A USP forma bons alunos ou seleciona bons alunos?


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Recentemente li a not√≠cia de que pretendem diminuir as vagas da USP Leste, onde um dos coment√°rios √© que isso aumentaria a nota de corte e a qualidade dos alunos. Imediatamente me lembrei de uma discuss√£o que tivemos na disciplina de Ensaios Pedag√≥gicos do meu departamento. A quest√£o √©, os alunos que (entre outras coisas) que d√£o a boa fama da USP tiveram uma boa forma√ß√£o ou simplesmente foram filtrados pelo vestibular? Eu acredito mais na segunda alternativa. Acho que a Universidade de S√£o Paulo √© muito favorecida pelos alunos autodidatas que passam no vestibular.

Durante a gradua√ß√£o, tive v√°rias disciplinas que contavam com o m√©todo de ensino conhecido como “ferra na prova”. O docente n√£o tem tempo de preparar a aula? Cobra a mat√©ria na prova, d√° o nome do livro texto e os alunos que se virem. Quem deu aula foi o monitor? Cobra a mat√©ria na prova, d√° o nome do livro texto e os alunos que se virem. O docente n√£o quer dar aula? Passa uma lista de exerc√≠cios, cobra a mat√©ria na prova, d√° o nome do livro texto e os alunos que se virem. 
Claro, existem mat√©rias onde a lista de exerc√≠cio √© planejada e bolada para que os alunos pensem sobre problemas que o fa√ßam compreender conceitos importantes, que muitas vezes seriam esquecidos ou deixados de lado se fossem apenas ouvidos. Microbiologia e Bioqu√≠mica foram duas disciplinas onde os exerc√≠cios me foram fundamentais para entender os pontos mais importantes. Mas tamb√©m tive disciplinas em que o professor apareceu na primeira aula, apresentou os monitores “d√ļvidas voc√™s tiram com eles”, passou a lista de exerc√≠cio e s√≥ apareceu de novo no dia da prova. 
E sei de v√°rios casos nas exatas onde isso √© muito mais extremo. Disciplinas inteiras que se resumem a dar a lista de livros a serem lidos e cobrar o conte√ļdo na prova. Agora, isso √© ensinar? Isso √© escolher. Jogue o tema, e aqueles que forem autodidatas o suficiente v√£o aprender por conta, ou em muitos casos decorar e escrever na prova. Simples assim. N√£o vejo outra forma de explicar como cursos como matem√°tica (licenciatura e bacharelado), f√≠sica e outros acabam formando menos de 10 alunos por turma em alguns anos. 
As provas s√£o outro exemplo de como o m√©todo funciona. Lembro da disciplina de Fisiologia (acho que Fisio2) em que o Z√© Gui deu uma prova fant√°stica. A prova consistia em uma hist√≥ria com problemas hipot√©ticos que pod√≠amos levar para casa para responder, dependiam de um entendimento completo da mat√©ria. N√£o se tinha de onde copiar as respostas (j√° que eram perguntas hipot√©ticas), e depois se respondia mais algumas quest√Ķes na sala. Descobri o pdf com toda a saga maldita [pdf] das r√£s hipop√≥tamo, uma hist√≥ria de fic√ß√£o que foi contada ao longo de v√°rios anos da disciplina, exemplar. Mas √© a exce√ß√£o da exce√ß√£o. Muitas das provas que fiz tinham as tradicionais perguntas e corre√ß√£o comparativa, cada quest√£o tem o seu m√°ximo ditado por quem escreveu a resposta mais completa. Sabe o que corre√ß√£o comparativa quer dizer para mim? “A mat√©ria que passei n√£o estava completa, n√£o confio em quem simplesmente entendeu os princ√≠pios do que ensinei. Vou recompensar quem conseguiu decorar a maior quantidade da mat√©ria de ontem para hoje e vomitar na resposta, e com certeza vai esquecer at√© amanh√£.” O que a corre√ß√£o comparativa avalia? O aluno ou o entendimento da mat√©ria?
