{"id":98,"date":"2010-06-08T00:57:47","date_gmt":"2010-06-08T03:57:47","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/quimicaviva\/2010\/06\/antibioticos_em_falta\/"},"modified":"2010-06-08T00:57:47","modified_gmt":"2010-06-08T03:57:47","slug":"antibioticos_em_falta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/quimicaviva\/2010\/06\/08\/antibioticos_em_falta\/","title":{"rendered":"Antibi\u00f3ticos em falta"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\">Antibi\u00f3ticos s\u00e3o absolutamente necess\u00e1rios, uma vez que infec\u00e7\u00f5es por bact\u00e9rias s\u00e3o comuns em muitas situa\u00e7\u00f5es. Ferimentos, m\u00e1 higiene, e at\u00e9 mesmo em opera\u00e7\u00f5es hospitalares, para n\u00e3o falar em cl\u00ednicas clandestinas (nas quais j\u00e1 ocorreram v\u00e1rias mortes). Mesmo assim, atualmente o mundo est\u00e1 passando por uma crise de falta de antibi\u00f3ticos.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o num\u00e9rica entre humanos e bact\u00e9rias \u00e9 de 1 para 1 bilh\u00e3o de trilh\u00f5es, sendo que a taxa de reprodu\u00e7\u00e3o das bact\u00e9rias \u00e9 de cerca de 500.000 vezes mais r\u00e1pida que dos humanos. Ou seja, o mundo \u00e9 literalmente dominado por bact\u00e9rias, por mais desinteligente que tal design possa parecer. Al\u00e9m do mais, algumas bact\u00e9rias s\u00e3o especialmente nocivas. A esp\u00e9cie Staphylococcus aureus resistente \u00e0 meticilina, por exemplo (MRSA methicillin-resistant <i>Staphylococcus aureus<\/i>), \u00e9 a respons\u00e1vel direta por 100.000 mortes\/ano nos EUA. Outras esp\u00e9cies particularmente perniciosas por serem resistentes a muitos f\u00e1rmacos s\u00e3o <i>Pseudomonas<\/i>, <i>Acinetobacter<\/i>, <i>Klebsiella<\/i>. O tratamento de infec\u00e7\u00f5es causadas por estas bact\u00e9rias patog\u00eanicas \u00e9 bastante limitado, pois apenas um n\u00famero pequeno de antibi\u00f3ticos \u00e9 efetivo para elimin\u00e1-las.<\/p>\n<div align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/quimicaviva\/wp-content\/uploads\/sites\/218\/2011\/08\/infeccao1.gif\" \/><\/p>\n<\/div>\n<p>Como a descoberta de novos antibi\u00f3ticos t\u00eam sido cada vez mais dif\u00edcil, m\u00e9dicos est\u00e3o fazendo uso cada vez mais freq\u00fcente de antibi\u00f3ticos de segunda e terceira linha, que s\u00e3o mais custosos, menos efetivos e mais t\u00f3xicos. Para se ter uma id\u00e9ia, o tratamento de uma infec\u00e7\u00e3o causada por uma bact\u00e9ria resistente custa o dobro do tratamento de uma infec\u00e7\u00e3o comum, e o risco de morte por tal infec\u00e7\u00e3o \u00e9 duas vezes maior. Al\u00e9m disso, a dissemina\u00e7\u00e3o de bact\u00e9rias resistentes em ambientes hospitalares \u00e9 muito mais f\u00e1cil se medidas de higiene extremamente eficazes n\u00e3o s\u00e3o tomadas, como desinfec\u00e7\u00e3o de m\u00e3os e p\u00e9s, al\u00e9m dos sistemas de ventila\u00e7\u00e3o, e at\u00e9 mesmo de cateteres. Estima-se que 80% das infec\u00e7\u00f5es hospitalares poderiam ser prevenidas apenas por melhores medidas de assepsia.<\/p>\n<p>Mesmo adotando-se as melhores pr\u00e1ticas hospitalares, as bact\u00e9rias resistentes n\u00e3o ir\u00e3o desaparecer, pelo simples fato destas estarem presentes no ambiente h\u00e1 muitos milh\u00f5es de anos. Bact\u00e9rias e fungos est\u00e3o em cont\u00ednua competi\u00e7\u00e3o entre si e com outros seres vivos, como insetos, plantas e outros animais, e por isso desenvolveram mecanismos de resist\u00eancia muito eficazes para poder competir no ambiente natural. Para se ter uma id\u00e9ia, um estudo realizado por pesquisadores da McMaster University demonstrou que um ter\u00e7o de 500 bact\u00e9rias isoladas de solos s\u00e3o resistentes a 1\/3 de todos os antibi\u00f3ticos aos quais foram expostas. Outros estudos demonstraram que a resist\u00eancia de bact\u00e9rias ao antibi\u00f3tico eritromicina surgiu h\u00e1 aproximadamente 880 milh\u00f5es de anos, e a resist\u00eancia \u00e0 penicilina (produzida por fungos) deve ter surgido h\u00e1 cerca de 2 bilh\u00f5es de anos, sendo at\u00e9 mesmo anterior \u00e0 diferencia\u00e7\u00e3o entre bact\u00e9rias Gram-positivas e Gram-negativas.