porquinho ©be_khe

 

ResearchBlogging.orgAproveitando que há um certo tempo não reclamo de uma notícia, vou combinar minha interpretação de um artigo recém publicado na Science e uma crítica à reportagem do iG (em itálico as partes que quero destacar):

 

 

 

 

Chineses apresentam nova genética da gripe suína

Pesquisadores identificaram mutações em oito genes do H1N1 que podem, eventualmente, contaminar seres humanos

[…]

Durante o monitoramento de porcos em um matadouro de Hong Kong, os pesquisadores verificaram, em janeiro deste ano, a existência de um novo rearranjo genético do H1N1: as análises confirmam que o vírus é uma variação do causador da pandemia em 2009. Para facilitar a identificação da suposta nova cepa caso ela venha, eventualmente, a contaminar seres humanos, os chineses caracterizaram oitos genes do vírus que teriam apresentando mutações.

 

Como vamos explicar variante para o público? Novo código? Novos genes?… Ah, nova genética! Que raios querem dizer com isso? Variante, linhagem, tipo, qualquer termo destes seria mais preciso do que genética. E também não são mutações nos genes do H1N1, são novos genes.

 

Dêem uma olhada na figura abaixo que vou explicar o que realmente aconteceu:

 

rearranjoEste é o perfil genético dos influenzas isolados de porcos em Hong Kong. Em vermelho estão os genes do vírus pandêmico de 2009 e abaixo estão os coletados posteriormente. Sw (swine) refere-se a porcos, de onde foi isolado o vírus, HK corresponde a Hong Kong, a numeração corresponde ao nome da amostra e /09 ou /2010 ao ano de coleta. Fonte: Referência ao final.

 

Os cientistas não isolaram os oito genes que apresentaram mutações. Eles isolaram todos os oito genes de vírus de porcos de junho de 2009 até fevereiro deste ano, para acompanhar se o vírus pandêmico os contaminava. O Influenza têm só oito genes, e se quisermos estudar o rearranjo (troca de genes entre vírus diferentes), precisamos acompanhar todos eles.

O que eles viram é que nos porcos asiáticos circulam os três tipos comuns de influenza suíno, o vírus clássico de onde vieram os genes em azul, o vírus europeu/asiático em verde e o triplo rearranjado em laranja. Em vermelho estão os genes do vírus pandêmico de 2009 que, como pode ser visto, contaminou porcos em junho.

No começo deste ano, uma nova linhagem que rearranjou genes de vírus triplo, vírus europeu/asiático e pandêmico. E levando apenas um gene do causador da gripe suína ano passado. É preocupante e merece atenção, mas não é novidade. Como os outros isolados de 2009 deixam claro, esta troca de genes é bastante comum no influenza, inclusive em porcos, assunto bastante discutido por aqui. É este rearranjo constante que o vírus faz que tem um papel tão importante na nossa história.

Ainda na reportagem, o iG menciona o parágrafo do artigo que ressalta que em Hong Kong também circulam outras variantes do vírus, a H9N2 e H5N1, que podem rearranjar com o vírus pandêmico de 2009 e gerar novas linhagens perigosas. Isso também não é novidade, como já falei por aqui, e merece atenção, mas nada além do que já sabemos.

Assim, o influenza continua se rearranjando e gerando nova diversidade. E nós acompanhamos atentos, tentando adivinhar qual será a próxima ameaça para podermos agir a tempo.

 

Vijaykrishna, D., Poon, L., Zhu, H., Ma, S., Li, O., Cheung, C., Smith, G., Peiris, J., & Guan, Y. (2010). Reassortment of Pandemic H1N1/2009 Influenza A Virus in Swine Science, 328 (5985), 1529-1529 DOI: 10.1126/science.1189132

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