E assim segue a gradua√ß√£o, muita mat√©ria jogada em aulas que quem pode n√£o assiste, e depois corre para estudar <na madrugada anterior dias antes, com base em um bom livro ou na c√≥pia do caderno de um ou dois que sentam na primeira fileira e fizeram curso de escrita corrida. Ganha quem conseguir absorver o m√°ximo por conta pr√≥pria e escrever mais na prova. Poucos s√£o os professores que se preocupam em dar a mat√©ria de maneira que ela seja mais compreensiva. E isso √© esperado, afinal, o docente que est√° dando a mat√©ria passou pelo mesmo processo quando fez gradua√ß√£o, e isso funcionou para ele. Na pr√≥pria disciplina de Ensaios Pedag√≥gicos, alguns alunos falaram “Ah, esse sistema √© bom, eu me dei bem com ele!”. Claro, s√£o os alunos que j√° foram selecionados previamente para funcionar nesse sistema.
N√£o vou entrar na discuss√£o do que √© o vestibular da Fuvest, e como ele deveria ser. Sei que foram feitas v√°rias mudan√ßas para diminuir a quantidade de conte√ļdo decorado e aumentar a quantidade de racioc√≠nio l√≥gico cobrada nos √ļltimos anos. Mas √© triste saber que muitas escolas pautam o conte√ļdo exclusivamente no vestibular, e focam em ensinar os alunos a decorar aquela mat√©ria. V√°rios col√©gios reproduzem no Ensino M√©dio o que os Cursinhos Pr√©-vestibular fazem, condicionam o aluno a decorar listas de nomes, musiquinhas para guardar os mais complicados e pronto. Marque a alternativa com os nomes certos e acabou. O resultado √© que muitos dos alunos do primeiro ano que passaram na Fuvest para os quais dei monitoria esquecem conceitos b√°sicos que tiveram no col√©gio ou n√£o sabem fazer as liga√ß√Ķes mais b√°sicas entre um conte√ļdo e outro. Em bioqu√≠mica, quando se v√™ o reflexo de propriedades qu√≠micas de mol√©culas como a√ß√ļcares e lip√≠dios em seres vivos, muita gente fica perdida. Os alunos decoraram qu√≠mica org√Ęnica, decoraram biologia celular, e juntar A com B vira um sacrif√≠cio. O pr√≥prio Richard Feynman apontou isso em 1951!
Fiz o curso de Ci√™ncias Biol√≥gicas na USP, e achei um curso muito completo. Tive muito conte√ļdo, e percebo a falta que um bom curso faz na p√≥s-gradua√ß√£o, quando estudantes que fizeram cursos mais fracos tem visivelmente mais dificuldade. Mas tenho s√©rias d√ļvidas sobre se essa impress√£o n√£o se deve mais pela minha facilidade de decorar o conte√ļdo e responder, como fiz no vestibular, do que pelo ensino que recebi na gradua√ß√£o. O conte√ļdo foi bom, mas e o m√©todo? Isso tendo ouvido de v√°rios alunos, do meu curso e de outros, que a Biologia ainda tinha muitas aulas boas. Cursos de humanas e exatas tinham hist√≥rias pavorosas. 
O que me faz pensar em quantos ótimos alunos a USP não está perdendo pelo formato com que escolhe quem entra ou não. Afinal, bom aluno é aquele que decora bem?
p.s.1: Tamb√©m n√£o acho que diminuir vagas para aumentar nota de corte seja garantia de melhores alunos, independentemente de escolher quem consegue decorar mais. No primeiro ano, todos rec√©m aprovados e com o ego inflado por isso, muitos colegas ficavam apontando “olha, fulano ali foi o primeiro colocado” “beltrano passou s√≥ na quarta chamada”. No quarto ano, fulano e beltrano tiravam a mesma nota, quando um dos dois n√£o estava de ressaca.
p.s.2: Se, como apontaram nos coment√°rios no GReader que acompanho, o objetivo da USP n√£o √© ensino, e sim pesquisa, a coisa muda bem de figura. Afinal, se pesquisador bom precisa ser autodidata, √© o que est√£o escolhendo. E, realmente, n√£o me lembro de ouvir uma vez na minha gradua√ß√£o “no mercado de trabalho voc√™s v√£o precisar disso” ou qualquer coisa do tipo. Em compensa√ß√£o “quando voc√™ for docente”, “na sua pesquisa” e “no seu laborat√≥rio” eram di√°rios.

23 responses to “A USP forma bons alunos ou seleciona bons alunos?”

