{"id":2239,"date":"2013-01-03T18:18:28","date_gmt":"2013-01-03T21:18:28","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/rainha\/?p=2239"},"modified":"2013-01-03T18:18:28","modified_gmt":"2013-01-03T21:18:28","slug":"aranha-ner","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/rainha\/2013\/01\/aranha-ner\/","title":{"rendered":"A aranha mais nerd"},"content":{"rendered":"<p><figure id=\"attachment_2240\" aria-describedby=\"caption-attachment-2240\" style=\"width: 600px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/vipinbaliga\/7794110736\/sizes\/l\/in\/photostream\/\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-2240 \" alt=\"Aranha Portia fimbriata\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/rainha\/wp-content\/uploads\/sites\/254\/2013\/01\/Portia_fimbriata.jpg\" width=\"600\" height=\"388\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/rainha\/wp-content\/uploads\/sites\/254\/2013\/01\/Portia_fimbriata.jpg 600w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/rainha\/wp-content\/uploads\/sites\/254\/2013\/01\/Portia_fimbriata-300x194.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2240\" class=\"wp-caption-text\">\u00a9vipin baliga<\/figcaption><\/figure><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.researchblogging.org\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft\" style=\"border: 0px\" alt=\"ResearchBlogging.org\" src=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/public\/citation_icons\/rb2_large_gray.png\" width=\"70\" height=\"85\" \/><\/a>Salticidae \u00e9 uma fam\u00edlia de aranhas muito inteligentes (para algu\u00e9m com o c\u00e9rebro daquele tamanho). S\u00e3o ca\u00e7adoras ativas, quase nunca tecem teia, preferem ca\u00e7ar ativamente as presas. Por conta disso, dependem muito da vis\u00e3o, da\u00ed os olhos enormes, e acabam <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/rainha\/2012\/09\/mais-aranhas-pavao\/\">adotando comportamentos bem ricos<\/a>. Agora, se elas j\u00e1 s\u00e3o predadores bastante inteligentes, como seria uma aranha que ca\u00e7a esses predadores (uma aranha araneof\u00e1gica)? Conhe\u00e7a as aranhas\u00a0<em>Portia<\/em>, e por que elas s\u00e3o <a href=\"http:\/\/www.informatics.sussex.ac.uk\/research\/groups\/ccnr\/Papers\/Downloads\/Harland_Cimb2000.pdf\">chamadas de gatos de oito olhos<\/a> [<em>link para pdf<\/em>].<br \/>\n<em>Portia<\/em> \u00e9 um g\u00eanero de aranhas saltadoras (tamb\u00e9m s\u00e3o Salticidae) com cerca de 20 esp\u00e9cies conhecidas, que s\u00e3o especialistas em ca\u00e7ar outras aranhas, especialmente membras da mesma fam\u00edlia. Ocorrem na \u00c1frica, \u00c1sia e Oceania, para meu desapontamento. Para poderem ca\u00e7ar, adotam uma s\u00e9rie de t\u00e1ticas bastante complexas, sendo capazes de classificar o tipo de presa e responder de acordo, o que as coloca entre os invertebrados mais inteligentes.<br \/>\nPara atacar outras Salticidae, as estrat\u00e9gias das <em>Portia<\/em> s\u00e3o \u00fanicas. Algumas\u00a0<em>Portia<\/em>\u00a0podem fazer teias, e manter os insetos pegos para atrair outras saltadoras. Outras partem ativamente para a ca\u00e7a, quando sua camuflagem vem a calhar: se a\u00a0<em>Salticidae<\/em>\u00a0que est\u00e1 ca\u00e7ando a v\u00ea, a <em>Portia<\/em> congela seus movimentos, e\u00a0<a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/nickadel\/8166914668\/\">encolhe seus palpos e patas<\/a>,\u00a0<a href=\"http:\/\/sgmacro.blogspot.com.br\/2011\/04\/portia-intelligent-hunter.html\">se camuflando de detrito<\/a>\u00a0para uma v\u00edtima que depende da vis\u00e3o, podendo at\u00e9 simular movimentos causados pelo vento. O que n\u00e3o se comparar com as t\u00e1ticas que adotam em situa\u00e7\u00f5es mais delicadas. [1]<br \/>\n<strong>Atacando em territ\u00f3rio inimigo<\/strong><br \/>\nUm dia de ca\u00e7a t\u00edpico da <em>Portia fimbriata<\/em>, simp\u00e1tica esp\u00e9cie\u00a0<a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/vipinbaliga\/7794110736\/[\">acima<\/a>, serve de exemplo do que elas s\u00e3o capazes de fazer. Uma das presas que esta esp\u00e9cie ataca \u00e9 a aranha de teia <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Argiope_appensa\"><em>Argiope appensa<\/em><\/a>, que pode ser muito maior do que ela. Mesmo sem nunca ter visto uma aranha <em>Argiope<\/em>\u00a0a <em>P. fimbriata<\/em> sabe o que fazer quando encontra sua teia. Ela pisa com cuidado em um dos fios, e come\u00e7a a fazer uma s\u00e9rie de vibra\u00e7\u00f5es diferentes \u2013 a maioria das aranhas de teia s\u00e3o quase cegas, e o sentido que mais usam \u00e9 o tato \u2013 em intervalos at\u00e9 encontrar a vibra\u00e7\u00e3o que atrai a dona da teia\u00a0para seu ataque (algumas esp\u00e9cies podem fazer isso por dias).