H_pylori.jpgHelicobacter pyloriFonte.

ResearchBlogging.orgHelicobater pylori foi um microorganismo humano descoberto bastante recentemente (1979-82), o que é surpreendente dados os problemas que pode causar. Seus descobridores, Robin Warren e Barry Marshall ganharam o prêmio Nobel de Medicina em 2005 por terem encontrado a primeira bactéria reconhecida como carcinogênica em humanos, causadora de mais de meio milhão de casos de câncer gástrico no mundo.

Assim que foi feita a associação entre H. pylori e os problemas de estômago, que além do câncer local incluem úlceras e linfomas, uma busca enorme por maneiras de controlar esta bactéria começou. Tratamentos com antibióticos foram os mais adotados, mas vacinas estão em desenvolvimento e até o chá verde já foi tentado como forma de controle. Nas palavras [tradução minha] dos autores deste artigo, “[…] H. pylori é um patôgeno crônico, sério e transmissível que ninguém precisa, merece, ou deseja. […] É hora de juntar forças para erradicá-lo e para deixar H. pylori juntar-se à varíola e pólio na lista de indesejáveis.”
Mas talvez isso nem seja necessário, a H. pylori já está segue o caminho da extinção. Estamos nos livrando de nossas bactérias estomacais.
Espécies próximas de Helicobater estão presentes em todos os mamíferos estudados, e a diversidade da espécie humana mostra que ela se diferenciou após nossa saída da África, o que indica que estava presente há pelo menos 60 mil anos. Ou seja, todos os mamíferos provavelmente evoluíram com a presença desta bactéria nos estômago e os humanos possivelmente seguiram este mesmo caminho. Uma das evidências desta coevolução é o fato de que cerca de metade da população mundial está infectada por H. pylori. 
Neste momento você deve estar se perguntando como um dos microorganismos mais bem sucedidos pode estar sendo extinto. E a resposta está na distribuição desigual desta bactéria. Enquanto países pobres ainda possuem grandes taxas de infecção, nos países mais desenvolvidos este não é mais o caso. Nos EUA, por exemplo, menos de 6% das crianças carregam ela em seu estômago, provavelmente fruto do aumento dos cuidados com os alimentos, do consumo de antibióticos e dos partos por cesária. Sim, pois uma das prováveis vias de entrada da H. pylori é o contato do bebê com a flora microbiana da mãe no nascimento.
Mas há um outro lado nesta história. Ao mesmo tempo em que os casos de câncer de estômago diminuíram nestes países, os casos de adenocarcinoma de esôfago aumentaram, bem como de refluxo. Em uma relação inversa ao desaparecimento da H. pylori. O que faz bastante sentido, se pensarmos que estamos eliminando um microorganismo que sempre esteve presente em nosso corpo, durante toda a nossa evolução, interagindo com nosso sistema imune e nosso estômago.
Mesmo o aparecimento de tumores e úlceras em pessoas infectadas pode fazer parte desta relação. Quando pensamos que casos de câncer gástrico normalmente se manifestam ao final da vida, período em que antigamente as pessoas já teriam tido e criado os filhos, e não há mais pressão evolutiva para a sobrevivência.
Além da relação aparentemente protetora contra câncer de esôfago, existem trabalhos traçando um paralelo entre a perda de H. pylori e o aumento da produção de grelina pelo estômago, hormônio que promove a fome. Nos mesmos países em que novos hábitos estão acabando com a bactéria estomacal, a obesidade tem aumentado, e talvez este seja um dos fatores. A ligação com alterações fisiológicas vai mais além, alguns estudos vêem o mesmo efeito de diminuição dos casos de Helicobacter e aumento de casos de asma e alergias. Ambos podem ser fruto de uma mudança do sistema imune, e no caso da asma existe uma grande relação com refluxo, imagina-se que parte do líquido digestivo pode acabar no trato respiratório.
Claro que não se trata de um evento de causa e efeito. O que se vê são relações. Pode muito bem ser o caso de uma pessoa com mais alergias ou asma consumir mais antibióticos, e por isso mesmo não ter mais a bactéria em seu estômago. Eu mesmo tive muita bronquite quando criança, e sei pelas últimas endoscopias que não tenho H. pylori. – O que me deixa pensando se produzo mais grelina, uma boa desculpa para meu excesso de peso.
A questão que me deixou pensante não é exatamente a interação entre a H. pylori e o câncer de estômago ou esôfago. Muito ainda precisa ser estudado, e efeitos de correlação são bastante complicados. O intrigante é a mudança microbiana pela qual estamos passando. É natural que após milhares, ou mais provavelmente milhões de anos coevoluindo esta bactéria tenha desenvolvido maneiras de explorar e manipular nossa fisiologia,talvez inclusive regulando a acidez estomacal. E uma vez eliminada, um componente do nosso corpo não estará mais disponível. Componente sim, pois existem 10 vezes mais células bacterianas do que humanas em qualquer pessoa.
Quantos mais microorganismos de nossa flora não estamos eliminando com os novos hábitos de higiene e o constante consumo de antibióticos? E qual será o efeito que eles têm em nosso microorganismo, principalmente aqueles com os quais compartilhamos milhões de anos de evolução?
Fonte:
Blaser, M. (2010). Helicobacter pylori and Esophageal Disease: Wake-up Call? Gastroenterology, 139 (6), 1819-1822 DOI: 10.1053/j.gastro.2010.10.037