Os biocombustíveis e o preço dos alimentos

Hoje a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) divulgou um relatório onde afirma que os alimentos não voltarão a ser baratos. O aumento na demanda e a necessidade de repor os estoques manterá a o preço dos alimentos altos.

Segundo Ariovaldo Umbelino de Oliveira, professor da USP, as causas para o aumento no custo de alimentos vão além da produção dos biocombustíveis. O preço de produtos como o arroz, o trigo e a soja observado nos últimos meses relaciona-se ao aumento no custo do barril de petróleo, que também ocasiona o aumento dos agroquímicos e consequentemente o aumento na produção de alimentos.

O preço do milho no mercado internacional, impulsionado pelo uso do milho para a produção de etanol pelos EUA causaram um aumento nos preços de arroz, soja e trigo. Muitos dos produtores desses alimentos redirecionaram sua produção para milho, o que causou uma diminuição nos estoques dos outros cereais, causando aumento do preço desses produtos. Esse dado nos faz acreditar que no caso do etanol brasileiro,  produzido a partir de cana-de-açúcar, a história é outra e não haveriam aumentos dos alimentos.

Porém, no Brasil, houve aumento nos preços de feijão, arroz e mandioca, principalmente porque muitos dos produtores desses alimentos direcionaram suas lavouras para o plantio de milho, já que o preço desse grão no mercado internacional era maior.

Segundo a FAO, o aumento no preço dos gêneros alimentícios ocasionou um aumento na produção dos alimentos e as próximas safras devem ser boas. Porém o preço dos alimentos deverá continuar alto.

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Os agrocombustíveis e a crise dos alimentos
por Ariovaldo Umbelino de Oliveira

As políticas neoliberais aplicadas à agricultura e ao comércio mundial de alimentos são responsáveis pela crise que se abateu sobre os alimentos na atualidade. Ela é resultado da total incapacidade do mercado para construir uma política mundial de segurança ou de soberania alimentar. Vários são os fatores para explicá-la.
Em primeiro lugar, deve-se destacar que depois da criação da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura) e do advento da revolução verde, o mundo capitalista adotou um mecanismo de controle de produção de alimentos baseado no sistema de estoques. Essa sistemática tinha por objetivo garantir excedentes agrícolas alimentares que permitissem simultaneamente, garantir a oferta de alimentos diante o fantasma da fome e a regulação de seus preços contra as ações especulativas dos players capitalistas (jogadores do mercado das bolsas de mercadorias e valores). Com o neoliberalismo e a criação da OMC (Organização Mundial do Comércio), o sistema adotado é aquele da colocação dos estoques no mercado e do império absoluto do livre comércio. Ou seja, o mercado através da disponibilidade dos estoques seria o regulador da oferta da produção de alimentos. Essa mudança revela na atualidade sua consequência: a crise.
Com a redução dos estoques de alimentos e da elevação de seus preços, os fundos de investimentos que sofreram violentas perdas, com as ‘subprime’, no mercado financieiro e imobiliário norte-americano, passaram a investir no mercado futuro, das commodities (milho, soja, trigo e arroz, principalmente). Este processo meramente especulativo atua no controle privado dos estoques e sobre a possibilidade de oferta de alimentos no mercado futuro. Dessa forma, todas as commodities têm já preços para o final do ano ascendentes.
Simultaneamente, com estes dois processos, articula-se a segunda causa em importância: a opção dos EUA pela produção do etanol a partir do milho. É óbvio que o efeito desta escolha fez com que parte do milho destinado à alimentação humana e à produção de ração animal fosse destinada à produção do agrocombustível. Porém, o aumento rápido do consumo do grão gerou mecanismos especulativos na queda dos estoques. Essa queda, por usa vez, puxou para cima consigo os preços da soja, trigo e arroz.
A terceira causa decorre do aumento do preço do petróleo, uma vez que já há previsóes para que o preço do barril chegue a US$ 200. A produção de grãos na revolução verde está assentada no setor agroquímico, e esse é comandado pela lógica do preço do petróleo. Com a subida do preço do petróleo, sobe o dos agroquímicos e também o custo da produção agropecuária. Consequêntemente, esta pressão atua no sentido do aumento dos preços dos alimentos.
No caso brasileiro, como consequência da crise mundial e da elevação dos preços internacionais do trigo associado ao bloqueio estabelecido pela Argentina em relação às exportações deste cereal ao Brasil, seu preço e de seus derivados estão aumentando. O país, sendo o maior importador mundial de trigo, precisa importar 7 das 10 milhóes de toneladas que consome. Essa produção vem dos EUA e Canadá, a preços elevados e frete aumentando.
Com relação aos três alimentos básicos da população brasileira (feijão, arroz e mandioca), desde 1992 o país não expande sua área plantada. O aumento do preço do feijão, por exemplo, decorreu da conversão da sua produção em terras para cultivo do milho, que tinha preços mais vantajosos no mercado mundial, em função da escalada provocada pelo etanol americano. Escalada que atingiu também a soja, que, na falta do milho, o substituiu na ração animal – não na alimentação  humana.
No caso do arroz, os estoques de que o Brasil dispõem são baixíssimos – 10% da demanda. A perspectiva de safra, já praticamento colhida, momentaneamente não sinaliza para uma situação de falta do produto, mas seu preço no mercado interno já subiu.
Dessa forma, como não há estoques suficientes no país e, os preços no mercado mundial estão elevados, e em parte, as exportações bloqueadas, continuarão a falta e os preços altos dos alimentos no país. Assim, a dedução lógica desta política que transforma alimento em agrocombustível é a crise mundial dos alimentos.

Ariovaldo Umbelino de Oliveira é professor Titular de Geografia Agrária – FFLCH – USP/ABRA/Instituto Iánde. Texto publicado no Jornal do Campus, Número 338, Ano 26.

Discussão - 1 comentário

  1. Lucia Malla disse:

    Parabéns pela casa nova, Paula. Ficou bem bonita e elegante. 🙂

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