{"id":930,"date":"2010-01-05T23:41:23","date_gmt":"2010-01-06T02:41:23","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/rainha\/2010\/01\/material_genetico_pra_que\/"},"modified":"2010-01-05T23:41:23","modified_gmt":"2010-01-06T02:41:23","slug":"material_genetico_pra_que","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/rainha\/2010\/01\/material_genetico_pra_que\/","title":{"rendered":"Material gen\u00e9tico pra qu\u00ea?"},"content":{"rendered":"<div align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/rainha\/wp-content\/uploads\/sites\/254\/2011\/08\/neo_colher1.jpg\" \/><br \/>A mudan\u00e7a est\u00e1 em voc\u00ea, e n\u00e3o no material gen\u00e9tico<\/div>\n<p><span style=\"padding: 5px;float: left\"><a href=\"http:\/\/www.researchblogging.org\"><img decoding=\"async\" alt=\"ResearchBlogging.org\" src=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/public\/citation_icons\/rb2_large_gray.png\" style=\"border: 0pt none\" \/><\/a><\/span>Uma das interpreta\u00e7\u00f5es da Teoria da Evolu\u00e7\u00e3o pela Sele\u00e7\u00e3o Natural (sim, existem outros processos evolutivos, como a <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/cienciahoje.uol.com.br\/colunas\/deriva-genetica\/humanidade-a-deriva\" rel=\"noopener noreferrer\">Deriva Gen\u00e9tica<\/a>), diz que os organismos variam no&nbsp; tempo por a\u00e7\u00e3o de tr\u00eas fatores, propostos pelo bom velhinho: <b>Variabilidade<\/b>; <b>Hereditariedade<\/b>; e <b>Sele\u00e7\u00e3o Natural<\/b>. Ou seja, uma popula\u00e7\u00e3o vai ter organismos diferentes (Variabilidade), que v\u00e3o ter desempenhos diferentes e ser\u00e3o selecionados com base nisso (Sele\u00e7\u00e3o Natural), passando adiante tais caracter\u00edsticas atrav\u00e9s da reprodu\u00e7\u00e3o (Hereditariedade).<\/p>\n<p>E, seguindo estes princ\u00edpios, a evolu\u00e7\u00e3o acontece. Seja em organismos vivos ou em &#8220;entidades n\u00e3o vivas&#8221;, como s\u00e3o considerados os v\u00edrus e algumas mol\u00e9culas de RNA&nbsp; capazes de infectar c\u00e9lulas. Mas at\u00e9 ent\u00e3o, a evolu\u00e7\u00e3o em entidades biol\u00f3gicas, para diferenciar de <a href=\"http:\/\/www.meiobit.com\/meio-bit\/ciencia\/vida-digital-e-evolucao\">organismos artificiais<\/a>, estava vinculada ao material gen\u00e9tico.&nbsp; Basicamente quem muda \u00e9 uma mol\u00e9cula de RNA ou DNA, atrav\u00e9s de muta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o para o pr\u00edon, ele \u00e9 uma prote\u00edna que [<i>modo clich\u00ea on<\/i>] pensou fora da caixa <i>[modo clich\u00ea off<\/i>]. O pr\u00edon \u00e9 uma prote\u00edna que contraria uma s\u00e9rie de conceitos&nbsp; imaginados apenas para organismos e faz por conta pr\u00f3pria, dispensando o material gen\u00e9tico. Ele \u00e9 uma prote\u00edna que percebeu que quem se dobra n\u00e3o \u00e9 a colher, e n\u00e3o \u00e9 por que outros dependem de material gen\u00e9tico que ele tamb\u00e9m ia precisar.<\/p>\n<p>Conforme <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/rainha\/2009\/12\/estamos_a_merce_dos_zumbis.php\">j\u00e1 expliquei aqui<\/a>, as prote\u00ednas dependem da estrutura que adotam para realizar suas fun\u00e7\u00f5es. E assim como um origami, podem ser dobradas de diversas&nbsp; formas, mas apenas algumas s\u00e3o funcionais. Isso na verdade representa um problema, como as prote\u00ednas podem assumir milh\u00f5es de conforma\u00e7\u00f5es diferentes, precisam&nbsp; ser produzidas de maneira que consigam assumir a conforma\u00e7\u00e3o ideal.<br \/>&nbsp;<br \/>J\u00e1 o pr\u00edon \u00e9 uma prote\u00edna chamada PrP produzida por neur\u00f4nios que se dobrou de maneira errada. O problema \u00e9 que esta maneira errada (ou PrP<sup>Sc<\/sup>) \u00e9 muito mais est\u00e1vel do que a normal (PrP<sup>C<\/sup>). T\u00e3o est\u00e1vel que \u00e9 capaz de dobrar outras prote\u00ednas PrP<sup>C<\/sup> do mesmo em uma conforma\u00e7\u00e3o igual \u00e0 sua PrP<sup>Sc<\/sup> (Hereditariedade) e ainda \u00e9 resistente. Desta forma, quando o pr\u00edon entra em uma c\u00e9lula, ele come\u00e7a a se propagar, transformando PrP<sup>C <\/sup>em PrP<sup>Sc<\/sup> e formando grandes aglomerados prote\u00edcos que n\u00e3o s\u00e3o digeridos pela c\u00e9lula e acabam matando-a.