{"id":523,"date":"2008-10-15T01:53:14","date_gmt":"2008-10-15T04:53:14","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/rainha\/2008\/10\/experimento-mofado\/"},"modified":"2008-10-15T01:53:14","modified_gmt":"2008-10-15T04:53:14","slug":"experimento-mofado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/rainha\/2008\/10\/experimento-mofado\/","title":{"rendered":"Experimento mofado"},"content":{"rendered":"<h2><span><strong>Este post faz parte do Carnaval de Cient\u00edfico: Descobertas Cient\u00edficas. <a href=\"http:\/\/lablogatorios.com.br\/raiox\/2008\/10\/14\/blogagem-coletiva-descobertas-cientificas\/\">Clique aqui <\/a>e veja quem mais contribuiu.<\/strong><\/span><\/h2>\n<p>Muita coisa em ci\u00eancia acontece por acaso. Quando h\u00e1 um misto de sorte e talento, muitas descobertas importantes s\u00e3o feitas. Mas n\u00e3o se engane, muito do que se descobre e se prop\u00f5e em ci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 \u00fanico, e poderia ter sido ou foi feito por mais de uma pessoa. Darwin divide com Alfred Russel Wallace a Teoria da Sele\u00e7\u00e3o Natural, <a title=\"Hugo de Vries\" href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Hugo_de_Vries\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Hugo de Vries<\/a> e <a title=\"Carl Correns\" href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Carl_Correns\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Carl Correns<\/a> chegaram \u00e0s mesmas conclus\u00f5es que Mendel, s\u00f3 para descobrir em 1900 que um monge j\u00e1 tinha feito isso 35 anos antes. Gosto da descoberta da penicilina por isso, al\u00e9m de ser um dos medicamentos que mais salvou vidas, sua descoberta envolveu altos e baixos, al\u00e9m de muita &#8220;sorte&#8221;.<\/p>\n<p>John Tyndall, um famoso m\u00e9dico ingl\u00eas, estudava em 1875 a distribui\u00e7\u00e3o de bact\u00e9rias na atmosfera expondo tubos de ensaio com caldo de carne. Em alguns tubos cresceu um simp\u00e1tico fungo, o <em>Penicillium<\/em>, e Tyndall notou que onde o fungo crescia, as bact\u00e9rias morriam. Ele deu sorte, os fungos cresceram por acaso em seu experimento, mas naquela \u00e9poca ainda n\u00e3o se sabia que bact\u00e9rias poderiam causar doen\u00e7as, de maneira que o fato foi tomado como uma curiosidade e deixado de lado.<\/p>\n<p>Mais dois relat\u00f3rios, um de 1896 e outro de 1925 descreveriam a rela\u00e7\u00e3o entre <em>Penicillium<\/em> e a morte de bact\u00e9rias, mas ainda n\u00e3o seria o caso da descoberta da penicilina&#8230;<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1206\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/rainha\/wp-content\/uploads\/sites\/254\/2011\/08\/alexander_fleming1.jpg\" alt=\"Alexander Fleming, sujeito sortudo.\" height=\"179\" width=\"225\" \/><br \/>Alexander Fleming, sujeito sortudo.<\/p>\n<p>Escoc\u00eas nascido em 1881, Alexander Fleming n\u00e3o era nenhum grande g\u00eanio. Bom estudante, formou-se em medicina e trabalhou a sua vida inteira no mesmo hospital. Por ser bom em tiro e para n\u00e3o causar um desfalque no time da universidade, entrou no cargo de assistente bacteriologista de Almroth Wright no <a class=\"mw-redirect\" title=\"St Mary's Hospital (London)\" href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/St_Mary%27s_Hospital_%28London%29\">St Mary&#8217;s Hospital<\/a>, permanecendo no time.<\/p>\n<p>Trabalhando com estafilococos em 1928, ao preperar placas para o crescimento desta bact\u00e9ria, contaminou sua amostra com esporos de um fungo. Deixou suas amostras na bancada e partiu para duas semanas de f\u00e9rias. Quando voltou para o laborat\u00f3rio, notou que algumas placas haviam fungado, e ao redor do fungo n\u00e3o cresciam estafilococos. Ao inv\u00e9s de jogar fora a placa, resolveu estudar as propriedades daquele fungo. Desde 1920 estudava as propriedades bactericidas da lisozima, uma enzima que liberamos no muco, que tem propriedades bactericidas, de maneira que sua linha de pensamento j\u00e1 estava voltada para o combate a microorganismos, mostrando que sorte apenas n\u00e3o basta.<\/p>\n<p><!--more Continue lendo...--><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1208\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/rainha\/wp-content\/uploads\/sites\/254\/2011\/08\/penicillium.jpg\" alt=\"Penicillium notatum inibindo o crescimento de bact\u00e9rias.\" height=\"258\" width=\"274\" \/><br \/><i>Penicillium notatum<\/i> inibindo o crescimento de bact\u00e9rias.