;float: left\"><a href=\"http:\/\/www.researchblogging.org\"><img decoding=\"async\" alt=\"ResearchBlogging.org\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/quimicaviva\/wp-content\/uploads\/sites\/218\/2011\/08\/rb2_small1.png\" style=\"border: 0pt none\" \/><\/a><\/span><span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Accounts+of+Chemical+Research&amp;rft_id=info%3Adoi%2F10.1021%2Far9001872&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Science+in+the+Art+of+the+Master+Bizen+Potter&amp;rft.issn=0001-4842&amp;rft.date=2010&amp;rft.volume=&amp;rft.issue=&amp;rft.spage=2147483647&amp;rft.epage=&amp;rft.artnum=http%3A%2F%2Fpubs.acs.org%2Fdoi%2Fabs%2F10.1021%2Far9001872&amp;rft.au=Kusano%2C+Y.&amp;rft.au=Fukuhara%2C+M.&amp;rft.au=Takada%2C+J.&amp;rft.au=Doi%2C+A.&amp;rft.au=Ikeda%2C+Y.&amp;rft.au=Takano%2C+M.&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Chemistry%2CBiochemistry%2C+Organic+Chemistry\">Kusano, Y., Fukuhara, M., Takada, J., Doi, A., Ikeda, Y., &amp; Takano, M. (2010). Science in the Art of the Master Bizen Potter <span style=\"font-style: italic\">Accounts of Chemical Research<\/span> DOI: <a rev=\"review\" href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1021\/ar9001872\">10.1021\/ar9001872<\/a><\/span><\/p>\n<p>Nota: a utiliza\u00e7\u00e3o de figuras \u00e9 autorizada pela American Chemical Society (veja <b><a href=\"https:\/\/s100.copyright.com\/AppDispatchServlet\">aqui<\/a><\/b>).<\/p>\n<div class=\"zemanta-pixie\"><img decoding=\"async\" class=\"zemanta-pixie-img\" alt=\"\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/quimicaviva\/wp-content\/uploads\/sites\/218\/2011\/08\/pixy20.gif\" \/><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A natureza humana traz no seu bojo a manifesta\u00e7\u00e3o da beleza e a aprecia\u00e7\u00e3o da beleza como uma de suas caracter\u00edsticas \u00fanicas, associadas principalmente \u00e0 intui\u00e7\u00e3o e aos sentimentos. 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