Estamos acostumados a nos preocupar com doenças que podem saltar de outros animais para humanos, como SARS, Ebola e gripe aviária, as zoonoses. Mas quem disse que o único caminho é um vírus saltar para humanos? Por que não mandamos doenças de volta?
Alouatta_caraya.jpg
fonte: Wikimedia
ResearchBlogging.orgO vírus da vaccinia é nosso “companheiro” de longa data. Ele foi o vírus isolado de vacas por Edward Jenner em 1976 para fazer a vacinação contra seu “primo”, o vírus da varíola, um dos primeiros passos para o desenvolvimento da vacina moderna.  Ao contrário de outras doenças onde são utilizados vírus inativados ou atenuados, o vaccinia é usado diretamente, por saltar da vaca (na verdade, ele talvez tenha vindo do cavalo, tudo indica que a linhagem original foi perdida) e não causar uma infecção grave em humanos.
Mas, tudo indica que ele saltou de volta para o gado aqui no Brasil. O fato de ele ter sido cultivado para o desenvolvimento de vacinas não quer dizer que ele tenha perdido a capacidade de infectar outros mamíferos. E pelo menos desde 1999, o vaccinia vem causando infecções em trabalhadores rurais e no gado no interior do Sudeste, em locais como Araçatuba. 
Ele causa febre, mal estar e lesões bem características na mão, braços e face, pelo contato durante a ordenha. O isolamento do vírus de tratadores, do gado e mesmo de ratos nos mesmos locais indicam que o vírus está circulando e sendo transmitido ativamente. E pelo visto foi muito mais além.
O grupo do Laboratório de Vírus (UFMG) coordenado pela professora Erna Kroon tem estudado estes casos. Buscando saber se animais silvestres poderiam estar fazendo a ligação entre casos distantes e em períodos distintos, eles vêm testando animais coletados em vários pontos. Um destes locais região de inundação da hidroelétrica de Lajeado (TO), entre os anos de 2001 e 2002. 
Dos 344 mamíferos testados estão tamanduás, gambás, tatus, macacos e outros. Todos animais silvestres, sem contato prévio com humanos ou com animais de criação. Mesmo a mais de 1400 quilômetros das últimas amostras positivas publicadas, metade dos gibões bugios [brigado, Guilherme] (Alouatta caraya) e um quarto dos macacos capuchinhos testados tinham anticorpos contra o vaccinia. Até alguns quatis tinham anticorpos. O DNA viral foi recuperado de 18 amostras de macacos, com sequências que os identificam como vaccinia.
Segundo Jônatas Abraão, primeiro autor do artigo que ainda fez a gentileza de me responder algumas perguntas, os vírus mais próximos do vaccinnia, o vírus da varíola do macaco, originário da África, e o vírus da varíola bovina, originário da Europa, já foram encontrados circulando em roedores e macacos no ambiente silverstre e próximos de zonas urbanas.
Tudo indica que os casos detectados no Sudeste não são casos isolados, apenas os poucos notificados. Segundo Jônatas, “O fato dos surtos terem sido notificados inicialmente no sudeste não significa que o vírus não circulava em outras regiões do país. A região sudeste é a grande bacia leiteira do Brasil, e por isso os casos chamam mais atenção dos órgãos de vigilância. Depois que a doença ganhou alguma repercussão no sudeste, surtos de vaccínia bovina já foram notificados em Rondônia, Maranhão, Mato Grosso, Goiás, Pernambuco, e no Tocantins (estado onde o nosso estudo foi feito). Acreditamos que hoje a doença ainda é subnotificada.”
O que torna o apelo sanitário ainda maior. O Jônatas ainda me disse que casos de vaccinia em roedores já são conhecidos em Belém desde pelo menos a década de 1960. É improvável que o vírus cause algo parecido com a varíola, mas ainda é uma doença infecciosa e preocupante principalmente em imunodeprimidos, como transplantados, que por não poderem combater tão facilmente infecções sofrem sintomas muito mais severos e podem até morrer. E tudo indica que ele já está bem distribuído pelo país.

Fonte:

 
Abrahao, J. (2010). Vaccinia Virus Infection in Monkeys, Brazilian Amazon Emerging Infectious Diseases DOI: 10.3201/eid1606.091187