  1. O objetivo da USP é triplo: pesquisa, ensino e extensão. O da USP Leste ainda tem a missão de inclusão social.
    Seria mais f√°cil de verificar o caso da USP se ela se dignasse a participar do Enade. Ainda que precise de muito aprimoramento, o exame permite verificar o quanto a IES melhora o desempenho dos alunos, uma vez que confere o desempenho tanto dos ingressantes quanto dos egressos.
    []s,
    Roberto Takata

  2. Ol√° √© a primeira vez que comento por aqui. Parab√©ns pelo post! Vi minha hist√≥ria na faculdade, UFRJ, em diversos momentos. Concordo com o Takata (coment√°rio anterior) sobre o trip√© em que as universidades p√ļblicas deveriam se apoiar.
    Atualmente sou professor de escola particular e, embora não trabalhe no 3o ano e pré-vestibular, o que percebo é que essa situação em que o se ensina na escola está profundamente ligado ao que o vestibular cobre é resultado do mercado que a educação virou.
    Veja bem, n√£o concordo com essa postura das escolas, n√£o acho ben√©fico que a educa√ß√£o tenha virado um mercado, mas n√£o se pode dar as costas pros fatos. V√°rios “grupos educacionais”, como o Pent√°gono, COC e afins se associaram com entidades norte-americanas e viraram verdadeiras corpora√ß√Ķes da educa√ß√£o (o professor Romualdo Portela, da Faculdade de Educa√ß√£o a√≠ da USP tem v√°rios trabalhos sobre isso).
    Embora também seja flagrante atualmente a sobrecarga imposta aos professores universitários pela CAPES em busca de uma produtividade desenfreada, não acho que isso justifique esses exemplos que você deu aí. O ensino não é, eplo menos na UFRJ, um critério determinante na avaliação do professor. Quando o professor quer progredir no seu plano de carreira, os critérios relativos à produção científica tem mais peso do que os relativos ao ensino. Acho que se deveria pensar mais tanto na formação inicial quanto na formação continuada de professores do ensino superior.
    Um abraço,
    Pedro

  3. Interessante post.
    Nessa √ļltima semana eu abandonei o curso de medicina na Unesp (mais cedo do que eu provavelmente deveria) pois pretendo fazer a gradua√ß√£o em Ci√™ncias Biol√≥gicas e considero a USP como uma op√ß√£o, ao lado da Unicamp, justamente pelo fato de ser uma universidade voltada √† pesquisa.

  4. Nossa, estou adorando a Saga Maldita, mesmo sem entender nada de fisiologia! √Č t√£o cheio de nomes esdr√ļxulos que eu demorei a entender porque sempre h√° um Joseph William. Essa anota√ß√£o no cabe√ßalho √© muito boa: “A prova pode ser feita como bem se entender: em grupo, individualmente, de forma simbionte ou parasit√°ria, dependendo de como cada um encarar o significado dela.”

  5. E, convenhamos… at√© parece que um bom aluno selecionado vai ser um bom aluno graduando. O que poucos alunos entendem √© que a gradua√ß√£o n√£o √© a continua√ß√£o do ensino m√©dio: muitos esperam que os professores mastiguem o conte√ļdo e v√°rios (inclusive entre os que eu conhe√ßo) jamais frequentaram a biblioteca em busca de livros texto ou de qualquer outro dos excelentes materiais e revistas cient√≠ficas contidos nela. S√©rio… formar bons alunos e selecionar bons alunos, para mim, s√£o conceitos independentes. A sele√ß√£o de bons alunos n√£o garante a forma√ß√£o de bons profissionais, assim como bons formados n√£o necessariamente foram bons alunos no ensino m√©dio.
    E esse papo de que a USP é só uma instituição de pesquisa é conversa pra boi dormir. Tive uma ótima formação na USP e, em sua maioria, não foi na sala de aula que essa formação foi obtida. Dó de quem só pensa em disciplinas e provas.

  6. Meu orientador tem uma boa metáfora pra isso (na verdade eu acho que ele chupinhou do Skinner): Aprender a andar com o método do afogamento. Você joga um monte de moleque na piscina. Os que não se afogarem e chegarem ao outro lado, sabiam nadar.
    A USP tem uma ótima piscina (laboratórios, bibliotecas, recursos didáticos) e excelentes empurradores (professores de renome, possibilidades infinitas de networking), mas ainda assim, não está ENSINANDO ninguém a nadar. Está selecionando os que não se afogam.

