{"id":938,"date":"2010-01-12T21:33:47","date_gmt":"2010-01-13T00:33:47","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/rainha\/2010\/01\/pulgoes_e_interacoes_uma_histo\/"},"modified":"2010-01-12T21:33:47","modified_gmt":"2010-01-13T00:33:47","slug":"pulgoes_e_interacoes_uma_histo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/rainha\/2010\/01\/pulgoes_e_interacoes_uma_histo\/","title":{"rendered":"Pulg\u00f5es e intera\u00e7\u00f5es, uma hist\u00f3ria em 4 FUUUs"},"content":{"rendered":"<p>Uma das coisas que mais gosto na biologia \u00e9 sua riqueza de detalhes. A cada esquina h\u00e1 uma intera\u00e7\u00e3o nova e inesperada. Pegue um pulg\u00e3o, por exemplo:<\/p>\n<div align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/rainha\/wp-content\/uploads\/sites\/254\/2011\/08\/Pulgao1.jpg\" \/><br \/>Fonte: Wikimedia<\/div>\n<p><span style=\"padding: 5px;float: left\"><a href=\"http:\/\/www.researchblogging.org\"><img decoding=\"async\" alt=\"ResearchBlogging.org\" src=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/public\/citation_icons\/rb2_large_gray.png\" style=\"border: 0pt none\" \/><\/a><\/span>Nada mais simples do que um pulg\u00e3o sugando a seiva de uma planta. Ele insere seu estilete nos vasos da planta e suga a seiva dela. Mas h\u00e1 uma guerra qu\u00edmica por baixo disso, e ambos s\u00e3o agredidos. A planta defende-se do pulg\u00e3o liberando subst\u00e2ncias t\u00f3xicas como oxig\u00eanio reativo, al\u00e9m de sinalizar para que as c\u00e9lulas do local cometam suic\u00eddio e sequem, formando uma esp\u00e9cie de co\u00e1gulo no local. O af\u00eddeo responde liberando enzimas como as peroxidases, que destroem as subst\u00e2ncias t\u00f3xicas das plantas e mant\u00e9m o local ativo. [1]<\/p>\n<p>Algumas vezes as plantas podem apelar, e chamar a ajuda de terceiros. <a href=\"http:\/\/www.pnas.org\/content\/97\/16\/9329.full\">Elas liberam subst\u00e2ncias<\/a> que atraem predadores dos pulg\u00f5es, e o resultado \u00e9 \u00faltimo FUUU.<\/p>\n<div align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/rainha\/wp-content\/uploads\/sites\/254\/2011\/08\/agalla_llentiscla.jpg\" \/><br \/><a href=\"http:\/\/www.jardin-mundani.com\/Cat\/fitopatologies.htm\">Fonte<\/a><\/div>\n<p>Esta &#8220;folha&#8221; vermelha \u00e9 uma galha induzida por um pulg\u00e3o. Trata-se de uma <i>Pistacia lentiscus<\/i>, que \u00e9 infectada por um af\u00eddeo que s\u00f3 consegue se reproduzir nela, o <i>Aploneura lentisci<\/i>. E o caminho para isto \u00e9 longo. Este af\u00eddeo possui uma fase alada, onde f\u00eameas e machos cruzam e elas buscam novas plantas onde p\u00f4r os ovos. Ap\u00f3s o inverno, as f\u00eameas que nascem em novas plantas v\u00e3o formar estas estruturas chamadas galhas. Ao que parece, o processo de buscar novas plantas voando e depositar os ovos \u00e9 um tanto aleat\u00f3rio, e frequentemente as novas f\u00eameas que nascem se descobrem em uma planta errada e acabam morrendo (FUUU).<\/p>\n<p>Quando as fundadoras de galhas se encontram na planta certa, liberam subst\u00e2ncias que induzem um crescimento irregular da planta, que vai formar uma prote\u00e7\u00e3o para elas. L\u00e1 dentro, assim como um tumor que recruta vasos sangu\u00edneos para crescer, as fundadoras induzem a produ\u00e7\u00e3o de vasos (floema) que v\u00e3o alimentar os novos pulg\u00f5es produzidos protegidinhos por partenog\u00eanese l\u00e1 dentro (FUUU). At\u00e9 o ano seguinte, quando a mudan\u00e7a de esta\u00e7\u00e3o pode induzir a produ\u00e7\u00e3o da linhagem sexuada e alada que vai partir para novas hospedeiras. [2]<\/p>\n<div align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/rainha\/wp-content\/uploads\/sites\/254\/2011\/08\/joaninha.jpg\" \/><br \/><a href=\"http:\/\/picasaweb.google.com\/lh\/photo\/wg5gikP8I4k9X7wdq9Rt2w\">Fonte<\/a><\/div>\n<p>Joaninhas