<br \/>&nbsp;<br \/>O conceito de uma prote\u00edna infecciosa que \u00e9 capaz de ser transmitida \u00e9 algo t\u00e3o inesperado que levou muito tempo para que aceitassem que a encefalopatia espongiforme bovina (doen\u00e7a da vaca louca ou BSE) fosse causada por uma. Com o tempo, acabamos descobrindo que pr\u00edons causavam uma s\u00e9rie de outras doen\u00e7as como a S\u00edndrome de Creutzfeldt-Jacob, o kuru ou a coceira do carneiro (Scrapie), e que podiam inclusive desempenhar fun\u00e7\u00f5es importantes para os organismos, como em alguns fungos.<\/p>\n<p>E n\u00e3o s\u00f3 os pr\u00edons n\u00e3o precisam de material gen\u00e9tico para se propagar, como tamb\u00e9m podem evoluir sem ele. Ao serem cultivados em c\u00e9lulas que expressam PrP, podem adquirir novas conforma\u00e7\u00f5es (Variabilidade), variantes que possuem uma outra dobra diferentes mas tamb\u00e9m s\u00e3o capazes de se propagar. Elas diferem na resist\u00eancia ao ataque por proteases, enzimas que quebram prote\u00ednas, e atrav\u00e9s dos peda\u00e7os da quebra podemos saber quantas conforma\u00e7\u00f5es diferentes existem.<br \/>&nbsp;<br \/>\u00c9 esta variabilidade de conforma\u00e7\u00f5es que permite que a evolu\u00e7\u00e3o aconte\u00e7a. Quando em c\u00e9lulas de rim cultivadas expressando PrP, uma das variantes predomina, e quando se propaga no c\u00e9rebro, local onde a PrP \u00e9 normalmente produzida, outra variante do pr\u00edon que se sobressai. E elas s\u00e3o capazes de competir entre si, colocando ambas em um c\u00e9rebro n\u00e3o infectado, a variante de c\u00e9rebro predomina, e o inverso acontece quando s\u00e3o colocadas em c\u00e9lulas (Sele\u00e7\u00e3o Natural).<\/p>\n<p>Outra press\u00e3o seletiva pode ser a swainsonina, um inibidor de pr\u00edons. Na presen\u00e7a de swainsonina, o n\u00famero de c\u00e9lulas infectadas pelo pr\u00edon sens\u00edvel diminui bastante, mas ap\u00f3s algumas &#8220;gera\u00e7\u00f5es&#8221; ou passagens, uma variante resistente aparece, capaz de se propagar sem inibi\u00e7\u00e3o embora se replique mais lentamente. Retirada a swainsonina, a variante anterior volta a ser a predominante, mas o processo pode se repetir caso o inibidor seja recolocado. Esta informa\u00e7\u00e3o \u00e9 especialmente importante para quem est\u00e1 desenvolvendo drogas para o tratamento de Creutzfeldt-Jacob, uma vez que o mesmo pode ocorrer.<br \/>&nbsp;<br \/>O pr\u00edon \u00e9 a prova de que Evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 uma propriedade emergente em sistemas que apresentam os pr\u00e9-requisitos, independente de se tratar de um organismo ou n\u00e3o. Ou&nbsp; isso, ou o Criador tem uma compuls\u00e3o por ordenar tudo, e garante que uma prote\u00edna consiga consiga transformar o c\u00e9rebro de animais puros e inocentes em queijo&nbsp; su\u00ed\u00e7o da maneira mais eficiente poss\u00edvel.<\/p>\n<p><span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Science&amp;rft_id=info%3Adoi%2F10.1126%2Fscience.1183218&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Darwinian+Evolution+of+Prions+in+Cell+Culture&amp;rft.issn=0036-8075&amp;rft.date=2009&amp;rft.volume=&amp;rft.issue=&amp;rft.spage=&amp;rft.epage=&amp;rft.artnum=http%3A%2F%2Fwww.sciencemag.org%2Fcgi%2Fdoi%2F10.1126%2Fscience.1183218&amp;rft.au=Li%2C+J.&amp;rft.au=Browning%2C+S.&amp;rft.au=Mahal%2C+S.&amp;rft.au=Oelschlegel%2C+A.&amp;rft.au=Weissmann%2C+C.&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Biology%2CEvolutionary+Biology%2C+Molecular+Biology%2C+Biochemistry\">Li, J., Browning, S., Mahal, S., Oelschlegel, A., &amp; Weissmann, C. 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