\u00a0Se ela reage, a <em>Portia<\/em> continua com aquele est\u00edmulo. Caso contr\u00e1rio, volta a variar seus sinais, at\u00e9 receber resposta novamente.\u00a0A\u00a0<em>P. fimbriata<\/em>\u00a0australiana pode inclusive imitar movimentos da f\u00eamea da esp\u00e9cie na teia, para atrair o macho.<br \/>\nPor vezes, ela pode resolver subir pela teia para atacar sua dona. Mas s\u00f3 quando houver vento ou outra condi\u00e7\u00e3o que vibre a teia e mascare seu <del>movimento ninja<\/del> caminhar pelos fios, para que ela n\u00e3o se torne a presa. Nem sempre a <em>Argiope<\/em> \u00e9 pega desprevenida, ela pode chacoalhar a teia com for\u00e7a se perceber a <em>Portia<\/em>, ou mesmo atac\u00e1-la. Nestes casos a\u00a0<em>P. fimbriata<\/em> pode partir para um ataque muito mais hollywoodiano. Ela caminha ao redor da teia, muitas vezes perdendo contato visual com a presa e fazendo contornos que podem levar mais de uma hora, para se posicionar exatamente acima da v\u00edtima e descer por um fio para o grande ataque. Sim, a Portia pode julgar que este ataque \u00e9 mais eficaz, planejar toda uma rota, e seguir em um comportamento longo e complexo para completar seu objetivo. [2]<br \/>\nO v\u00eddeo abaixo mostra o comportamento de imita\u00e7\u00e3o em presas e o ataque planejado, com direito a close nos olhos de vil\u00e3o do mal (uma vers\u00e3o mais curta que n\u00e3o consegui <em>embedar<\/em> <a href=\"http:\/\/videos.howstuffworks.com\/animal-planet\/28357-fooled-by-nature-australian-jumping-spider-video.htm\">est\u00e1 aqui<\/a>):<br \/>\n[youtube_sc url=&#8221;https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=usCNem9ixbU&#8221; title=&#8221;Ataque%20da%20aranha%20Portia&#8221; width=&#8221;600&#8243;]<br \/>\nE este n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico exemplo de tomada de decis\u00e3o complexa. A esp\u00e9cie\u00a0<em>Portia labiata<\/em>\u00a0das Filipinas demonstra muito bem esta capacidade. Na regi\u00e3o de Los Ba\u00f1os, ela encontra e ca\u00e7a aranhas cuspideiras da esp\u00e9cie\u00a0<em>Scytodes pallidus<\/em>. As <em>Scytodes<\/em> tamb\u00e9m s\u00e3o araneof\u00e1gicas, e secretam um misto de teia e veneno pelas quel\u00edceras que \u00e9 lan\u00e7ado sobre as presas (da\u00ed o nome cuspideira), grudando-as. Assim, para ca\u00e7ar esta cuspideira especializada em aranhas saltadoras, a <em>P. labiata<\/em> precisa de uma t\u00e1tica especial. As <em>P. labiata<\/em> desta regi\u00e3o se aproximam de teias de <em>Scytodes<\/em> e provocam vibra\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o fazem o ataque direto. Elas normalmente fazem a volta e tomam o caminho mais longo para atacar a cuspideira por tr\u00e1s, e evitar a extremidade que lan\u00e7a a cola. <em>Portia<\/em> da mesma esp\u00e9cie mas de outra regi\u00e3o, n\u00e3o fazem isso e s\u00e3o mais facilmente mortas pela <em>Scytodes<\/em>. E seu repert\u00f3rio pode ser ainda mais diverso: se a <em>Scytodes<\/em> dona da teia for uma f\u00eamea carregando uma bolsa de ovos com a boca, o que diminui muito as chances de ela cuspir teia, a <em>P. labiata<\/em> de Los Ba\u00f1os adota o comportamento mais curto de atacar diretamente. [3]<br \/>\nTomada de decis\u00e3o, classifica\u00e7\u00e3o de presas, acuidade visual e leitura para diferenciar um inseto preso na teia da aranha, e para diferenciar uma f\u00eamea carregando ovos ou n\u00e3o&#8230; acabo de eleger as <em>Portia<\/em> como saltadoras mais nerds, escolher meu g\u00eanero predileto de Salticidae.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nFontes:<br \/>\n[1]\u00a0<span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=New+Zealand+Journal+of+Zoology&amp;rft_id=info%3Adoi%2F10.1080%2F03014223.2000.9518218&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Web+use+during+predatory+encounters+between+&lt;em&gt;Portia+fimbriata&lt;\/em&gt;%2C+an+araneophagic+jumping+spider%2C+and+its+preferred+prey%2C+other+jumping+spiders++++++++++++&amp;rft.issn=0301-4223&amp;rft.date=2000&amp;rft.volume=27&amp;rft.issue=2&amp;rft.spage=129&amp;rft.epage=136&amp;rft.artnum=http%3A%2F%2Fwww.tandfonline.com%2Fdoi%2Fabs%2F10.1080%2F03014223.2000.9518218&amp;rft.au=Clark%2C+R.