{"id":154,"date":"2008-01-17T10:58:00","date_gmt":"2008-01-17T13:58:00","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/rainha\/2008\/01\/rainha-de-copas-e-evolucao\/"},"modified":"2008-01-17T10:58:00","modified_gmt":"2008-01-17T13:58:00","slug":"rainha-de-copas-e-evolucao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/rainha\/2008\/01\/rainha-de-copas-e-evolucao\/","title":{"rendered":"Rainha Vermelha e evolu\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Pretendo dentro de breve fazer um post sobre aquele artigo da Nature que mostra a coevolu\u00e7\u00e3o de uma esp\u00e9cie de borboleta e a formiga que ela parasita (pois \u00e9, minha maior paix\u00e3o em biologia \u00e9 essa rela\u00e7\u00e3o parasita-hospedeiro, que pode revelar uma s\u00e9rie de caracter\u00edsticas evolutivas). Mas, para tirar melhor proveito do conte\u00fado e tratar de um assunto que vai ser a base de muitos outros temas, resolvi fazer uma introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 teoria da Rainha Vermelha &#8211; uma tradu\u00e7\u00e3o que transmite melhor a id\u00e9ia, do ingl\u00eas Red Queen Theory.<br \/>\n<a href=\"http:\/\/bp2.blogger.com\/_zUKXL25b9mY\/R4qM-XwlK_I\/AAAAAAAAAdc\/OsaZqa1HvrE\/s1600-h\/rainhadecopas3.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/bp2.blogger.com\/_zUKXL25b9mY\/R4qM-XwlK_I\/AAAAAAAAAdc\/OsaZqa1HvrE\/s320\/rainhadecopas3.jpg\" style=\"margin: 0pt 0pt 10px 10px;float: right;cursor: pointer\" border=\"0\" \/><\/a>Rainha Vermelha pois \u00e9 dela a frase no livro &#8220;Alice atrav\u00e9s do espelho&#8221; de Lewis Carroll que diz &#8220;aqui neste pa\u00eds Alice, voc\u00ea precisa correr o m\u00e1ximo que puder para permanecer no lugar&#8230;&#8221; &#8211; tradu\u00e7\u00e3o livre. Em 1973 Leigh Van Valen (o mesmo cara que considerou as <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/rainha\/\/2007\/12\/henrietta-lacks-imortal.php\">c\u00e9lulas Hela<\/a> como outra esp\u00e9cie) prop\u00f4s esta met\u00e1fora para explicar situa\u00e7\u00f5es na natureza onde duas esp\u00e9cies em competi\u00e7\u00e3o evoluem de maneira que a competi\u00e7\u00e3o se mant\u00e9m est\u00e1vel -ou seja, coevoluem.<br \/>\nVamos retratar esta situa\u00e7\u00e3o da seguinte maneira:<br \/>\n<!--more Continue Lendo--><br \/>\nImagine uma popula\u00e7\u00e3o de organismos (de prefer\u00eancia com reprodu\u00e7\u00e3o sexuada -o porqu\u00ea veremos mais para frente) parasitada por um ser vivo de gera\u00e7\u00e3o curta, o que n\u00e3o \u00e9 muito dif\u00edcil, lembrando que uma das bact\u00e9ria que se encontra no nosso intestino, a<span style=\"font-style: italic\"> E. coli<\/span> quando em condi\u00e7\u00f5es ideais se divide a cada vinte minutos e a <span style=\"font-style: italic\">Clostridium perfringens<\/span> que causa intoxica\u00e7\u00f5es alimentares e em alguns casos gangrena, a cada nove minutos. Imagine agora, que este parasita utiliza um receptor celular espec\u00edfico para se aderir ao hospedeiro (n\u00e3o \u00e9 que o hospedeiro tem receptores feitos para ades\u00e3o de pat\u00f3genos, mas sim o inverso, invasores utilizam receptores que j\u00e1 est\u00e3o presentes realizando outras fun\u00e7\u00f5es, como comunica\u00e7\u00e3o celular). Considere no desenho abaixo que o receptor celular \u00e9 a fechadura, e a prote\u00edna do invasor \u00e9 a chave.<br \/>\n<a href=\"http:\/\/bp1.blogger.com\/_zUKXL25b9mY\/R4qa-HwlLAI\/AAAAAAAAAdk\/LsedzEB_3Rc\/s1600-h\/esquema.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-1\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/bp1.blogger.com\/_zUKXL25b9mY\/R4qa-HwlLAI\/AAAAAAAAAdk\/LsedzEB_3Rc\/s400\/esquema.jpg\" style=\"margin: 0px auto 10px;text-align: center;cursor: pointer\" border=\"0\" \/><\/a><br \/>\nNa primeira gera\u00e7\u00e3o, o tipo mais comum de receptor \u00e9 o vermelho. Em pouco tempo, o parasita que passa a utilizar este receptor \u00e9 o mais bem sucedido (pois tem mais hospedeiros para infectar) e os hospedeiros vermelhos deixam menos descendentes. O hospedeiro com o receptor azul tem mais descendentes e na gera\u00e7\u00e3o seguinte, passa a ser o mais comum. Novamente, dentre os parasitas, aquele que utilizar o receptor azul vai ser mais bem sucedido, de maneira que o hospedeiro azul tem menos descendentes. Esse ciclo se mant\u00e9m, perpetuando uma situa\u00e7\u00e3o onde hospedeiro e parasita est\u00e3o mudando para permanecerem na mesma condi\u00e7\u00e3o. A reprodu\u00e7\u00e3o sexuada \u00e9 importante nesse caso  pois permite uma propaga\u00e7\u00e3o mais r\u00e1pida das caracter\u00edsticas que foram ben\u00e9ficas na gera\u00e7\u00e3o anterior.