<\/p>\n<p>Algumas bact\u00e9rias apresentam a capacidade de eliminar os antibi\u00f3ticos de sua c\u00e9lula antes mesmo destes fazerem efeito, uma capacidade chamada de \u201cmecanismos de efluxo bacteriano\u201d. As bact\u00e9rias Gram-negativas apresentam paredes celulares que bloqueiam a entrada de antibi\u00f3ticos. Pseudomonas, por exemplo, apresenta as duas caracter\u00edsticas, e pode ser extremamente perniciosa. Outras bact\u00e9rias desenvolveram enzimas para neutralizar ou destruir antibi\u00f3ticos, como as penicilinas, chamadas de \u00df-lactamases.<\/p>\n<p>Outra caracter\u00edstica \u00fanica das bact\u00e9rias \u00e9 a sua capacidade de trocar genes com outras baterias, como n\u00f3s trocamos figurinhas de \u00e1lbuns da copa do mundo. Ao trocar genes as bact\u00e9rias podem compartilhar genes de resist\u00eancia a diferentes antibi\u00f3ticos. Desta maneira, a utiliza\u00e7\u00e3o abusiva e a m\u00e1 utiliza\u00e7\u00e3o de antibi\u00f3ticos, que \u00e9 muito freq\u00fcente, faz com que as bact\u00e9rias passem a adquirir resist\u00eancia a cada vez um n\u00famero maior de antibi\u00f3ticos. Consequentemente, a disponibilidade de antibi\u00f3ticos para o tratamento de infec\u00e7\u00f5es est\u00e1 cada vez mais restrita.<\/p>\n<div align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/quimicaviva\/wp-content\/uploads\/sites\/218\/2011\/08\/resistancemechanisms.gif\" \/><\/p>\n<\/div>\n<p>Na verdade, a \u201cera de ouro\u201d de descoberta dos antibi\u00f3ticos foi entre 1945 e 1960, quando a grande maioria dos antibi\u00f3ticos que hoje s\u00e3o utilizados foi isolada de bact\u00e9rias e fungos. Desde ent\u00e3o, muito poucos novos antibi\u00f3ticos foram descobertos \u2013 a grande maioria resulta de varia\u00e7\u00f5es dos antibi\u00f3ticos descobertos h\u00e1 mais de 50 anos. Para que se possam desenvolver novos antibi\u00f3ticos, mais eficazes, \u00e9 necess\u00e1rio que se descubram classes novas destes f\u00e1rmacos, que atuem de maneira diferente dos antibi\u00f3ticos j\u00e1 conhecidos.<\/p>\n<p>Embora o seq\u00fcenciamento de genomas na d\u00e9cada de 90 tenha causado grande excita\u00e7\u00e3o na ind\u00fastria farmac\u00eautica, nenhum novo antibi\u00f3tico resultou das pesquisas gen\u00f4micas. Entre 1995 e 2001 a ind\u00fastria farmac\u00eautica GlaxoSmithKline testou quase 500.000 de subst\u00e2ncias diferentes em 300 diferentes alvos terap\u00eauticos bacterianos, sem um \u00fanico sucesso. Como resultado, as ind\u00fastrias farmac\u00eauticas passaram a deixar de lado a pesquisa por novos antibi\u00f3ticos. Preferiram investir esfor\u00e7os na descoberta de f\u00e1rmacos mais f\u00e1ceis de serem desenvolvidos, e bem mais rent\u00e1veis, como \u201crem\u00e9dios\u201d para impot\u00eancia e calv\u00edcie.<\/p>\n<p>As causas das falhas de novos antibi\u00f3ticos foram muitas. V\u00e1rios antibi\u00f3ticos apresentaram espectro de a\u00e7\u00e3o muito mais restrito do que o desejado para serem clinicamente v\u00e1lidos (e de interesse comercial tamb\u00e9m). Outros apresentaram altos n\u00edveis de toxicidade, al\u00e9m de n\u00e3o apresentarem propriedades adequadaas para serem utilizados como medicamentos (baixa solubilidade em plasma, baixa capacidade de atravessar membranas, baixa absor\u00e7\u00e3o, etc.). Al\u00e9m de descobrir novos antibi\u00f3ticos eficazes, o maior problema foi de introduzir um novo f\u00e1rmaco no mercado que pudesse ser utilizado por um tempo razo\u00e1vel. Como os agentes patog\u00eanicos podem adquirir resist\u00eancia relativamente r\u00e1pido, a efic\u00e1cia dos antibi\u00f3ticos fica limitada a poucos anos. A combina\u00e7\u00e3o de todos estes fatores torna excessivamente alto o investimento na descoberta de novos antibi\u00f3ticos. Al\u00e9m das exig\u00eancias de ag\u00eancias sanit\u00e1rias, como o FDA (Food and Drug Adminsitration, dos EUA), serem muito rigorosas para a introdu\u00e7\u00e3o de novos antibi\u00f3ticos no mercado.