{"id":3903,"date":"2022-03-07T15:41:37","date_gmt":"2022-03-07T18:41:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/covid-19\/?p=3507"},"modified":"2023-03-23T13:40:33","modified_gmt":"2023-03-23T16:40:33","slug":"sars-e-neo-cov-sobre-morcegos-pangolins-e-a-familia-dos-coronavirus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/revista\/2022\/03\/07\/sars-e-neo-cov-sobre-morcegos-pangolins-e-a-familia-dos-coronavirus\/","title":{"rendered":"SARS e Neo-Cov: sobre morcegos, pangolins e a fam\u00edlia dos coronav\u00edrus"},"content":{"rendered":"\n<pre class=\"wp-block-verse has-text-align-center has-small-font-size\"><em>Texto por Mellanie Fontes-Dutra, L\u00edvia Okuda Santos e Ana de Medeiros Arnt<\/em><\/pre>\n\n\n\n<p>Coronav\u00edrus: \u00e9 uma fam\u00edlia de v\u00edrus? De onde v\u00eam? A quem infecta? Tem v\u00edrus novo? Os morcegos t\u00eam culpa no cart\u00f3rio? Pois bem, hoje vamos responder estas e mais algumas d\u00favidas no texto do Especial de hoje.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que \u00e9 Coronav\u00edrus?<\/h2>\n\n\n\n<p>O Coronav\u00edrus \u00e9 uma fam\u00edlia de diferentes v\u00edrus existentes na natureza. Alguns infectam humanos e outros n\u00e3o. Assim, nesta fam\u00edlia viral, existem alguns v\u00edrus que causam resfriados e outros que podem causar s\u00edndromes respirat\u00f3rias graves, como COVID-19. Mas temos um novo integrante, rec\u00e9m descoberto, nessa grande fam\u00edlia e vamos falar mais dele neste texto!<\/p>\n\n\n\n<p>Olhando para nossa hist\u00f3ria, j\u00e1 tivemos pandemias ou risco de pandemias com os coronav\u00edrus: pelo SARS-CoV-1 (2002), MERS-CoV (2012) e SARS-CoV-2 (2019). Ali\u00e1s, as pandemias, como sabemos agora, s\u00e3o eventos causados por pat\u00f3genos (como v\u00edrus ou bact\u00e9rias) que atingem o mundo inteiro, causando preocupa\u00e7\u00e3o e danos \u00e0 sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o de muitos pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p>Pode parecer novidade para muitas pessoas, mas existe monitoramento epidemiol\u00f3gico no mundo inteiro de poss\u00edveis pat\u00f3genos pand\u00eamicos, incluindo <strong>os diversos coronav\u00edrus que encontramos em esp\u00e9cies selvagens ou dom\u00e9sticas<\/strong>. Isto nos ajuda a saber se s\u00e3o ou est\u00e3o se tornando perigosos para os humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, depois desse <em>background<\/em>, podemos falar sobre o nosso tema de hoje: Sars e os Neo-Cov. Sendo o primeiro o grupo do nosso conhecido e odiado COVID-19, e o segundo um tipo de coronav\u00edrus encontrado recentemente na \u00c1frica.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Origem do SARS-COV-2: hip\u00f3tese zoon\u00f3tica.<\/h2>\n\n\n\n<p>An\u00e1lises filogen\u00e9ticas recentes identificaram que os SARS-CoVs provavelmente divergiram de um coronav\u00edrus ancestral derivado de morcego entre 1948 e 1982. Filogenia \u00e9 a \u00e1rea da biologia que estuda a \u201cancestralidade\u201d dos v\u00edrus e seres vivos, a partir de an\u00e1lises gen\u00e9ticas e moleculares, tra\u00e7ando assim sua \u201chist\u00f3ria evolutiva\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Este estudo sugere que os v\u00edrus tipo os SARS-CoVs t\u00eam circulado em esp\u00e9cies selecionadas de morcegos h\u00e1 algum tempo. Existem trabalhos que mostraram uma grande semelhan\u00e7a de coronav\u00edrus que infectam morcegos com o SARS-CoV-2, apresentando at\u00e9 96,1% semelhan\u00e7a no material gen\u00e9tico, como no caso do estudo recente em <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Laos\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Laos<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Assim, \u00e9 poss\u00edvel que a linhagem origin\u00e1ria do SARS-CoV-2 tenha circulado despercebida em morcegos por d\u00e9cadas.