  7. Caramba!!! a Ana Arantes disse exatamente TUDO!! Kkkk
    Fiquei até curiosa em quem será esse GENIO do seu orientador!!
    =)
    Perfeita definicao.

  8. Já tive uma longa discussão com o meu orientador exatamente sobre isso. Ele dizia que os alunos da biologia (UFRJ) eram bons porque os professores eram bons. Eu dizia que os alunos já eram bons e que a maior parte dos professores fazia pouca ou nenhuma diferença em relação ao amadurecimento dele.
    Quanto a EAD, @Gil
    Eu trabalho com EAD e tenha certeza que o aluno tem mais apoio do que em muita graduação presencial. Claro que varia de instituição para instituição mas cada vez mais veremos a EAD ganhar em qualidade e principalmente em suporte ao aluno.

  9. √Ātila, acabei de ingressar na Medicina UFSCar. N√£o tenho muita no√ß√£o sobre metodologias de ensino, mas estou preocupado com o m√©todo daqui. √Č uma esp√©cie de PBL (problem-based learning) n√£o definido. O que acha?

  10. Tava aqui ainda pensando sobre essa discussão. Se a universidade ainda tem que ensinar um cara a nadar, como bem disse a Ana, o problema é da seleção da universidade ou do cara?

  11. @Baulduino,
    Pelo que ouvi do PBl na disciplina, é uma ótima abordagem se bem feita. Ainda mais para medicina, vai ser seu dia-a-dia da profissão.
    @Paula,
    Concordo com voc√™ que tem muita gente esperando conte√ļdo mastigado, e a realidade n√£o √© essa. Mas, como bem disse o Takata, ensino √© um dos objetivos. Citei o exemplo do Z√© Gui justamente por isso, a prova que ele passa te obriga a estudar da maneira certa e com um objetivo claro, conduz o aluno pra que ele chegue l√°. N√£o √© um material explicadinho com tudo o que vai cair na prova. Caso contr√°rio, pra que professor, biblioteca e laborat√≥rios resolveriam. S√£o essenciais, mas n√£o s√£o tudo.

  12. Se isso fosse na escola eu discordaria completamente, no ensino infantil e fundamental os professores parecem ter uma influencia enorme nos alunos, na gradua√ß√£o eu √Ī sei como esta, mas acho q os professores tem sim influ√™ncia.
    E seu argumento me soa um pouco raciocínio circular, a USP é boa pq atrai bons alunos e atrai bons alunos pq é uma boa universidade.

  13. @rafael,
    Essa √© uma circularidade que pode ocorrer sem ser falaciosa. √Č um tipo de al√ßa de retroalimenta√ß√£o positiva.
    Naturalmente não é uma descrição de como as coisas surgiram, mas pode ser de como as coisas se desenvolvem depois.
    []s,
    Roberto Takata

  14. Gostei muito do texto, e estava me questionando exatamente sobre isso ontem.
    Sou ex-aluno da bio-usp, fiz um ano e não prossegui. E agora entrei em ciências sociais, também na usp, e com pouco tempo de aula percebo uma diferença gigantesca nos métodos de ensino e em como o ensino é levado.
    Gostei de muitos professores na biologia, mas era nítido que muitos estavam ali completamente forçados para poderem fazer pesquisa. Esperava encontrar o mesmo nas sociais, e me deparei com uma situação diferente os professores vendo o ensino, como uma complemento para a formação deles.
    Por isso acho sim determinante a atuação do professor, esquecemos muitas vezes que os alunos estão em processo, e falar que eles tem que sobreviver. Devem aprender a nadar sozinhos é colocar todos no mesmo patamar, e não perceber diferenças que permitiriam diversidade ao menos.
    S√≥ um p.s.: √Č incr√≠vel ver como na biologia as ci√™ncias humanas eram muitas vezes renegadas, e como na sociais as ci√™ncias naturais tamb√©m s√£o. Perde-se nos dois lados.