&amp;rft.au=Jackson%2C+R.&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Biology%2CBehavioral+Biology%2C+Zoology\">Clark, R., &amp; Jackson, R. (2000). Web use during predatory encounters between Portia fimbriata, an araneophagic jumping spider, and its preferred prey, other jumping spiders <span style=\"font-style: italic\">New Zealand Journal of Zoology, 27<\/span> (2), 129-136 DOI: <a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1080\/03014223.2000.9518218\" rev=\"review\">10.1080\/03014223.2000.9518218<\/a><\/span><br \/>\n[2]\u00a0Wilcox RS, Jackson RR (2002). Jumping spider tricksters: deceit, predation, and cognition. In: Bekoff M, Allen C, Burghardt G (eds) The cognitive animal. MIT Press, Cambridge, Mass., pp 27\u201333 [<a href=\"http:\/\/colinallen.dnsalias.org\/Secure\/TCA\/wilcox-final.pdf\">pdf<\/a>]<br \/>\n[3] <span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Animal+cognition&amp;rft_id=info%3Apmid%2F12461599&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Interpopulation+variation+in+the+risk-related+decisions+of+&lt;em&gt;Portia+labiata&lt;\/em&gt;%2C+an+araneophagic+jumping+spider+%28Araneae%2C+Salticidae%29%2C+during+predatory+sequences+with+spitting+spiders.&amp;rft.issn=1435-9448&amp;rft.date=2002&amp;rft.volume=5&amp;rft.issue=4&amp;rft.spage=215&amp;rft.epage=23&amp;rft.artnum=&amp;rft.au=Jackson+RR&amp;rft.au=Pollard+SD&amp;rft.au=Li+D&amp;rft.au=Fijn+N&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Biology%2CBehavioral+Biology%2C+Evolutionary+Biology%2C+Zoology\">Jackson RR, Pollard SD, Li D, &amp; Fijn N (2002). Interpopulation variation in the risk-related decisions of Portia labiata, an araneophagic jumping spider (Araneae, Salticidae), during predatory sequences with spitting spiders. <span style=\"font-style: italic\">Animal cognition, 5<\/span> (4), 215-23 PMID: <a href=\"http:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pubmed\/12461599\" rev=\"review\">12461599<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Salticidae \u00e9 uma fam\u00edlia de aranhas muito inteligentes (para algu\u00e9m com o c\u00e9rebro daquele tamanho). S\u00e3o ca\u00e7adoras ativas, quase nunca tecem teia, preferem ca\u00e7ar ativamente as presas. Por conta disso, dependem muito da vis\u00e3o, da\u00ed os olhos enormes, e acabam adotando comportamentos bem ricos. Agora, se elas j\u00e1 s\u00e3o predadores bastante inteligentes, como seria uma [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":462,"featured_media":2245,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[2,3,9,50],"tags":[59,69,82,152,164,165],"class_list":["post-2239","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-animais","category-aranhas","category-comportamento","category-videos","tag-aranhas","tag-caca","tag-comportamento","tag-portia","tag-saltadoras","tag-salticidae"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/rainha\/wp-content\/uploads\/sites\/254\/2013\/01\/0.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/rainha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2239","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/rainha\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/rainha\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/rainha\/wp-json\/wp\/v2\/users\/462"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/rainha\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2239"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/rainha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2239\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/rainha\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2245"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/rainha\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2239"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/rainha\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2239"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/rainha\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2239"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}