&nbsp;<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Em outro <a href=\"https:\/\/www.medrxiv.org\/content\/10.1101\/2021.09.09.21263359v1.full-text\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">estudo<\/a> constatou-se a ocorr\u00eancia de uma frequente troca de coronav\u00edrus entre morcegos. Ali\u00e1s, \u00e9 sempre bom lembrar que eles s\u00e3o animais que podem viver aglomerados, podendo gerar uma grande diversidade gen\u00e9tica e novas vers\u00f5es de v\u00edrus.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel que um SARS-CoV tenha evolu\u00eddo para SARS-CoV-2 em humanos ap\u00f3s o chamado <em>spillover<\/em> de um animal (transbordamento, ou quando um v\u00edrus de uma esp\u00e9cie passa a infectar outra esp\u00e9cie diferente) seguido pela r\u00e1pida transmiss\u00e3o desta cepa (tipo de v\u00edrus) adaptada a humanos. Portanto, \u00e9 um desafio para a comunidade cient\u00edfica estimar a frequ\u00eancia do transbordamento zoon\u00f3tico.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Vamos entender melhor como uma pesquisa assim pode ser feita?<\/h4>\n\n\n\n<p>Pesquisadores, em um estudo ainda em <a href=\"https:\/\/www.science.org\/content\/article\/sars-viruses-may-jump-animals-people-hundreds-thousands-times-year?utm_campaign=news_daily_2021-09-15&amp;et_rid=244528632&amp;et_cid=3921081#.YUMXG9kLg6U.twitter\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">preprint<\/a>, criaram um mapa detalhado de habitats de 23 esp\u00e9cies de morcegos conhecidas por abrigar coronav\u00edrus relacionados ao SARS. Nesta pesquisa, sobrepuseram dados sobre onde os humanos vivem para criar um mapa de potenciais pontos de infec\u00e7\u00e3o. Visto isso, cerca de 500 milh\u00f5es de pessoas vivem em \u00e1reas onde podem ocorrer spillovers, incluindo o norte da \u00cdndia, Nepal, Mianmar e boa parte do Sudeste Asi\u00e1tico. Logo, esta informa\u00e7\u00e3o pode nos dar pistas de locais em que essa vigil\u00e2ncia precisa ser frequente e fortificada.<\/p>\n\n\n\n<p>Interessante, n\u00e3o? Uma pesquisa que vai n\u00e3o s\u00f3 analisar habitats de animais infectados, mas relacionar-se \u00e0s popula\u00e7\u00f5es humanas que podem ter contato frequente com estes animais. Este \u00e9 um dos modos de realizarmos monitoramentos e termos dados mais precisos (e constantes) de riscos para n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Quer dizer que o v\u00edrus n\u00e3o foi feito pelos laborat\u00f3rios chineses comunistas?<\/h2>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>\u00c9 isso mesmo, ao que tudo indica a origem do SARS-CoV-2 \u00e9 natural, de morcegos ou outros animais.\u00a0<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Essa afirma\u00e7\u00e3o pode ser compreendida melhor com o <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41467-021-26809-4\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">artigo<\/a> que relata um v\u00edrus muito relacionado ao SARS-CoV-2 j\u00e1 circulava desde 2010 em Camboja. Este artigo adiciona mais uma evid\u00eancia da origem natural desse v\u00edrus. Al\u00e9m disso, mais recentemente, foi <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41586-022-04532-4\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">descoberto<\/a> que no norte do Laos alguns v\u00edrus muito parecido com o SARS-CoV-2 circulam em morcegos, os quais apresentam particularidades que os relacionam muito proximamente ao v\u00edrus da COVID-19.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">E esse spillover n\u00e3o d\u00e1 em nada?<\/h4>\n\n\n\n<p>Segundo o<a href=\"https:\/\/www.science.org\/content\/article\/sars-viruses-may-jump-animals-people-hundreds-thousands-times-year?utm_campaign=news_daily_2021-09-15&amp;et_rid=244528632&amp;et_cid=3921081#.YUMXG9kLg6U.twitter\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"> preprint <\/a>&nbsp;j\u00e1 citado, e tendo cuidado com as limita\u00e7\u00f5es do dado obtido, cerca de 400.000 pessoas est\u00e3o provavelmente infectadas com coronav\u00edrus relacionados \u00e0 SARS todos os anos, em transbordamentos que nunca se transformam em surtos detect\u00e1veis.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><em>\u201cMas por que, se temos todas essas infec\u00e7\u00f5es anualmente, n\u00e3o vemos muitos surtos?