s\u00e3o um dos maiores predadores de pulg\u00f5es. Se alimentam deles desde larvas, o que n\u00e3o quer dizer que seja f\u00e1cil. Os pulg\u00f5es possuem grandes aliados, as formigas. Os pulg\u00f5es costumam liberar parte da seiva que sugam pelo \u00e2nus &#8211; sabe aquela chuvinha, aquela humidade que sentimos embaixo de algumas plantas? &#8211; principalmente quando as formigas pedem. Elas se aproximam dos pulg\u00f5es e tateiam o abdome deles, e eles liberam got\u00edculas de \u00e1gua que elas podem recolher e beber, literalmente ordenhando os af\u00eddeos.<br \/>Ali\u00e1s, os af\u00eddeos chegam a ser tratados como gado mesmo, direcionados para algumas partes da planta pelas formigas, chegando a ser carregados na boca, e em alguns casos s\u00e3o at\u00e9 recolhidos para perto do formigueiro no fim do dia. Para v\u00e1rias esp\u00e9cies de formigas esta seiva \u00e9 um componente importante da dieta, e assim como guardamos nosso gado contra predadores como lobos, elas protegem os pulg\u00f5es de predadores como as joaninhas, atacando agressivamente o besourinho (FUUU). [3]<br \/>&nbsp;<br \/><a href=\"http:\/\/www.alexanderwild.com\/Insects\/Bees-Wasps-and-Sawflies\/4230200_rPV88\/1\/642255322_KsuTx#642255322_KsuTx\"><\/a><\/p>\n<div align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/rainha\/wp-content\/uploads\/sites\/254\/2011\/08\/Aphidius_ervi_.jpg\" \/><br \/>\u00a9<a href=\"http:\/\/www.alexanderwild.com\/\">Alex Wild <\/a><\/div>\n<p>J\u00e1 o pulg\u00e3o ervilha (<i>Acyrthosiphon pisum<\/i>), precisa de dois FUUUs. Por um lado, pode ser parasitado por uma bact\u00e9ria chamada <i>Hamiltonella defensa<\/i>, que diferente de algumas simbiontes que produzem amino\u00e1cidos para os af\u00eddeos, n\u00e3o colabora e sempre que poss\u00edvel \u00e9 eliminada pelo pulg\u00e3o. Por outro, ele tamb\u00e9m pode ser parasitado por uma vespa, a <i>Aphidius ervi<\/i>, que inclusive \u00e9 <a href=\"http:\/\/www.ces.ncsu.edu\/depts\/hort\/greenhouse_veg\/aphids.html\">utilizada como controle biol\u00f3gico<\/a>. A rotina j\u00e1 \u00e9 conhecida pelos leitores do Rainha, a vespa deposita um ovo dentro do pulg\u00e3o, de onde sair\u00e1 sua larva que vai devorar lentamente o hospedeiro at\u00e9 mat\u00e1-lo, formar um casulo e emergir.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 um terceiro e um quarto FUUUs nesta hist\u00f3ria. A <i>Hamiltonella defensa<\/i> pode ser infectada por um bacteri\u00f3fago (FUUUU) que garante sua estadia com uma gene que produz uma prote\u00edna t\u00f3xica. Quando a bact\u00e9ria \u00e9 infectada por este v\u00edrus, produz uma toxina capaz de matar a larva da vespa, que n\u00e3o consegue empupar e morre dentro do af\u00eddeo (FUUUU). Assim, na presen\u00e7a da vespa parasit\u00f3ide, o pulg\u00e3o ervilha \u00e9 parasitado pela bact\u00e9ria que \u00e9 parasitada pelo v\u00edrus que n\u00e3o deixa o pulg\u00e3o ser parasitado pela vespa e sobrevive. [4]<\/p>\n<p>E para finalizar, uma imagem de sacanagem involunt\u00e1ria que retirei <a href=\"http:\/\/www.keele.ac.uk\/depts\/ch\/groups\/ecology\/aphidproject.html\">daqui<\/a>. Uma vespa depositando (ui!) um ovo dentro de um pulg\u00e3o:<\/p>\n<div align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/rainha\/files\/2011\/08\/Aphidpen.gif\" \/><\/p>\n<div align=\"left\">Fonte:<\/div>\n<\/div>\n<p>[1] <span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Annual+Review+of+Plant+Biology&amp;rft_id=info%3Adoi%2F10.1146%2Fannurev.arplant.53.100301.135207&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=PLANT+RESPONSES+TO+INSECT+HERBIVORY%3A+The+Emerging+Molecular+Analysis&amp;rft.issn=1543-5008&amp;rft.date=2002&amp;rft.volume=53&amp;rft.issue=1&amp;rft.spage=299&amp;rft.epage=328&amp;rft.artnum=http%3A%2F%2Farjournals.annualreviews.org%2Fdoi%2Fabs%2F10.1146%252Fannurev.arplant.53.100301.135207&amp;rft.au=Kessler%2C+A.