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Um grande amigo meu, o Gabriel, me pediu para postar este texto seu. Ele tem mais o que fazer do que manter um blog, por isso publica aqui no meu. sendo assim, o que está escrito é responsabilidade dele, mesmo que eu concorde com o que ele fala.

Demorou, mas, depois de um século e meio de espera por parte da comunidade científica, o conjunto de idéias que revolucionou as Ciências Biológicas foi finalmente reconhecido oficialmente pela Igreja Católica, como foi declarado pelo arcebispo Gianfranco Ravasi (Ministro da Cultura do Vaticano), ao anunciar uma conferência de cientistas, teólogos e filósofos que acontecerá em Roma em março de 2009, marcando os 150 anos da publicação da obra “A Origem das Espécies” de Darwin.
Essa notícia vinculada na Reuters e de lá “transmitida” por todos os portais de notícias, apesar de nova, contém pouco de “novidade”, uma vez que é pelo menos a terceira vez que um membro do alto escalão da Santa Sé se manifesta em favor dos pensamentos de Darwin. Em 1950, Pio XII havia descrito o processo de evolução como “uma abordagem válida do desenvolvimento humano”, e João Paulo II, em 1996, fez a mesma observação.
Mas o que muda com essa constatação, REALMENTE? A meu ver, praticamente nada, e explicarei o porquê.
Muda alguma coisa?
A Igreja Católica sempre recorreu à interpretação do Gênesis, texto bíblico que descreve a criação do nosso mundo, por Deus, em 6 dias (e não 7, como é dito de praxe, visto que o sétimo Ele tirou “de folga”), para explicar as origens da vida. Enquanto isso, Igrejas Protestantes preferem fazer uma leitura literal desta obra, o que leva ao grande número de protestos (sem trocadilho) em relação ao ensino da evolução nas aulas de Biologia em colégios públicos, principalmente nos EUA, onde as pressões de caráter religioso sempre exerceram grande influência, como pode ser visto atualmente, ao se acompanhar as campanhas dos candidatos à presidência.
Tá, e daí?
E daí que, com o passar do tempo e com a maturidade atingida pelo processo científico, para apoiar tais crenças, as Igrejas adotaram uma corrente de pensamento disfarçada de Ciência denominada Criacionismo, que os mesmo acreditam ser a resposta “científica” do Gênesis às teorias propostas por Darwin para definir inicialmente o processo evolutivo como o conhecemos hoje.

Digo “inicialmente”, porque ainda não havia compreensão alguma sobre Biologia Molecular e Genética quando destas proposições. A teoria evolutiva predominante no mundo atual trata justamente das idéias de Darwin (Darwinismo) associadas ao conhecimento acumulado em relação aos tópicos citados na frase anterior, sendo conhecida como Neodarwinismo.
Agora chegamos aos problemas. É óbvio que estas duas correntes de pensamento, o Criacionismo e o Neodarwinismo, têm poucas chances de coexistência pacífica, visto que são conflitantes em seu conteúdo. O Neodarwinismo foi elaborado com base em décadas e séculos de conhecimento científico, sendo que conta com diversas evidências que só podem ser colocadas à prova por alguém de idoneidade dúbia. Enquanto isso, o Criacionismo tem… bom, o Criacionismo tem a Bíblia… E a “evidência” é basicamente essa.
É de se estranhar que duas frentes de pensamento tão distintas possam tratar da mesma coisa, apesar de o papa atual, Bento XVI, ter afirmado em Agosto de 2007 que o debate entre criacionismo e evolucionismo – o nome mais usual dado ao neodarwinismo – “é um absurdo”, destacando que a teoria da evolução (científica) pode coexistir com a fé (não científica).
A explicação: “Esta oposição é um absurdo porque por um lado há muitos testes científicos a favor da evolução, mas por outro lado esta teoria não responde a grande pergunta filosófica “De onde vem tudo?”, com a qual se entende a ação de Deus”.
Enquanto isso, João Paulo II já havia dito que “a teoria da evolução é mais do que uma hipótese”; isto é, tem bases científicas. Ao contrário do que acontece com o criacionismo.
Para explicar o problema com tais afirmações e anúncios, transcrevo parte de um texto colocado pelo Prof. Felipe Aquino em seu blog de doutrina católica:
O caminho do meio não é uma opção
” … como vemos com este pronunciamento de Bento XVI, a Igreja Católica e o Magistério dos Papas não excluem a teoria evolucionista, desde que o início do processo evolutivo tenha tido origem partindo de Deus… Assim, a hipótese darwinista da evolução das espécies, é uma possível explicação ao lado do criacionismo que, também, tem a seu favor fortes razões filosóficas e não apenas religiosas ou bíblicas”.

Isso seria possível? Quando, de acordo com o mérito científico, poderíamos associar as duas teorias, sendo que uma possui embasamento estritamente “metafísico”, visto que não há (e quanto a isto não há discussão) prova alguma em favor do Criacionismo além da fé?
A resposta para a primeira pergunta é “não”. E a resposta para a segunda pergunta, num mundo em que a Ciência se desvencilhou dos dogmas espirituais e atingiu sua independência de pensamento e trabalho, é “nunca”.

Para mais sobre o assunto no Lablog:
Chi vó non pó
Idéias Cretinas