\u201d<\/em>&nbsp;<\/h5>\n\n\n\n<p>Porque a maioria das infec\u00e7\u00f5es ocultas t\u00eam vida curta e n\u00e3o levam \u00e0 transmiss\u00e3o, em raz\u00e3o de os v\u00edrus n\u00e3o serem bem adaptados aos humanos. Em geral, alguns humanos podem se infectar diretamente do contato com animais, mas acabam n\u00e3o transmitindo a outros seres humanos, acabando ali mesmo com a infec\u00e7\u00e3o. O problema \u00e9 se a frequ\u00eancia delas se tornar alta, o que pode propiciar a transmiss\u00e3o entre seres humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda, existe outro risco! Muitas dessas infec\u00e7\u00f5es, exatamente por serem \u201cnovas\u201d, podem gerar diagn\u00f3sticos errados, exatamente por sintomas que se assemelham a outras doen\u00e7as. No caso da COVID-19, por exemplo, os primeiros diagn\u00f3sticos sa\u00edam como gripe ou pneumonia, at\u00e9 que se percebesse que <em>existia um novo pat\u00f3geno infectando ali!<\/em> Isto tamb\u00e9m adiciona um vi\u00e9s ao dado. Soma-se a isso toda uma discuss\u00e3o sobre o acesso \u00e0 sa\u00fade que pessoas de regi\u00f5es rurais possuem, e isso \u00e9 uma quest\u00e3o importante.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">S\u00f3 morcego pode passar doen\u00e7a para humano?<\/h2>\n\n\n\n<p>Na verdade n\u00e3o. Em geral, o monitoramento de v\u00edrus que podem fazer o <em>spillover<\/em> aponta que existem v\u00e1rios v\u00edrus &#8211; de Influenza por exemplo &#8211; que indicam outros animais, especialmente aves. A gente j\u00e1 ouviu falar da gripe avi\u00e1ria e gripe su\u00edna, que s\u00e3o v\u00edrus da fam\u00edlia Influenza. Portanto, tanto esp\u00e9cies ditas como \u201cdom\u00e9sticas\u201d, quanto esp\u00e9cies que vivem em ambientes selvagens podem estar envolvidas em <em>spillover<\/em>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas em se tratando de coronav\u00edrus, apesar de os morcegos serem fort\u00edssimos candidatos a reservat\u00f3rios desta fam\u00edlia, n\u00e3o podemos afirmar com certeza se existem ou n\u00e3o outros animais poss\u00edveis. No caso do surto de SARS-CoV em 2002, as <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Paradoxurus_hermaphroditus\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Civetas<\/a> foram um prov\u00e1vel candidato, por exemplo.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">E aquele bichinho da China, o pan\u2026 pe\u2026 pebolim?<\/h4>\n\n\n\n<p>Ah, quer dizer o Pangolin? SIM! Existe a possibilidade de o pangolin ter entrado de bobo nessa hist\u00f3ria. Ou seja, ser um hospedeiro intermedi\u00e1rio entre o poss\u00edvel reservat\u00f3rio do v\u00edrus (morcego) e n\u00f3s. Mas ainda precisamos de mais an\u00e1lises para entender se sim, e como isso ocorreu.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o seria algo improv\u00e1vel, j\u00e1 que algumas fam\u00edlias de morcegos (como o <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Rhinolophidae\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Rhinolophidae<\/a>) compartilham algumas dietas com os pangolins na natureza. E por fim, temos fatores ecol\u00f3gicos que propiciaram esses spillovers. Urbaniza\u00e7\u00e3o, deflorestamento, redu\u00e7\u00e3o de habitats selvagens for\u00e7am uma proximidade dessas esp\u00e9cies conosco, favorecendo contatos e exposi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, <a href=\"https:\/\/www.cell.com\/trends\/ecology-evolution\/fulltext\/S0169-5347(20)30348-7\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">analisando<\/a> os SARS-CoVs, nota-se uma semelhan\u00e7a de mais ou menos 85,5 -92,4% ao SARS-CoV-2 em seu material gen\u00e9tico. Al\u00e9m disso, possuem semelhan\u00e7as intrigantes com o v\u00edrus em regi\u00f5es que s\u00e3o fundamentais para a intera\u00e7\u00e3o com nossas c\u00e9lulas. Especificamente, existe uma regi\u00e3o do v\u00edrus, conhecida como RBD (sigla para <em>receptor-binding domain<\/em>), que \u00e9 exatamente onde o v\u00edrus se liga com o ACE2 de nossas c\u00e9lulas, para entrar nelas. Esta regi\u00e3o de um SARS-CoV de pangolim tem 97,4% de semelhan\u00e7a com o do SARS-CoV-2, o que \u00e9 muito intrigante e mostra que existe muito ainda para conhecermos e, tamb\u00e9m, que a identifica\u00e7\u00e3o filogen\u00e9tica destes v\u00edrus n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples, tendo em vista que pode haver troca de materiais virais em animais hospedeiros. Isto \u00e9, os diferentes tipos de coronav\u00edrus que infectam um animal, podem trocar materiais gen\u00f4micos (que conhecemos como recombina\u00e7\u00f5es).