<\/p>\n<p>Desta maneira, os m\u00e9dicos est\u00e3o passando a adotar novas formas de tratamento, principalmente baseadas na preven\u00e7\u00e3o. Mesmo assim, existem situa\u00e7\u00f5es em que antibi\u00f3ticos s\u00e3o imprescind\u00edveis. Caso n\u00e3o se redobrem esfor\u00e7os para se descobrir novas classes de antibi\u00f3ticos, muito em breve estaremos em uma sinuca de bico.<\/div>\n<p><span style=\"float: left;padding: 5px\"><a href=\"http:\/\/www.researchblogging.org\"><img decoding=\"async\" alt=\"ResearchBlogging.org\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/quimicaviva\/wp-content\/uploads\/sites\/218\/2011\/08\/rb2_small1.png\" style=\"border: 0pt none\" \/><\/a><\/span><span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Chemistry+%26+Biology&amp;rft_id=info%3Adoi%2F10.1016%2Fj.chembiol.2010.05.006&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Bacteria%3A+Drug+Resistance+Spreads%2C+but+Few+New+Drugs+Emerge&amp;rft.issn=10745521&amp;rft.date=2010&amp;rft.volume=17&amp;rft.issue=5&amp;rft.spage=413&amp;rft.epage=414&amp;rft.artnum=http%3A%2F%2Flinkinghub.elsevier.com%2Fretrieve%2Fpii%2FS1074552110001687&amp;rft.au=Shekhar%2C+C.&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Chemistry\">Shekhar, C. (2010). Bacteria: Drug Resistance Spreads, but Few New Drugs Emerge <span style=\"font-style: italic\">Chemistry &amp; Biology, 17<\/span> (5), 413-414 DOI: <a rev=\"review\" href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1016\/j.chembiol.2010.05.006\">10.1016\/j.chembiol.2010.05.<br \/>\n006<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antibi\u00f3ticos s\u00e3o absolutamente necess\u00e1rios, uma vez que infec\u00e7\u00f5es por bact\u00e9rias s\u00e3o comuns em muitas situa\u00e7\u00f5es. Ferimentos, m\u00e1 higiene, e at\u00e9 mesmo em opera\u00e7\u00f5es hospitalares, para n\u00e3o falar em cl\u00ednicas clandestinas (nas quais j\u00e1 ocorreram v\u00e1rias mortes). Mesmo assim, atualmente o mundo est\u00e1 passando por uma crise de falta de antibi\u00f3ticos. A rela\u00e7\u00e3o num\u00e9rica entre humanos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":522,"featured_media":99,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-98","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/quimicaviva\/wp-content\/uploads\/sites\/218\/2011\/08\/infeccao.gif","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/quimicaviva\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/98","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/quimicaviva\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/quimicaviva\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/quimicaviva\/wp-json\/wp\/v2\/users\/522"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/quimicaviva\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=98"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/quimicaviva\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/98\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/quimicaviva\/wp-json\/wp\/v2\/media\/99"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/quimicaviva\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=98"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/quimicaviva\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=98"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/quimicaviva\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=98"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}