Vacinas são realmente puras, e se não são, quais os tipos de contaminantes?

circovirus Circovírus suíno 1 em imagem de microscopia. Fonte.

ResearchBlogging.orgExistem dois tipos principais de vacina: a inativada, que é feita de pedaços do patógeno (vírus ou bactéria que queremos combater) que não são capazes de causar infecção, como a vacina da gripe (tanto sazonal quanto do último H1N1); e a atenuada, que é feita cultivando o patógeno em um outro animal e selecionando variantes que quase não causam sintomas em humanos, como a vacina da pólio e febre amarela. Cada tipo tem suas vantagens e desvantagens, a vacina inativada é mais segura por não ser infecciosa e pode ser armazenada à temperatura ambiente, enquanto a atenuada induz imunidade mais completa e usa doses menores, mas em alguns casos o vírus pode reverter para um estado mais infeccioso.

Como a vacina inativada é feita apenas de pedaços do vírus ou bactéria, que são previamente desmanchados e purificados, ela tem muito poucas chances de ser contaminada. – isso vale para a vacina da gripe também, mesmo que a vacina do H1N1 fosse contaminada com o H5N1 como alguns e-mails sugerem, ele seria destruído e não seria capaz de infectar ninguém – Por isso, um grupo de pesquisadores americanos testou vacinas atenuadas com uma técnica de sequenciamento de DNA recente.

Vacinas atenuadas não podem ser tão purificadas, e dependem do crescimento em células cultivadas, que utilizam vários produtos de origem animal, um grande potencial para contaminação. Como o vírus de primatas SV40, que estava presente em vacinas da pólio distribuídas entre 1955 e 1961 cultivadas em células de rim de macaco. As testadas foram: vacina contra a pólio oral (OPV, Bharat Biotech), rubéola (Meruvax-II, Merck), sarampo (Attenuvax, Merck), febre amarela (YF-Vax, Sanofi Pasteur), Herpes humana 3 (Varivax, Merck), Rotavírus (Rotarix, GlaxoSmithKline; e Rotateq, Merck) e a vacina tríplice para sarampo, caxumba e rubéola (MMR-II, Merck).

A abordagem utilizada foi o pirosequenciamento. O método mais antigo e comum (o Sanger) depende de iniciadores da sequencia conhecidos, o que geralmente restringe a região caracterizada a trechos conhecidos, e apenas alguns fragmentos são produzidos, ou seja, geralmente se encontra o que se está buscando. Já o método de pirosequenciamento usa uma abordagem mais bruta: milhares de pequenas sequências são feitas sem uma direção certa, e no meio delas se encontra de tudo. Por isso ele está sendo utilizado para exploração de material biológico. Enquanto o método antigo serve para testar se uma amostra é positiva para um vírus conhecido, ou se contém algo parecido com o que conhecemos, o pirosequenciamento permite descobrir sequencias inesperadas, embora algumas vezes não saibamos quais pedaços encaixar.

A maioria das vacinas se revelou sem contaminação detectável, com algumas exceções. Alguns retrovírus endógenos foram encontrados, retrovírus aviário na vacina de sarampo e de primata na Rotateq, o que condiz com o método de produção das mesmas, que consiste em crescer o vírus em células (de ave e primata) que contém vírus integrados ao seu genoma e podem serem expressos em algum momento. Tanto que a quantidade de sequências detectadas foi muito pequena.

Depois de tratar a amostra de Rotateq com DNAse, uma enzima que degrada DNA, o retrovírus de primata deixou de ser detectado, indicando que ele deve fazer parte de DNA celular (primatas frequentemente têm retrovírus integrados ao genoma, e nós humanos não somos exceção à essa regra). Essa vacina é produzida em células Vero, que são derivadas de rins de macaco verde africano. Já no caso do retrovírus de aves, o tratamento com DNAse não impediu sua detecção, o que indica que o material genético deve ser RNA e estar dentro de uma partícula viral. Mas testes posteriores mostraram que ele não está ativo.

Diferentemente das outras, a vacina Rotarix (GlaxoSmithKline) apresentou uma grande quantidade de sequências de um vírus porcino chamado Circovírus 1, um vírus bastante comum em suínos e aves foi encontrado, neste caso uma linhagem suína, para ser mais preciso. Quase 40% das sequências encontradas foram do vírus porcino, somando mais de 10x a quantidade de material genético de Rotavírus.

Segundo a própria GlaxoSmith, testes nas amostras armazenadas de todo o processo de produção da vacina mostraram que o circovírus já estava presente desde o começo. A provável fonte da contaminação é a tripsina de porco utilizada na cultura de células. Mas o fato do vírus estar presente desde a criação da vacina acabou sendo uma vantagem, uma vez que toda a validação e os testes foram realizados com o circovírus, e não foram notados efeitos colaterais. O que faz sentido, esta vacina é de aplicação oral, e o circovírus é muito comum na carne suína, ingerimos regularmente, e embora seu DNA esteja presente em nossas fezes, poucas pessoas possuem anticorpos contra ele, o que indica que ele não deve causar infecção tão facilmente.

Assim, a FDA (Foods and Drugs Administration), órgão regulatório americano, decidiu suspender a distribuição de Rotarix enquanto se informa mais sobre a contaminação. Enquanto isso, apenas a Rotateq está sendo utilizada. Já a agência sanitária européia e a Anvisa consideraram a vacina segura para aplicação e não fizeram a retirada do mercado.

 

Fica a lição, conforme melhoram as técnicas, reavaliamos o que temos à nossa disposição e algumas vezes descobrimos que há mais do que sabíamos. Vacinas podem sim estar contaminadas, e há um monitoramento. E, apesar de toda a teoria da conspiração à respeito da vacina e o acobertamento por parte da grande mídia, há gente disposta sim a testar a qualidade do que a indústria farmacêutica produz, e expor os problemas.  

Via This Week in Virology.

 

Fonte:

Victoria, J., Wang, C., Jones, M., Jaing, C., McLoughlin, K., Gardner, S., & Delwart, E. (2010). Viral nucleic acids in live-attenuated vaccines: detection of minority variants and an adventitious virus. Journal of Virology DOI: 10.1128/JVI.02690-09

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