<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><a href=\"https:\/\/www.cell.com\/trends\/ecology-evolution\/fulltext\/S0169-5347(20)30348-7\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/covid-19\/wp-content\/uploads\/sites\/251\/2022\/03\/gr1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3513\" width=\"765\" height=\"469\" \/><\/a><figcaption>Imagem retirada de: https:\/\/www.cell.com\/trends\/ecology-evolution\/fulltext\/S0169-5347(20)30348-7 <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Mas o Mercado de Huanan tem alguma coisa a ver?<\/h4>\n\n\n\n<p>Vamos falar disso agora! Vimos anteriormente que os morcegos eram o reservat\u00f3rio do ancestral do SARS-CoV-2, certo? Tamb\u00e9m sabemos que este mercado \u00e9 conhecido por ter bancas que vendem animais vivos, como o c\u00e3o-guaxinim, que j\u00e1 foi associado a emerg\u00eancia do SARS-CoV-1 e que \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 suscet\u00edvel ao SARS-CoV-2, como capaz de transmiti-lo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ali\u00e1s, por meio de an\u00e1lises espaciais, um <a href=\"https:\/\/zenodo.org\/record\/6299116#.YiEYnHPMJPa\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">artigo<\/a> demonstrou que os primeiros casos relatados de COVID-19 em dezembro de 2019 foram distribu\u00eddos geograficamente pr\u00f3ximos e centrados no mercado de Huanan, em Wuhan. Assim, os autores comentam que essa proximidade de casos ao mercado de Huanan foi, em Dezembro de 2019, maior que o esperado, dada a densidade populacional de Wuhan ou a distribui\u00e7\u00e3o espacial dos casos de COVID mais tarde na epidemia, sugerindo o epicentro no mercado.<\/p>\n\n\n\n<p>Todavia, o mais interessante \u00e9 que, considerando o pr\u00f3prio mercado, os dados desse trabalho sugerem que um grande n\u00famero de casos estava ligado ao setor oeste do mercado, onde a maioria das bancas que vendiam animais vivos se concentravam. Somando os dados, \u00e9 plaus\u00edvel que v\u00e1rias esp\u00e9cies de mam\u00edferos suscet\u00edveis ao SARS-CoV-2 e que poderiam ser hospedeiros intermedi\u00e1rios de seus &#8220;parentes ancestrais&#8221; foram vendidos vivos no mercado de Huanan em novembro de 2019 e podem ter contribu\u00eddo para a transmiss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Pois \u00e9! H\u00e1 ind\u00edcios de que n\u00e3o foi \u201cuma s\u00f3 infec\u00e7\u00e3o\u201d!<\/h4>\n\n\n\n<p>Deste modo, \u00e9 prov\u00e1vel que houvesse v\u00e1rios animais infectados no mercado de Huanan e pode ter havido pelo menos duas &#8220;entradas&#8221; do SARS-CoV-2 (linhagens A e B) em humanos, com a entrada da linhagem B e algumas semanas ap\u00f3s, a linhagem A. <\/p>\n\n\n\n<p>A linhagem A do v\u00edrus, a qual n\u00e3o havia sido encontrada no mercado de Huanan, tem uma associa\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica imensa com esse mercado, sugerindo que &#8220;as linhagens A e B surgiram nesse mercado e come\u00e7aram a se espalhar para a comunidade residencial de Wuhan&#8221;. Dessa forma, os autores dizem que<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"has-background-color-background-color has-background wp-block-heading\"><strong>&#8220;Amostras positivas para SARS-CoV-2 estavam fortemente associadas \u00e0 venda de mam\u00edferos vivos, particularmente no canto sudoeste do mercado de Huanan, onde amostras ambientais positivas provavelmente foram derivadas de animais infectados\u201d<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p>Outro <a href=\"https:\/\/zenodo.org\/record\/6291628#.YiEz5XPMJPa\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">artigo<\/a> concluiu que a circula\u00e7\u00e3o de um v\u00edrus ancestral em morcegos, que passou a ser capaz de ligar em ACE2, &#8220;pulou&#8221; para hospedeiros intermedi\u00e1rios (animais suscet\u00edveis) que foram comercializados vivos no mercado de Huanan, surgindo as linhagens A e B pouco tempo depois e a infec\u00e7\u00e3o em humanos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A import\u00e2ncia de monitoramentos ambientais e pesquisa b\u00e1sica!