Cai por terra um dos últimos exemplos de fidelidade incondicional…

Casal de esquistossomos, a fêmea está dentro do macho
Casal de esquistossomos. A fêmea, mais fina, está dentro do macho.

O Schistosoma mansoni é o trematoda causador da esquistossomose, verminose bem comum no Brasil. Seu ciclo de vida começa com os ovos em água contaminada (em regiões com carência de saneamento básico). Ao sair do ovo, a larva miracídio entra em caramujos, onde se desenvolve até a fase de cercária. A cercária tem uma cauda que usa para nadar em direção à pele de quem entra desprotegido na água, atravessando-a e entrando na corrente sanguínea. Uma vez dentro do sistema circulatório, se dirige a um dos pontos prediletos de parasitas, as veias do intestino, porta de entrada dos nutrientes recém digeridos.

O esquistossomo é considerado um dos poucos casos de monogamia na Natureza. Esqueça aquelas histórias sobre araras, papagaios e outros animais que formam um casal para o resto da vida. Exames de DNA dos filhotes e dos pais demonstraram que embora os casais se mantenham a vida toda juntos, os ovos não necessariamente são do macho do casal. Já no caso do S. mansoni a monogamia é forçada.

O macho tem cerca de 1 cm e seu corpo parece uma casca de banana vazia, ele tem um corte no corpo chamado de canal ginecóforo e ventosas que garantem sua aderência na parede das veias. A fêmea mede cerca de 1,5 cm e é mais filamentosa. Ela se abriga dentro do corpo do macho, que libera moléculas que promovem o seu amadurecimento sexual. A monogamia desse casal se deveao fato da fêmea estar guardada dentro do macho, situação digna de um caso terminal de ciúme.

Nas aves, foi observado que nos casos em que a fêmea troca de parceiro, ela geralmente o faz quando o novo macho tem uma diferença genética maior em relação a ela do que o macho anterior. Trata-se de uma estratégia para aumentar a diversidade genética da geração seguinte, fruto da corrida da Rainha Vermelha.

Um experimento bem engenhoso mostrou que mesmo um dos maiores simbolos de monogamia e estabilidade comete deslizes. Para não ter que observar e marcar esquistossomos machos e fêmeas dentro de ratos infectados, os pesquisadores infectaram ratos com machos e fêmeas resistentes a um vermífugo. Mais machos do que fêmeas para garantir que nenhuma fêmea ficaria sem par. Em seguida, infectavam os ratos com machos susceptíveis ao vermífugo e submetiam os casais às drogas. Em alguns casais os machos morriam, entregando as fêmeas que haviam se divorciado do companheiro anterior.

Mas restou a dúvida: o que motivaria a disputa? Competição entre machos, competição entre fêmeas ou diferenças genéticas entre os pares do casal, como no caso das aves? Numa segunda bateria de experimentos, excesso de fêmeas não foi motivo suficiente para o desquite. Para o macho, não é bom negócio trocar de fêmea, os nutrientes e sinalizadores para a fêmea crescer partem do macho, e deixar de lado todo esse investimento por outra fêmea que vai requerer tudo novamente pode ser mau negócio. Já entre as fêmeas, é difícil para uma fêmea solteira ainda não desenvolvida conseguir desbancar uma fêmea já estabelecida e crescida dentro de um macho.

Quando há excesso de machos no entanto, ocorre divórcio. Mas ele varia muito de acordo com a diferença entre os competidores. Ao se comparar as diferenças genéticas entre machos e fêmeas ficou claro o motivo. Quando há mais machos do que fêmeas, as fêmeas tendem a abandonar um macho mais geneticamente similar a elas por um macho mais diverso. Vale a pena para a fêmea investir em um macho mais diverso, que garante uma geração seguinte mais variada. Quanto mais geneticamente diferente um macho novo em relação ao que já está com a fêmea, mais provável que ela troque de marido.


Nada como o cheiro de um exemplo de comportamento humano tentando ser projetado na Natureza queimado pela manhã.

Fonte:

Sophie Beltran, Frank Cézilly, and Jérôme Boissier, “Genetic Dissimilarity between Mates, but Not Male Heterozygosity, Influences Divorce in Schistosomes,” PLoS ONE 3, no. 10 (October 8, 2008): e3328, doi:10.1371%2Fjournal.pone.0003328.

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