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Fonte: Boeing.
Em 2000, Ewan Birney, membro do Instituto Europeu de Bioinformática e responsável pela ferramenta de predição e anotação de novos genes do instituto, propôs uma aposta para adivinhar o número de genes humanos a serem descobertos pelo projeto genoma humano até o ano de 2003. A lógica que os apostadores utilizaram foi bem direta. Se um organismo tão simples como o verme Caenorhabditis elegans, que possui cerca de 1000 células quando adulto, teve seu genoma sequenciado e publicado em 1998 revelando cerca de 20 mil genes codificadores de proteínas, o ser humano deveria ter muito mais. Afinal, nosso organismo é muito mais complexo do que a C. elegans, com trilhões de células, além de termos um cérebro capaz de gerar cultura.
Os valores apostados variaram bastante, ficando entre 25.747 e mais de 150.000 genes. E os apostadores incluiam diversos geneticistas e biólogos moleculares que assim como Ewan trabalhavam diretamente na área. E, como Christopher Chabris e Daniel Simons descrevem no excelente livro The Invisible Gorilla: And Other Ways Our Intuitions Deceive Us, todos erraram bastante. O número gira atualmente em torno de 20.500, mais ou menos o mesmo que o verme, e menos do que a maioria das plantas e muitos animais.
Já em 2010, durante a abertura da Copa, como o vírus do sarampo se espalhava em dias antes da vacina, o Twitter permitiu que em horas o Brasil fizesse uma trollagem global. Com o sonoro #calabocagalvão conseguimos convencer o mundo a salvar os raros papagaios galvão, garantindo uma das maiores formas de reconhecimento internacional, aparecer em um episódio dos Simpsons (ou quase, no melhor estilo troll).
Embora os ingredientes do #calaboca já estivessem disponíveis há bastante tempo — o Galvão Bueno irrita a audiência há décadas, a internet facilita a trollagem a distância transformando o bilhete de loteria premiado vendido a incautos na herança de um recém empossado príncipe nigeriano — ele não seria possível alguns anos atrás. Pois depende fluxo de informação.
Como Matt Ridley descreve no recente (e muito bom) Rational Optimist tudo muda quando a informação flui, quando idéias são trocadas. Idéias fantásticas que estariam restritas à primeira aplicação para a qual foram concebidas são vistas por outras pessoas e aplicadas em novos contextos. E se eu puser um motor a vapor em uma carroça? Quais aplicações posso dar para um gene que produz uma proteína fosforecente? Que tal combinar um sistema com os 140 caracteres do SMS, mas aberto para que todos possam ler e trocar mensagens rapidamente?
Assim como John Mattick descreveu em sua entrevista para a Revista Fapesp, o Boeing 777 construído atualmente é feito essencialmente do mesmo tipo de peça que um Boeing de 1960. Turbinas, pneus, alavancas, bombas hidráulicas e botões não são exatamente novidade. O que é novo são os quilômetros de fibra ótica e cabos que permitem uma troca de informações muito mais rápida e precisa. De maneira que hoje o piloto pode figurar na cabine enquanto o avião é pilotado sozinho.
E o motivo de Matttick fazer esta comparação é por que ele trabalha com RNA regulatório. Da mesma maneira como erraram por muito a estimativa do número de genes humanos, erraram até onde se estenderia o plano genético de crescimento dos animais. Um pacote de genes chamados homeobox, que comandam de maneira linda que parte do corpo vai formar o quê. A cada genoma de um organismo menos complexo sequenciado e estudado, estendeu-se mais e mais os animais onde estariam presentes os homebox. Ao ponto de serem encontrados em uma esponja.
Em uma mudança recente de foco na biologia, estamos descobrindo que a explicação para a nossa diferença está na regulação da informação. Enquanto temos mais ou menos o mesmo número de genes que um verme, e por consequência de proteínas (descontando o sistema imune), nossa porção de DNA que não codifica proteínas mas produz RNA capaz de regular funções celulares é enorme. RNA esse que não é traduzido em proteínas, mas é capaz de interagir com elas, com outros RNAs e mesmo com o DNA genômico, dando uma nova camada regulatória. É a regulação promovida por eles, e o aumento da informação por trás. que permitiu novos usos dos genes.
O que nos traz para o órgão mais complexo do corpo, o cérebro. Seus bilhões de neurônios 
só fazem sentido se tiverem um bom cabeamento interligando-os, que vai ser regulado por sinalizadores e receptores expressos de acordo com uma coordenação do RNA expresso pelos neurônios. Formando uma rede capaz de trocar sinais e gerar informação e trocar idéias em uma outra rede por ela concebida, dando voz à agonia que sentimos quando ouvimos mais um “Bem amigos da Rede Globo.”