Floresta Amazônica ou Biocombustíveis?

Pergunte rápido para qualquer brasileiro: “O que é melhor para o meio ambiente: Floresta Amazônica ou plantação de cana-de-açúcar para produção de etanol?”
Ficarei muito espantada se Floresta Amazônica não ganhar disparado, na frente da cana-de-açúcar. Todo mundo sabe que a Floresta Amazônica é um dos maiores patrimônios ambientais que temos e a maioria absoluta dos brasileiros sabe que a preservação da Amazônia tem importâncias social, econômica e ambiental imensuráveis. Que da floresta podemos tirar sustentavelmente de alimentos à essências naturais para produção de cosméticos, de cascas e sementes para decoração à borracha.
Agora, teste os conhecimentos deste brasileiro mais uma vez e pergunte: “Para o meio ambiente o que é melhor, gasolina e diesel ou etanol de cana-de-açúcar e biodiesel?”
Novamente ficarei surpresa se etanol e biodiesel não ganharem nas pesquisas, mesmo com todas as polêmicas em torno dos combustíveis renováveis.
E se tivéssemos que escolher entre reflorestar e recuperar áreas degradadas da Floresta Amazônica e plantar cana-de-açúcar?
Ora, se temos a garantia de que a floresta não será queimada e derrubada para a produção de cana, e se sabemos que a área de produção da cana não é a mesma da Floresta Amazônica, não precisaríamos escolher entre as duas políticas. Teríamos as duas. Afinal, o Brasil é grande o suficiente para comportar as duas coisas e temos milhões de hectares livres para o plantio de lavouras.
Dia 18/08, a UOL publicou a tradução do texto “Biocombustíveis apresentam balanço ecológico medíocre”, do Le Monde, jornal francês (na íntegra, abaixo). O texto se refere a um estudo publicado na Science que compara a quantidade de carbono fixada por plantações de cana-de-açúcar com a quantidade fixada pela Floresta Amazônica. Obviamente, a preservação e reflorestamento da floresta permite muito mais fixação do que a lavoura.
O que incomoda é como o jornalista lida com a notícia. Infelizmente a Floresta Amazônica ainda não move nossos carros e nossas máquinas. A comparação se torna injusta porque estamos pondo na balança duas coisas com importâncias claramente diferentes. Ao meu ver, seria mais justo comparar Floresta Amazônica ou ausência de Floresta Amazônica e biocombustíveis com combustíveis fósseis.
Quando fazemos isso, vemos que, entre cana-de-açúcar, milho, beterraba e trigo (todos para produção de etanol), a cana-de-açúcar é o que apresenta melhor balanço de carbono. Como sabemos, os combustíveis fósseis não fixam nada de carbono. E entre ter floresta e não ter, já sabemos a resposta. Se temos políticas públicas como o Selo Combustível Social e estudos e ações que nos garantam a manutenção da floresta, vemos que o texto tenta manipular nossas opiniões, contra o biocombustível brasileiro.
Afirmar que toda cultura de cana de açucar que temos está ocupando área de floresta, e que é melhor deixar os biocombustíveis para lá e investir somente na eficiência do uso de combustíveis fósseis, como o texto abaixo propõe, é manipulador e mentiroso.
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Biocombustíveis apresentam balanço ecológico medíocre
Hervé Kempf para o Le Monde
A utilização dos biocombustíveis não permitirá sistematicamente limitar as emissões de gases de efeito estufa, e seria mais eficiente conservar o meio ambiente em bom estado: esta é a conclusão de um estudo que foi publicado na revista “Science”, na sexta-feira, 17 de agosto, e co-assinado por Renton Righelato, da World Land Trust, uma organização que se dedica à conservação dos ecossistemas, e por Dominick Spracklen, professor da Universidade de Leeds (Grã-Bretanha).
O balanço ecológico dos biocombustíveis em muitos casos é criticado com base na comparação entre a energia gasta para produzí-los e aquela que eles fornecem. O saldo é geralmente bastante medíocre, e até mesmo negativo.
Mas a abordagem de Renton Righelato e de Dominick Spracklen é mais original: eles procuraram comparar as emissões de gás carbônico economizadas pelas culturas de biocombustíveis, com aquelas evitadas por outras formas de utilização do solo. Ao compilarem um grande número de estudos, eles compararam os balanços das diferentes formas de utilização do solo: a cana-de-açúcar, o trigo, o milho ou a beterraba, destinados à produção de etanol ou de diesel, a conversão de florestas tropicais em culturas, a conversão de culturas em florestas etc.
Por exemplo, a cultura do trigo para produzir etanol permite evitar, ao substituir o petróleo, entre 0,2 e 0,6 tonelada de gás carbônico por hectare por ano. Mas a conversão, nos Estados Unidos, de culturas em florestas de pinhos permite (por meio do crescimento das árvores) economizar 3,2 toneladas de gás carbônico por hectare por ano. Portanto, seria mais interessante dedicar-se à cultura de árvores do que cultivar cereais destinadas a fazer com que os automóveis possam andar.
A cana-de-açúcar possui o melhor rendimento dentre os biocombustíveis existentes: cerca de 2 toneladas por hectare de emissões evitadas. Mas isso é muito menos do que aquilo que a transformação de culturas em floresta tropical permitiria economizar (entre 4 e 8 toneladas por hectare), e muito mais desastroso se a cana-de-açúcar for desenvolvida por meio do desmatamento (que “custa” cerca de 200 toneladas por hectare, por ano de emissões).
No total, constatam os pesquisadores, se os dirigentes políticos quiserem mesmo privilegiar o balanço ecológico, “o melhor que eles teriam por fazer seria se concentrar na melhoria da eficiência energética dos combustíveis fósseis, de conservar as florestas e as savanas, e de restaurarem as florestas naturais e as pradarias em relação às terras que não são necessárias para a alimentação”.
Além de tudo, esta abordagem apresentaria vantagens em matéria de biodiversidade e de saúde dos ecossistemas.
Link: UOL

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