toupeira nariz-de-estrela
E para responder ao enigma de sexta VIII (que foi o mais curto até agora, destruíram ele em poucas horas), [modo sensacionalista on] aquela figuras eram de olhos! [modo sensacionalista off]. – Mas peraí, não são os tentáculos nasais da toupeira nariz-de-estrela? Então por que são olhos? Já me explico.
A toupeira nariz-de-estrela é um dos animais mais bizarros que conheço. Quase cega, tem 22 tentáculos se projetando do seu focinho que usa para caçar. Como vive em túneis que cava em terrenos úmidos, é praticamente cega, e se vale de outros sentidos para interagir com o mundo.
Seus apêndices nasais foram alvo de muita especulação, se imaginava que servissem para manipulação de comida ou detecção de campos elétricos de outros animais. Foi a pesquisa de um neurocientista, Kenneth C. Catania e seus colaboradores que revelou uma série novidades fantásticas sobre a toupeira.
Enxergando com o nariz
Os apêndices são cobertos com 25 mil mecanoreceptores – órgãos de Eimer – que geram impulsos conduzidos por mais de 100 mil fibras nervosas (6 vezes mais do que nossa mão). Eles formam literalmente um campo visual táctil, inclusive com uma região mais sensível no centro, que pode ser comparada com uma fóvea. A cada toque que a toupeira dá nas paredes do seu túnel, seu cérebro registra o espaço (uma representação bem legal aqui). A dinâmica dos toques segue a mesma de nossa visão, os tentáculos menos sensíveis encontram a comida e levam a atenção para a região mais sensível.

Neste vídeo é possível ver Catania trabalhando e a toupeira tocando o túnel.

O tentáculo que serve de “fóvea” é o décimo primeiro de cada lado, ele é o menor próximo à boca, e ao contrário do que se imaginaria, tem menos sensores do que os outros tentáculos. Por ser menor, tem 900 sensores enquanto os outros chegam a ter mais de 1500. Sua sensibilidade se desenvolve antes no crescimento do embrião já que tem prioridade na hora de alocar espaço do córtex cerebral, garantindo que os mecanoreceptores embora em menor número terão seus impulsos processados por mais neurônios [1].
Nossa fóvea também possui essa organização nervosa. Para entender a diferença que isso faz, basta pensar que nossos dedos têm bem mais fibras nervosas e uso do córtex cerebral do que nossas costas, daí a diferença na sensibilidade.
Fast-food realmente fast
Mas o que fazer com tanta tudo isso? Por que perceber o mundo dessa forma? Para comer!
Quando você está dirigindo e vê o semáforo ficar vermelho, leva cerca de 650 milissegundos, pouco mais de meio segundo, para começar a pisar no freio. Já a toupeira nariz-de-estrela leva menos de 227 ms, pouco mais de um quinto de segundo, para encostar em algo, decidir se é comestível e comer. Você ainda nem percebeu que o farou ficou vermelho e ele já descobriu que aquilo era uma minhoca e engoliu em metade do tempo.
Vivendo em solo pantanoso, recheado de larvas de insetos, a toupeira possui dentes incisivos bem pequenos que se fecham como pinças, perfeitos para pegar presas pequenas. O problema de comer animais menores é que compensam menos energeticamente. É muito mais proveitoso comer uma minhoca de 50 gramas do que 50 larvas de 1 grama, devido ao custo de manipulação do alimento, a não ser que haja uma extrema eficiência. Com um tempo de resposta tão pequeno, trabalhando no limite do sistema nervoso, ela consegue aproveitar a abundância de alimento em pequenas doses que se encontra em seu ambiente.
Farejando no mergulho
bolhas_sopradas
E não é só isso! Além de enxergar com o nariz e decidir em pouquíssimo tempo o que é comestível ou não, ainda há outros truques. A maioria dos mamíferos não consegue sentir cheiros dentro da água por um simples motivo: as moléculas odorantes detectadas pelo nariz precisam estar dispersas no ar.
Em solo alagado, isso poderia ser um problema para a toupeira, mas não é. Quando dentro da água, ela consegue farejar a presa de uma maneira bem engenhosa, soprando bolhas. Basta expulsar um pouco de ar pelo nariz, deixar as moléculas se dissolverem nele e inspirar de volta – não aconselho tentar isso. E mais, o volume de ar e a frequência com que as bolhas eram sopradas e inaladas são os mesmos de ratos farejando, sugerindo que é exatamente isso que está acontecendo.
Mapear o mundo ao seu redor tridimensionalmente, detectar e analisar a comida em um quinto de segundo, sentir cheiros embaixo d’água… fantástico para um animal que normalmente está na lista dos mais feios.

[1] Catania, K. C. “A nose that looks like a hand and acts like an eye: the unusual mechanosensory system of the star-nosed mole.” Journal of Comparative Physiology A: Neuroethology, Sensory, Neural, and Behavioral Physiology 185, no. 4 (Outubro 8, 1999): 367-372.

[2] Spiro, John. “A head start in the cortical space race .” Nat Rev Neurosci 2, no. 5 (Maio 2001): 312.

[3] Catania, Kenneth C., e Fiona E. Remple. “Asymptotic prey profitability drives star-nosed moles to the foraging speed limit.” Nature 433, no. 7025 (Fevereiro 3, 2005): 519-522.

[4]Catania, Kenneth C. “Olfaction: Underwater ‘sniffing’ by semi-aquatic mammals.” Nature 444, no. 7122 (Dezembro 21, 2006): 1024-1025.