Chalcites basalis
Chalcites basalis

Cucos também são exemplo para o questionamento de até que ponto os genes podem influenciar um comportamento (Nature vc Nurture). No caso do cuco-canoro ou cuco comum (Cuculus canorus), espécie nativa da Europa, os genes influenciam muito. As fêmeas depositam seus ovos nos ninhos de outras aves e partem para a migração através do Mar Mediterrâneo até a África. Os filhotes, que nascem em ninhos de estranhos são capazes de, ao atingir a idade adulta, fazer a migração para a África sem nenhuma referência prévia, e de quebra encontrar os cucos que já estão lá.

Já vimos que a vida dos cucos e dos hospedeiros é dura, despistar os pais, disfarçar o ovo e até forçar a aceitação. Mas e depois que o filhote nasce, está tudo bem?

Um dos primeiros problemas ao nascer é comida, o cuco rescém-nascido precisa imitar o chamado dos demais filhotes do ninho. Quando há uma coevolução entre uma espécie de cuco e uma espécie hospedeira, isso não é tão problemático, o cuco é selecionado para imitar um canto. Mas o cuco australiano Chalcites basalis vai mais além, ele parasita dois tipos diferentes de aves, o Malurus cyaneus e o Acanthiza reguloides. Pior ainda, ele nasce mais rápido do que os filhotes verdadeiros e joga os ovos para fora, de maneira que precisa imitar o chamado de duas aves diferentes que ele nunca ouviu!

Uma das possibilidades nesse caso, seria a separação da espécie em duas raças, cada uma adaptada a um hospedeiro, que posteriormente se isolariam em duas espécies. Porém, análises de DNA não indicaram grandes diferenças entre os indivíduos que parasitam um ou outro hospedeiro, além de se observar uma mesma fêmea usando pais de ambas espécies com sucesso. A diferença portanto deve estar no desenvolvimento do filhote.

Malurus cyaneus
Malurus cyaneus

O hospedeiro mais comum desse cuco é o Malurus cyaneus, sendo o hospedeiro de 41% dos cucos do grupo observado, por isso é considerado o hospedeiro primário. Em seguida o Acanthiza reguloides, com 34% dos casos, considerado hospedeiro secundário. Outras aves também foram parasitadas, mas com 11% ou menos dos casos.

Acanthiza reguloides
Acanthiza reguloides

O chamado dos filhotes de cuco nos ninhos de ambas as aves foi gravado e analizado. Com isso foram gerados os sonogramas (perfis de som) que você vê abaixo – clique na figura para ampliar. Filhotes de M. cyaneus fazem um barulho mais curto (letra A), como um mip mip. Já os filhotes de Acanthiza reguloides, têm um chamado mais longo (letra C), como um meeeeep meeeeeep. Agora repare nos chamados dos cucos criados em ninhos de espécies diferentes (letras B e D).

Perfil sonoro dos filhotes de  hospedeiros, à esquerda e de cucos, à direita.

Perfil sonoro do chamado dos filhotes de hospedeiros, à esquerda, e do cuco, à direita.

Olhando para os perfis fica fácil entender o que acontece. O cuco criado por ambas espécies começa com o mesmo chamado (letras B e D), que imita os filhotes do hospedeiro primário (letra A). No ninho do hospedeiro primário, Malurus cyaneus, o chamado é respondido com comida, uma vez que corresponde ao que os filhotes verdadeiros usam, e se mantém uniforme com o passar dos dias (letra B).

No ninho do hospedeiro secundário, o chamado começa da mesma forma (letra D), mas vai mudando, provavelmente devido à falta de resposta dos pais, e após 13 dias é idêntico ao dos filhotes de A. reguloides (letra C).

Segundo os autores, o cuco exibe um caso de moldagem social (social shaping), onde o comportamento dos filhotes muda em resposta ao ambiente onde se encontram. Se o chamado padrão é reforçado, nesse caso com alimentação, ele se mantém. Se não é reforçado, aciona o gatilho que promove uma mudança para um segundo estado de comportamento.

Curiosamente, ao parasitar uma terceira espécie hospedeira observada não houve mudança no padrão de chamados do filhote. Resta saber se é uma limitação do cuco, ou se não há um discriminação do hospedeiro que responde ao primeiro chamado, eliminando assim a necessidade de mudança.


Neste caso, vale a máxima da piada: no mundo moderno, quem não fala pelo menos duas línguas está perdido!
😉

Fonte:

Naomi E. Langmore et al., “SOCIALLY ACQUIRED HOST-SPECIFIC MIMICRY AND THE EVOLUTION OF HOST RACES IN HORSFIELD’S BRONZE-CUCKOO CHALCITES BASALIS,” Evolution 62, no. 7 (2008): 1689-1699, doi:10.1111/j.1558-5646.2008.00405.x.

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