<br \/>\nA esssa altura voc\u00ea deve estar se perguntando (para os que tiveram a coragem de ler at\u00e9 aqui) bom, legal, teoria interessante, mas qual o suporte que ela tem? Bom, veja bem, \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil de acompanhar, exige a observa\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es do organismo em estudo, envolve mudan\u00e7as que muitas vezes n\u00e3o s\u00e3o detectadas mas&#8230;<br \/>\nSim, temos um exemplo!<br \/>\n<a href=\"http:\/\/bp0.blogger.com\/_zUKXL25b9mY\/R4rFd3wlLCI\/AAAAAAAAAd0\/8c3CLMr_JaU\/s1600-h\/Daphnia_magna.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-2\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/bp0.blogger.com\/_zUKXL25b9mY\/R4rFd3wlLCI\/AAAAAAAAAd0\/8c3CLMr_JaU\/s320\/Daphnia_magna.jpg\" style=\"margin: 0pt 10px 10px 0pt;float: left;cursor: pointer\" border=\"0\" \/><\/a>Trata-se do crust\u00e1ceo de \u00e1gua doce <span style=\"font-style: italic\">Daphnia magna<\/span> ou pulga-de-\u00e1gua, como \u00e9 conhecido pelo movimento feito quando contrai as antenas, movendo-se na \u00e1gua como se fosse um pulo. <a href=\"http:\/\/bio.kuleuven.be\/eco\/people_detail.php?pass_id=u0003403\">Ellen Decaester<\/a> e colaboradores em um artigo da Nature, coletaram amostras de sedimento no fundo de um lago onde se encontravam v\u00e1rias camadas de deposi\u00e7\u00e3o, cada camada correspondendo a um intervalo de tempo, totalizando 24cm de sedimento e 39 anos de registro. Nas camadas de sedimento se encontravam ovos de <span style=\"font-style: italic\">Daphnia<\/span> e esporos de um parasita que a ataca, a bact\u00e9ria <span style=\"font-style: italic\">Pasteuria ramosa<\/span>.<br \/>\nA id\u00e9ia, muito elegante por sinal, foi expor a pulga-de-\u00e1gua de cada ano a bact\u00e9rias de todos os anos, passados, presente e futuros, para determinar o sucesso de infec\u00e7\u00e3o da bact\u00e9ria. Eis o resultado: bact\u00e9rias do passado (da camada anterior de sedimento), n\u00e3o infectam t\u00e3o bem quanto bact\u00e9rias do presente(da mesma camada de sedimento), pois a gera\u00e7\u00e3o de <span style=\"font-style: italic\">Daphnia<\/span> presente j\u00e1 foi selecionada para resistir \u00e0 infec\u00e7\u00e3o, e as bact\u00e9rias do futuro (da camada seguinte de sedimento) tamb\u00e9m n\u00e3o infectam t\u00e3o bem, pois j\u00e1 foram selecionadas para infectar as futuras pulgas-de-\u00e1gua.<br \/>\n<a href=\"http:\/\/bp1.blogger.com\/_zUKXL25b9mY\/R4q81HwlLBI\/AAAAAAAAAds\/JFSvm6KS2D4\/s1600-h\/grafico.gif\" data-rel=\"lightbox-image-3\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/bp1.blogger.com\/_zUKXL25b9mY\/R4q81HwlLBI\/AAAAAAAAAds\/JFSvm6KS2D4\/s400\/grafico.gif\" style=\"margin: 0px auto 10px;text-align: center;cursor: pointer\" border=\"0\" \/><\/a><br \/>\nNo total, a taxa de infec\u00e7\u00e3o das bact\u00e9rias do presente se manteve constante, em torno de 60%, ou seja, ambos parasita e hospedeiro, mudaram a cada camada de sedimento para  permanecer no mesmo lugar&#8230;<br \/>\nGostou? Ent\u00e3o aguarde o post sobre as borboletas que ainda tem muita coisa interessante.<br \/>\nFontes:<br \/>\nLeigh Van Valen. (1973). &#8220;A new evolutionary law&#8221;. Evolutionary Theory 1: 1&#8211;30.<br \/>\nDecaestecker, Ellen; Gaba, Sabrina; Raeymaekers, Joost; Stoks, Robby; Van Kerckhoven, Liesbeth; Ebert, Dieter &amp; De Meester, Luc (2007): Host-parasite Red Queen dynamics archived in pond sediment. Nature 10.1038: .<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pretendo dentro de breve fazer um post sobre aquele artigo da Nature que mostra a coevolu\u00e7\u00e3o de uma esp\u00e9cie de borboleta e a formiga que ela parasita (pois \u00e9, minha maior paix\u00e3o em biologia \u00e9 essa rela\u00e7\u00e3o parasita-hospedeiro, que pode revelar uma s\u00e9rie de caracter\u00edsticas evolutivas). 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