Os biocombustíveis são mesmo verdes?

Há um tempo, minha amiga Carol, de Cambridge, me pediu que comentasse um artigo que foi publicado no jornal inglês The Guardian. O artigo “Burning biofuels may be worse than coal and oil, say experts” , trata de um comentário de um outro artigo publicado na revista Science, sob o título: How Green Are Biofuels? (somente para assinantes), de Scharlemann e Laurance, no dia 4 de janeiro.
Como não queria que possíveis opiniões do jornal inglês interferissem no meu julgamento, fui atrás do texto da Science. E por isso a demora. Qual minha surpresa em constatar que, o artigo da Science faz comentários sobre um artigo encomentado pelo governo suíço (Ökobilanz von Energieprodukten: Ökologische Bewertung von Biotreibstoffen, por Zah et al.) e não mostra as metodologias de cálculo usadas para que as conclusões sobre os biocombustíveis serem piores que os derivados de petróleo fossem tiradas.
Resumindo: não consegui analisar os resultados de forma real. Só pude analisar as impressões que Scharlemann e Laurance tiveram e depois analisar as impressões de Alok Jha, o correspondente do The Guardian.
Basicamente, os dois artigos em inglês trazem o seguinte comentário: embora, dos 26 biocombustíveis estudados por Zah, a queima de 21 deles emitisse 30% menos gases do efeito estufa que a gasolina, 12 deles apresentavam altos custos ambientais agregados. Entre os 12 encontram-se o etanol de cana de açúcar brasileiro e o etanol de milho americano.
Os dois métodos usado por Zah, não explicados em nenhum dos dois textos em inglês, resumem os custos ambientais em um único número. Entre estes custos ambientais encontram-se a perda da biodiversidade, causada por desmatamento de áreas como a floresta Amazônica ou o Cerrado e o aumento dos preços nos alimentos, causado pela preferência dos agricultores em plantar para a produção de biocombustível. Por outro lado não considera importantes fatores indiretos, como os danos causados pelos subsídios dados a agricultores americanos e as consequências sociais da produção dos biocombustíveis em larga escala (nem das consequências sociais da extração do petróleo e produção de derivados em larga escala). Só não ficou explicado o que pra mim é o mais importante: como se fez a valoração destes custos ambientais.
O artigo da Science é bem mais coerente e consciente do que o texto do The Guardian, e trás os prós e os contras do estudo de maneira clara. Este tipo de estudo tem muito valor, mas a falta de explicação metodológica trás dúvidas sobre as conclusões. As perguntas que me ficam são: A extração de derivados de petróleo não é causa danos sociais? A produção de derivados não tem custos energéticos elevados? Qual as consequências ambientais de se extrair petróleo de uma plataforma continental em alto mar ou num deserto?
Fica complicado fazer comparações trazendo os contras de um único lado (do lado dos biocombustíveis). Mas também não fica sensato acreditar que os biocombustíveis são os grandes salvadores da pátria, ainda mais sabendo da falta de planejamento estratégico, que no Brasil, ainda permite que áreas da Amazônia e do Cerrado sejam degradadas em pról do “desenvolvimento econômico”.
Saiba mais:
+ How Green are Biofuels? – Scharlemann and Laurance, Science
+ Burning biofuels may be worse than coal and oil, say experts – The Guardian
+ Biocombustível pode ser sujo, diz estudo – Folha Online

Discussão - 2 comentários

  1. Carol disse:

    Paulitcha, obrigada por comentar o assunto! Concordo contigo q deve-se investigar as vantagens e desvantagens de ambos os lados (biofuels vs. petroleo), tanto ambientais qto sociais. No entanto, dados os tantos lobbys envolvidos nessa discussao, temo q a gente nunca va saber o q eh bom mesmo, q cada um va puxar pra o seu lado …Na BBC online, hoje abriram um forum pras pessoas darem a sua opiniao: http://newsforums.bbc.co.uk/nol/thread.jspa?forumID=4051&edition=1&ttl=20080114105647Vou acompanhar pra ver se aparece algum argumento novo.Beijao!

  2. Italo M. R. Guedes disse:

    Cara Paula Signorini,Muito bom seu blog, ainda não o conhecia, mas felizmente o encontrei pelo “Blogs de Ciência”. Também escrevo um blog em que abordo constantemente as mudanças climáticas globais e possíveis soluções, principalmente do ponto de vista do solo. Meu blog se chama Geófagos, e pode ser acessado no seguinte endereço:http://geofagos.wordpress.comAcho interessante saber que outros blogueiros de ciência estão escrevendo sobre os mesmos assuntos.Bom trabalho.

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