<\/h2>\n\n\n\n<p>Sim, voltaremos a este tema, pois al\u00e9m de informa\u00e7\u00f5es interessantes e fundamentais para compreendermos melhor o mundo que vivemos, tamb\u00e9m usamos estas informa\u00e7\u00f5es para entender a import\u00e2ncia da pesquisa cient\u00edfica! Recentemente, o v\u00edrus Neo-CoV foi encontrado entre morcegos na \u00c1frica do Sul. Cientistas chineses alertaram para esse v\u00edrus, no entanto, falta ainda um entendimento maior sobre seu potencial infeccioso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Neo-Cov: quem \u00e9 e o que sabemos dele?<\/h4>\n\n\n\n<h6 class=\"has-text-align-center has-accent-background-color has-background wp-block-heading\"><strong>Primeiro, um spoiler: n\u00e3o \u00e9 uma nova variante do v\u00edrus da COVID-19, e n\u00e3o \u00e9 algo novo no geral!<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p>O Neo-CoV \u00e9 um outro tipo de coronav\u00edrus que foi relatado pela primeira vez em 2012 e em 2015 durante o surto de MERS-CoV que pode usar receptores ACE2 de morcegos, <strong>mas n\u00e3o os receptores ACE2 de humanos. <\/strong>E, at\u00e9 o presente momento, <strong>n\u00e3o se observou infec\u00e7\u00e3o em humanos<\/strong> em sua forma atual, espalhando-se exclusivamente entre os morcegos.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com especialistas, as descobertas feitas pelos cientistas de Wuhan <strong>n\u00e3o representam um risco para a humanidade<\/strong> no momento atual. Apenas apontam para a necessidade de se acompanhar mais um tipo de coronav\u00edrus e sua evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O Neo-CoV ganhou a aten\u00e7\u00e3o da m\u00eddia pelo fato de os cientistas chineses disponibilizarem esses dados recentes (e importantes) em um <a href=\"https:\/\/www.biorxiv.org\/content\/10.1101\/2022.01.24.477490v1\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">preprint<\/a>. Assim, este v\u00edrus \u00e9 na verdade um v\u00edrus intimamente relacionado ao MERS-CoV que entra nas c\u00e9lulas atrav\u00e9s dos receptores DPP4 e pode usar o ACE2<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Finalizando<\/h2>\n\n\n\n<p>Por fim, imagino que n\u00e3o seja poss\u00edvel negar a import\u00e2ncia do monitoramento epidemiol\u00f3gico e do investimento nesta ci\u00eancia, n\u00e3o \u00e9? \u00c9 muito prov\u00e1vel que, para praticamente qualquer pat\u00f3geno zoon\u00f3tico da vida selvagem, o transbordamento \u00e9 mais frequente do que anteriormente reconhecido. E precisamos de mais investimento em ci\u00eancia e vigil\u00e2ncia gen\u00f4mica para monitor\u00e1-los de maneira p\u00fablica para que possamos controlar epidemias e evitar que novas pandemias, como COVID-19, apare\u00e7am.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, tamb\u00e9m \u00e9 sempre bom lembrar que <em>n\u00e3o \u00e9 culpa<\/em> dos animais estas infec\u00e7\u00f5es. Portanto, n\u00e3o dever\u00edamos interferir <em>ainda mais<\/em> nos habitats deles e causar danos e diminui\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es silvestres. Os monitoramentos devem ser no sentido de compreendermos quais s\u00e3o os v\u00edrus presentes nestes animais e, tamb\u00e9m, estabelecermos formas de preserva\u00e7\u00e3o e diminui\u00e7\u00e3o de intera\u00e7\u00f5es que sejam prejudiciais para n\u00f3s, enquanto esp\u00e9cie, e para estas esp\u00e9cies silvestres.<\/p>\n\n\n\n<p>Parte das infec\u00e7\u00f5es ocorre (e pode ocorrer) especialmente pela invas\u00e3o de habitats destes animais, aumentando o contato entre seres humanos e esp\u00e9cies de ambientes naturais.