  15. Tive boas e p√©ssimas aulas na USP. Gosto muito da tirinha dos Malvados que mostra a “Escola da Vida”, onde a m√°xima √© “Aprenda a Nadar Bebendo √Āgua”. FUVEST escolhe a nata? Certeza! O grosso dos institutos n√£o tem nenhum interesse em ensino? Certeza! Mas n√£o posso deixar de dizer que vi alguma coisa positiva no resultado final da brincadeira.
    Muita gente quando é forçada corresponde à pressão. Acho importante que o pessoal aprenda a aprender, lifelong learning, pra sempre poder aprender sem precisar ter uma matéria sobre como instalar varais na lavanderia. E de forma alguma acho que a faculdade deva ser moleza, por que ciência não é moleza. Pode ser menos rancorosa e austera, mas as disciplinas são o que são.
    Em tempo, n√£o concordo com a forma como as coisas se passam, tanto por ter sido monitor da bioqu√≠mica do √Ātila (e saber das boas inten√ß√Ķes ali), como por trabalhar com o autor do livrinho onde muita gente se refugia para as provas de BQ. Entretanto, vejo que o resultado de for√ßar o pessoal a se virar √© positivo (meio maquiavelicamente). O erro est√° na forma desordenada como isso se d√°, e que muitas vezes √© cruel. Mas a autonomia nos estudos deveria sim ser um dos objetivos. Como li em algum coment√°rio aqui, n√£o pode ser uma continua√ß√£o do col√©gio.

  16. Oi, √Ātila
    Sou estudante de Farm√°cia em uma renomada (“grande” coisa…)faculdade particular aqui em S√£o Paulo. E sabe de uma coisa, eu vejo muito disso por l√° tamb√©m. O vestibular n√£o foi uma fuvest, fato. Mas impera por l√° um certo clima de “fazemos assim, pq na USP…” Assim, muitos do estimados professores adotam o formato usp (e muitos tb se formaram l√°) e os alunos resmungam um pouco, mas n√£o chegam a ser contr√°rios… afinal √© “que nem na usp”.
    Isso me leva ao ponto que queria. Vi gente boa ficar pelo caminho. Vi gente dedicada entrar em p√Ęnico por n√£o alcan√ßar as notas e acabar trocando por um curso que julgasse mais f√°cil, por se achar incapaz pra Farm√°cia. Do outro lado, vejo muita gente mais-ou-menos indo adiante, pq se d√° bem com memoriza√ß√Ķes de √ļltima hora.
    Mas… e se fosse uma pessoa de √ļltima hora? Paciente, emerg√™ncia? A gente escuta muita coisa sobre erro de m√©dico, enfermeiro, n√£o √© muito comum ouvir de farmac√™utico, mas n√£o √© imposs√≠vel, hein?

  17. Gostaria de tecer apenas um comentário em relação ao comentário sobre a formação de físicos e matemáticos.
    Cursos de F√≠sica e Matem√°tica forma apenas pouqu√≠ssimos alunos porque h√° dois grandes problemas. O primeiro √© o fato de que o aluno tem total direito de sair de um curso caso ele n√£o goste. A faculdade n√£o √© uma extens√£o do ensino m√©dio e muitos alunos acabam vendo que o curso n√£o era o que eles pensavam. Isso √© normal, at√© porque nosso ensino b√°sico (considerado aqui por mim como o m√©dio e o fundamental) n√£o √© de qualidade. Esta falta de qualidade n√£o √© somente culpa do que √© oferecido, mas tamb√©m da maneira como a sociedade ensina e educa seus jovens sobre a importancia do estudo. O n√≠vel de abstra√ß√£o e de conhecimentos necess√°rios para que o aluno consiga progredir nos estudos nestes cursos √© grande. Se o aluno n√£o estiver preparado(n√£o somente no grau de conhecimento, mas tamb√©m na educa√ß√£o para o “estudar”) ele n√£o dar√° conta. Nossos alunos (em sua maioria) em qualquer grau de ensino n√£o estudam o suficiente e necess√°rio. N√£o temos a cultura de cultivar e incentivar o estudo. J√° passei e me formei em duas universidades no curso de F√≠sica (bacharel e licenciatura) e posso afirmar que a mais de 60% dos professores deram total apoio ao aprendizado do aluno. No entanto, vi por v√°rias vezes alunos matando aula para jogar baralho ou conversar no bar e depois culpar o instituto. Alunos estes de universidades p√ļblicas de grande reconhecimento. Entendo que h√° coisas erradas, mas sinto tamb√©m que h√° falta de dedica√ß√£o e suor por parte de um grande n√ļmero de alunos.