<\/p>\n<p><em>Vamos \u00e0 uma breve amostra do <strong>tamanho<\/strong> da sorte envolvida. <strong>1-<\/strong> Normalmente a contamina\u00e7\u00e3o por fungos seria mais dif\u00edcil, mas coincidentemente no andar inferior do mesmo pr\u00e9dio estavam trabalhando com o fundo <\/em><em>Penicillium notatum e enchendo o pr\u00e9dio todo de esporos. <strong>2-<\/strong> Conforme se descobriu depois, nem todos os <\/em><em>Penicillium sp. produzem penicilina, e na esp\u00e9cie <\/em><em>Penicillium notatum<strong> <\/strong><\/em><em>isso tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o comum, trata-se de uma caracter\u00edstica da linhagem que contaminou as amostras de Fleming. <\/em><em><strong>3-<\/strong> Se os esporos tivessem ca\u00eddo depois do crescimento da col\u00f4nia de estafilococos, n\u00e3o teriam se desenvolvido, uma vez que estafilococos s\u00e3o capazes de inibir o crescimento de fungos. <\/em><em><strong>4-<\/strong> Em qualquer outro dia de trabalho, Fleming teria colocado suas placas para crescer na incubadora, a 38\u00b0C, temperatura na qual os estafilococos crescem em um dia e na qual o Penincillium \u00e9 incapaz de crescer. As amostras s\u00f3 cresceram em temperatura ambiente porque Fleming ia ficar fora por duas semanas, e podia esperar o crescimento mais lento. Poucos dias antes e nem isso seria suficiente, pois Londres passava por uma onda de calor, que terminou pouco antes de suas f\u00e9rias. <strong>5-<\/strong> Dependendo do tipo de bact\u00e9ria que estivesse sendo cultivada, a penicilina poderia ser ineficaz.<\/em><\/p>\n<p>Intrigado com a subst\u00e2ncia que chamou de penicilina, Alexander Fleming fez v\u00e1rios testes, descobrindo que ela matava diversos tipos de bact\u00e9rias. Misteriosamente, n\u00e3o a testou contra a espiroqueta causadora da s\u00edfilis, que o fez famoso e rico como m\u00e9dico, utilizando o tratamento com Salvarsan &#8211; o tratamento com Salvarsan envolvia inje\u00e7\u00f5es semanais durante um per\u00edodo de 1 ano e meio, enquanto a penicilina cura s\u00edfilis em poucas semanas. <em>Sabe aquela piada do m\u00e9dico que n\u00e3o pode curar o doente para n\u00e3o perder a clientela?<\/em><\/p>\n<p>Desmotivado pelo curto per\u00eddo de dura\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio ativo da penicilina, e pensando apenas no uso t\u00f3pico, sem conceber a ingest\u00e3o e tratamento generalizado que a subst\u00e2ncia poderia provir, Fleming publicou em 1929 um artigo descrevendo as propriedades bactericidas da penicilina e depois se desinteressou do estudo, mantendo consigo a linhagem do <em>Penicillium notatum<\/em> que posteriormente forneceu a diversos pesquisadores.<\/p>\n<p>Outros pesquisadores leram o trabalho de Fleming e deram continuidade \u00e0 pesquisa, parando em seguida. Em 1939, Ernst Boris Chain, aluno de Howard Florey, se interessou pelo trabalho de Alexander Fleming e acabou conhecendo a pesquisadora Campbell-Renton no corredor da Universidade de Oxford. Ela estava levando um frasco do mofo de Alexander Fleming, que havia pedido anos antes para estudar e j\u00e1 n\u00e3o usava mais.<\/p>\n<p>Chain, Floreye e seu laborat\u00f3rio come\u00e7aram a trabalhar com o mofo, testaram m\u00e9todos diferentes de cultivo, processos de purifica\u00e7\u00e3o e estocagem de penicilina, concentra\u00e7\u00f5es diferentes, al\u00e9m da atividade contra v\u00e1rias bact\u00e9rias em ratos, coelhos e posteriormente em pessoas. Acabaram desenvolvendo o m\u00e9todo de fabrica\u00e7\u00e3o que permitiu a distribui\u00e7\u00e3o de penicilina durante a Segunda Guerra Mundial, o que salvou muitas vidas do maior mal da guerra, os ferimentos. Se envolveram numa colabora\u00e7\u00e3ocom americanos,  que se tornou disputa pela patente da droga, mais um dos v\u00e1rios elementos que dificilmente ficam de fora na hist\u00f3ria de um Nobel.<\/p>\n<p>Em 1945, o pr\u00eamio Nobel de Medicina e Fisiologia foi dado para Alexander Fleming, Ernst Boris Chain e Howard Florey. Fleming chegou a reconhecer que seu papel no pr\u00eamio foi o de descobrir a droga, mas desfrutou bastante da fama e dos falsos cr\u00e9ditos que recebeu, chegando a colecionar hist\u00f3rias erradas a seu respeito em um \u00e1lbum.<\/p>\n<p>Hoje em dia, diversas outras drogas foram isoladas de microorganismos, como a estreptomicina, e outras foram sintetizadas. Mas a disputa contra as bact\u00e9rias est\u00e1 muito longe de ser vencida. Ap\u00f3s um per\u00edodo de efetivo combate, grande parte das bact\u00e9rias j\u00e1 s\u00e3o resistentes a algum tipo de antibi\u00f3tico, e outras, como algumas linhagens de <em><a title=\"Mycobacterium tuberculosis\" href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Mycobacterium_tuberculosis\">Mycobacterium tuberculosis<\/a> <\/em>s\u00e3o virtualmente resistentes a todos antibi\u00f3ticos dispon\u00edveis, e continuam matando milh\u00f5es de pessoas todos anos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este post faz parte do Carnaval de Cient\u00edfico: Descobertas Cient\u00edficas. Clique aqui e veja quem mais contribuiu. Muita coisa em ci\u00eancia acontece por acaso. Quando h\u00e1 um misto de sorte e talento, muitas descobertas importantes s\u00e3o feitas. 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