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><a href=\"https:\/\/pbs.twimg.com\/media\/E_bRbl4WEAAuZOl.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><\/a>Para saber mais:&nbsp;<\/h2>\n\n\n\n<p>LAM, Tommy Tsan-Yuk; JIA, Na; ZHANG, Ya-Wei; <em>et al <\/em>(2020) <a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/32218527\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Identifying SARS-CoV-2-related coronaviruses in Malayan pangolins<\/a> Nature, v 583, n 7815, p 282\u2013285, 2020.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u200cXIAO, Kangpeng; ZHAI, Junqiong; FENG, Yaoyu; <em>et al <\/em>(2020) <a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/32380510\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Isolation of SARS-CoV-2-related coronavirus from Malayan pangolins<\/a> Nature, v583, n7815, p 286\u2013289. \u200c<\/p>\n\n\n\n<p>ZHANG, Yong-Zhen ; HOLMES, Edward C (2020) <a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/32220310\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">A Genomic Perspective on the Origin and Emergence of SARS-CoV-2<\/a> Cell, v 181, n 2, p 223\u2013227.<\/p>\n\n\n\n<p>BONI, Maciej F.; LEMEY, Philippe; JIANG, Xiaowei; <em>et al<\/em> (2020) <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41564-020-0771-4\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Evolutionary origins of the SARS-CoV-2 sarbecovirus lineage responsible for the COVID-19 pandemic <\/a>Nature Microbiology, v5, n11, p 1408\u20131417.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>BANERJEE, Arinjay; DOXEY, Andrew C.; MOSSMAN, Karen; <em>et al<\/em> (2021) <a href=\"https:\/\/www.cell.com\/trends\/ecology-evolution\/fulltext\/S0169-5347(20)30348-7\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Unraveling the Zoonotic Origin and Transmission of SARS-CoV-2<\/a> Trends in Ecology &amp; Evolution, v 36, n 3, p 180\u2013184.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.science.org\/content\/author\/kai-kupferschmidt\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">KUPFERSCHMIDT<\/a>, <a href=\"https:\/\/www.science.org\/content\/article\/sars-viruses-may-jump-animals-people-hundreds-thousands-times-year?utm_campaign=news_daily_2021-09-15&amp;et_rid=244528632&amp;et_cid=3921081#.YUMXG9kLg6U.twitter\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">\u200cSARS-like viruses may jump from animals to people hundreds of thousands of times a year<\/a>. Science.org.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00c1NCHEZ, Cecilia A; LI, Hongying; PHELPS, Kendra L; <em>et al<\/em> (2021) <a href=\"https:\/\/www.medrxiv.org\/content\/10.1101\/2021.09.09.21263359v1\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">A strategy to assess spillover risk of bat SARS-related coronaviruses in Southeast Asia<\/a>. \u200c<\/p>\n\n\n\n<p>FORATO, Fidel (2021) <a href=\"https:\/\/canaltech.com.br\/saude\/neocov-tipo-diferente-de-coronavirus-chama-atencao-mas-nao-chegou-em-humanos-207863\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">NeoCoV: tipo diferente de coronav\u00edrus chama aten\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o chegou em humanos <\/a>Canaltech.<\/p>\n\n\n\n<p>KUMAR, Ajeet (2021) NeoCov: <a href=\"https:\/\/www.republicworld.com\/world-news\/rest-of-the-world-news\/neocov-what-is-who-saying-about-newly-discovered-coronavirus-found-in-bats-articleshow.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">What is WHO saying about newly discovered coronavirus found in bats?<\/a> Republic World.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>WOROBEY, Michael; LEVY, Joshua I; MALPICA, Lorena M; <em>et al<\/em> (2022) <a href=\"https:\/\/zenodo.org\/record\/6299116#.YiE9CXPPxPb\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">The Huanan market was the epicenter of SARS-CoV-2 emergence<\/a>, Zenodo, 2022.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>PEKAR, Jonathan E; MAGEE, Andrew; PARKER, Edyth; <em>et al<\/em> (2022) <a href=\"https:\/\/zenodo.org\/record\/6291628#.YiE9P3PPxPb\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">SARS-CoV-2 emergence very likely resulted from at least two zoonotic events<\/a> Zenodo, 2022.