  18. @rafael musa
    isso √© importante de ressaltar: tem muito aluno vagal, que prefere vadiar mesmo (vadiar tem seu lado terap√™utico, mas viver disso…) e depois quer achar algu√©m pra colocar culpa.
    Mas n√£o acho que seja o caso geral. O caso geral, ao meu ver, √© ‘A Grande Peneira’. A USP acaba virando uma grande peneira de autodidatas, e n√£o consigo sentir diferente. Tenho dificuldades pessoais de estudo e n√£o consigo me sair muito bem em provas de decoreba. Uma vez, enquanto eu tentava cursar f√≠sica, um professor deu uma prova pra fazer em casa. Foi lindo! Uma semana e eu n√£o consegui fazer tudo!!!! Mas o que consegui, fiz bem feito e sabia exatamente o que tinha feito – eita, isso faz teeeempo!
    Pra finalizar, minha opini√£o: querem ‘fazer ci√™ncia’ com os autodidatas? √ďtimo, abram um instituto com grana particular, selecionem e ‘ensinem’ os autodidatas. Pronto, problema resolvido.
    Agora vem me dizer que isso √© justo e digno com o dinheiro p√ļblico? N√£o dar valor para a pluralidade da universidade √© rid√≠culo, nem todo mundo quer ser pesquisador.

  19. E isso por que aqui no Brasil os alunos dos cursos superior custam 13 vezes mais do que os alunos do ensino fundamental (a média para países em desenvolvimento é 5 vezes mais).
    A √ļnica ressalva que se pode fazer √†s universidades √© que este fen√īmeno (onde a universidade se torna apenas uma f√°brica de diploma para os poucos auto-didatas) √© que este processo √© a coroa√ß√£o do fracasso do nosso sistema de ensino onde mais de 70% da popula√ß√£o economicamente ativa s√£o analfabetos funcionais.
    http://www.apagina.pt/?aba=7&cat=149&doc=11073&mid=2

  20. Estou atrasada pra comentar, mas √© porque somente agora esbarrei nesse texto, ali√°s, √≥timo. Realmente, suspeito que tenhamos um padr√£o no ensino superior p√ļblico, pois me formei em universidade p√ļblica tamb√©m, no sul de MG, e percebi muito isso: fora um ou outro professor de excelente did√°tica, que fala se dua √°rea e de suas disciplinas como as melhores coisas do mundo e at√© te contagiam, a grande maioria √© adepto sistema ‘te vira’ de ensino; apontam a mat√©ria, o livro texto, os hor√°rios das monitorias e as datas das provas, s√≥. Est√£o muito preocupados em capitalizarem a si mesmos com suas pesquisas e renderem o m√°ximo de pontos que podem dentro de Capes, CNPq ou seja qual for o √≥rg√£o que subsidie suas pesquisas pois isso reflete tamb√©m em seus sal√°rios. √ďbvio que falamos das melhores universidades do Brasil, mas realmente, elas n√£o est√£o tendo muito trabalho com rela√ß√£o aos alunos, j√° que selecionam aqueles que melhor se adaptam √† esse sistema. O que √© uma pena, muita gente boa, competente, inteligente fica pelo caminho pois n√£o consegue se adaptar, ao passo que, como j√° foi dito acima em um dos coment√°rios, pessoas nem t√£o aptas mas que possuem boa memoriza√ß√£o de curto prazo, se destacam no curso. N√£o sei se h√° esperan√ßa quando a isso, pois meus bons professores que fizeram mestrado e doutorado fora disseram que no exterior √© ainda pior… que conseguir falar com seu orientador √© um parto, mesmo o contato virtual √© dif√≠cil, ou seja, mais do ‘te vira’ ao que estamos acostumados, s√≥ que com uma press√£o maior, imagino eu. Eu acho que a reformula√ß√£o necess√°ria seria ter o trabalho de fazer o aluno pensar, aprender a correlacionar os conte√ļdos, pra n√£o s√≥ ele poder ser um bom pesquisador ou profissional, mas sim um ser humano mais capaz em todos os sentidos.
    Outra coisa que concordo com o texto, √© o quanto a forma√ß√£o √© super orientada para o p√ļblico que pretende continuar a saga acad√™mica e n√£o nos prepara devidamente para o mercado de trabalho. No mercado, aprendemos muitas coisas ‘na unha’ para as quais poder√≠amos sim ter sido melhor preparados se nossos ilustres professores se dessem ao trabalho deles, que em tese, seria ensinar.

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