&amp;rft.au=Baldwin%2C+I.&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Biology%2CEvolutionary+Biology%2C+Molecular+Biology%2C+Biochemistry\">Kessler, A., &amp; Baldwin, I. (2002). PLANT RESPONSES TO INSECT HERBIVORY: The Emerging Molecular Analysis <span style=\"font-style: italic\">Annual Review of Plant Biology, 53<\/span> (1), 299-328 DOI: <a rev=\"review\" href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1146\/annurev.arplant.53.100301.135207\">10.1146\/annurev.arplant.53.100301.135207<\/a><\/span><br \/>[2] <span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Basic+and+Applied+Ecology&amp;rft_id=info%3Adoi%2F10.1016%2Fj.baae.2005.07.007&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Differential+colonization+of+host+trees+by+galling+aphids%3A+Selection+of+hosts+or+selection+by+hosts%3F&amp;rft.issn=14391791&amp;rft.date=2005&amp;rft.volume=6&amp;rft.issue=5&amp;rft.spage=445&amp;rft.epage=451&amp;rft.artnum=http%3A%2F%2Flinkinghub.elsevier.com%2Fretrieve%2Fpii%2FS1439179105000708&amp;rft.au=WOOL%2C+D.&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Biology%2CBotany%2C+Ecology%2C+Evolutionary+Biology\">WOOL, D. (2005). Differential colonization of host trees by galling aphids: Selection of hosts or selection by hosts? <span style=\"font-style: italic\">Basic and Applied Ecology, 6<\/span> (5), 445-451 DOI: <a rev=\"review\" href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1016\/j.baae.2005.07.007\">10.1016\/j.baae.2005.07.007<\/a><\/span><br \/>[3] <span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Journal+of+evolutionary+\nbiology&amp;rft_id=info%3Apmid%2F18764883&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Macroevolutionary+patterns+in+the+origin+of+mutualisms+involving+ants.&amp;rft.issn=1010-061X&amp;rft.date=2008&amp;rft.volume=21&amp;rft.issue=6&amp;rft.spage=1597&amp;rft.epage=608&amp;rft.artnum=&amp;rft.au=Oliver+TH&amp;rft.au=Leather+SR&amp;rft.au=Cook+JM&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Biology%2CEvolutionary+Biology%2C+%2C+Ecology%2C+Systems+Biology\">Oliver TH, Leather SR, &amp; Cook JM (2008). Macroevolutionary patterns in the origin of mutualisms involving ants. <span style=\"font-style: italic\">Journal of evolutionary biology, 21<\/span> (6), 1597-608 PMID: <a rev=\"review\" href=\"http:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pubmed\/18764883\">18764883<\/a><\/span><br \/>[4] <span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Science+%28New+York%2C+N.Y.%29&amp;rft_id=info%3Apmid%2F19696350&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Bacteriophages+encode+factors+required+for+protection+in+a+symbiotic+mutualism.&amp;rft.issn=0036-8075&amp;rft.date=2009&amp;rft.volume=325&amp;rft.issue=5943&amp;rft.spage=992&amp;rft.epage=4&amp;rft.artnum=&amp;rft.au=Oliver+KM&amp;rft.au=Degnan+PH&amp;rft.au=Hunter+MS&amp;rft.au=Moran+NA&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Biology%2CEvolutionary+Biology%2C+Microbiology%2C+Molecular+Biology\">Oliver KM, Degnan PH, Hunter MS, &amp; Moran NA (2009). Bacteriophages encode factors required for protection in a symbiotic mutualism. <span style=\"font-style: italic\">Science (New York, N.Y.), 325<\/span> (5943), 992-4 PMID: <a rev=\"review\" href=\"http:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pubmed\/19696350\">19696350<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma das coisas que mais gosto na biologia \u00e9 sua riqueza de detalhes. A cada esquina h\u00e1 uma intera\u00e7\u00e3o nova e inesperada. Pegue um pulg\u00e3o, por exemplo: Fonte: Wikimedia Nada mais simples do que um pulg\u00e3o sugando a seiva de uma planta. Ele insere seu estilete nos vasos da planta e suga a seiva dela. 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