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Observa\u00e7\u00e3o 1:<\/h2>\n\n\n\n<p>Este texto foi organizado com informa\u00e7\u00f5es complementares \u00e0s publica\u00e7\u00f5es de <a href=\"http:\/\/www.twitter.com\/mellziland\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Mellanie Fontes-Dutra<\/a><\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\"><li><a href=\"https:\/\/twitter.com\/mellziland\/status\/1438567150797664258\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">E se eventos zoon\u00f3ticos como o que provavelmente gerou o SARS-CoV-2 estiverem acontecendo centenas de milhares de vezes por ano? <\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/twitter.com\/mellziland\/status\/1489694175100612610\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Sobre o Neo-CoV<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/twitter.com\/mellziland\/status\/1497652222104162305\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Origem do SARS-CoV-2<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Observa\u00e7\u00e3o 2<\/h2>\n\n\n\n<p>H\u00e1 trechos desta postagem que s\u00e3o tradu\u00e7\u00f5es livres de artigos, com adequa\u00e7\u00f5es de linguagem para melhor compreens\u00e3o do tema.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">As Autoras<\/h2>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.twitter.com\/ntsnaleatorias\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Ana Arnt<\/strong> <\/a>\u00e9 licenciada em biologia, doutora em educa\u00e7\u00e3o, professora do Instituto de Biologia da Unicamp, coordena os projetos Blogs de Ci\u00eancia da Unicamp e o Especial COVID-19.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Livia Okuda <\/strong>\u00e9 estudante de Farm\u00e1cia na Unicamp e divulgadora cient\u00edfica do Especial Covid-19 do Blogs Unicamp.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><a href=\"http:\/\/www.twitter.com\/mellziland\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Mellanie Fontes-Dutra<\/a><\/strong> \u00e9 biom\u00e9dica, doutora em neuroci\u00eancia e pesquisadora na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Divulgadora Cient\u00edfica na <a href=\"http:\/\/redeaanalisecovid.wordpress.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Rede An\u00e1lise COVID-19<\/a>. Autora convidada no Especial COVID-19 e parte do projeto <a href=\"http:\/\/www.todospelasvacinas.org\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Todos Pelas Vacinas<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Este texto foi escrito originalmente para o <a href=\"http:\/\/www.blogs.unicamp.br\/covid-19\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Especial COVID-19<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/covid-19\/wp-content\/uploads\/sites\/251\/elementor\/thumbs\/logo_-onj4s5m6vf0hml07f9yn7c6a77kn5fk3fpbt3dhc00.png\" alt=\"logo_\" title=\"logo_\" \/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Os argumentos expressos nos posts deste especial s\u00e3o dos pesquisadores. Dessa forma, produziu-se<\/strong> <strong>textos produzidos a partir de campos de pesquisa cient\u00edfica e atua\u00e7\u00e3o profissional dos pesquisadores<\/strong>. <strong>Al\u00e9m disso, a revis\u00e3o por pares aconteceu por pesquisadores da mesma \u00e1rea t\u00e9cnica-cient\u00edfica da Unicamp. Assim, n\u00e3o, necessariamente, representam a vis\u00e3o da Unicamp e essas opini\u00f5es n\u00e3o substituem conselhos m\u00e9dicos.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto por Mellanie Fontes-Dutra, L\u00edvia Okuda Santos e Ana de Medeiros Arnt Coronav\u00edrus: \u00e9 uma fam\u00edlia de v\u00edrus? De onde v\u00eam? A quem infecta? Tem v\u00edrus novo? Os morcegos t\u00eam culpa no cart\u00f3rio? Pois bem, hoje vamos responder estas e mais algumas d\u00favidas no texto do Especial de hoje. O que \u00e9 Coronav\u00edrus? 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