O lixo de uns é o tesouro de outros

por | maio 14, 2026 | Textos | 0 Comentários

A gente aposta que na sua casa têm celulares velhos, pilhas que não funcionam e cabos com má conexão, que ficam escondidos em algum lugar  porque não têm para onde ir. Mas você já pensou que esses produtos, apesar de não funcionarem mais, poderiam ser consertados ou, melhor, utilizados para produzir novos aparelhos? É essa ideia que fundamenta a mineração urbana e a logística reversa, estratégias que integram a  economia circular. Vamos entender mais sobre isso?

Autoria de Fernanda Nunes Ribeiro & Mariana Olimpio de Aquino

Revisão de Cyntia Vasconcelos de Almeida & Mayara de Carvalho Santos

A importância de separar papel, plástico, metal e vidro, todo mundo sabe: esses materiais podem ser reciclados, reduzindo o acúmulo de lixo no planeta. Mas o que impede que os nossos eletrodomésticos sigam o mesmo caminho, em vez de ficarem acumulando poeira na gaveta ou no fundo de um armário? Os Resíduos de Equipamentos Eletroeletrônicos (REEE) representam a maior parte dos Resíduos Sólidos Urbanos (RSU), com mais de 2 milhões de toneladas descartadas em 2020, e eles podem ser reaproveitados por meio de mineração urbana [1].

Em um modelo de economia linear, que é o mais aplicado atualmente, como o próprio nome sugere, a mineração funciona como uma linha: a matéria-prima é extraída do solo para produzir os equipamentos, que são vendidos para o público e, quando param de funcionar, são descartados, muitas vezes de forma incorreta. A mineração urbana propõe transformar essa linha em um círculo, sendo, portanto, parte da economia circular, ao recolher esses aparelhos no fim de sua vida útil e extrair materiais de interesse por processos químicos e físicos. Esses materiais podem, então, ser utilizados para produzir novos produtos, em vez de serem descartados, e isso não se aplica apenas a produtos eletrônicos, mas a qualquer produto descartado que possua esses minérios de interesse, como minas desativadas ou resíduos de construção civil  [1,2].

O processo começa com o pré-tratamento dos resíduos coletados, que é a seleção dos produtos que têm quantidades significativas de minérios e que podem ser extraídos. Os resíduos selecionados seguem para um tratamento mecânico que reduz seu tamanho para facilitar a separação do que é metal e do que não é. Os metais passam por processos de limpeza, que são a remoção de contaminantes e a separação, que podem incluir o uso de soluções químicas líquidas para remover impurezas, processo denominado lixiviação. O objetivo é recuperar o máximo de material possível, de forma sustentável, para que ele possa ser utilizado em novos produtos [1,2].

Só de evitar todo o processo usual da mineração, que envolve a perfuração do solo, peneiramento, concentração do minério, lixiviação, desaguamento da solução química residual e secagem, a aplicação da mineração urbana já reduz o impacto ambiental da obtenção de minérios. O problema é que ela ainda não é uma técnica “100% verde”, visto que usa processos danosos ao meio ambiente, como a lixiviação, já que gera um resíduo ácido contaminado pelas impurezas do resíduo, e, principalmente, como não é amplamente aplicada no Brasil, há muito gasto com transporte, o que gera gases de efeito estufa e perda de material. Estima-se que, em 2019, apenas 2% dos REEEs produzidos no Brasil foram reciclados, e há uma concentração de recicladoras especializadas no Sudeste, dificultando a implementação nacional da cadeia produtiva. Visto que a mineração urbana envolve processamentos mais específicos, como a lixiviação, esse tipo de reaproveitamento de resíduos é menos rentável do que a reciclagem de plástico, por exemplo, que já é aplicada em larga escala e é mais barata [1,2,3].

Apesar dessas dificuldades, a mineração urbana pode ser a solução para muitos problemas que enfrentamos atualmente: ao aproveitar minérios que já foram extraídos, diminui-se a demanda por novas minas, que podem causar grandes impactos ambientais e requerem anos para serem implementadas; afinal, não é em todo lugar que se encontra todo  tipo de minério. Além disso, mesmo com gastos com o transporte, a produção de gases de efeito estufa é muito menor do que a gerada pela mineração tradicional [3].

Logística reversa

Mas, além da mineração urbana, como é que estamos resolvendo o problema dos REEEs? No Brasil, foi instituída, em 2010, a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), que estabelece a formação de Sistemas de Logística Reversa (SLS), os quais colaboram com a reciclagem e o descarte correto dos REEE. Os sistemas de logística reversa são ferramentas que garantem que os resíduos retornem para as fábricas. Isso permite reaproveitar materiais e garantir que nada seja jogado fora de maneira prejudicial à natureza. [1].

De acordo com o Sinir (Sistema Nacional de Informações sobre a Gestão dos Resíduos Sólidos), a logística reversa é definida como: “um instrumento de desenvolvimento econômico e social caracterizado por um conjunto de ações, procedimentos e meios destinados a viabilizar a coleta e a restituição dos resíduos sólidos ao setor empresarial, para reaproveitamento, em seu ciclo ou em outros ciclos produtivos, ou outra destinação final ambientalmente adequada.” [4].

Mas afinal, o que é logística reversa no nosso dia a dia? A logística reversa é um processo que busca fazer com que produtos adquiridos pelos consumidores, ao chegarem ao fim de sua vida útil, retornem para o fabricante ou para pontos de recebimento. Na prática, isso seria como entregar um celular que parou de funcionar em um ponto de recebimento de eletroeletrônicos ou levar embalagens de cosméticos que já acabaram na loja onde foram adquiridas. 

Dessa forma, é importante que todo mundo ajude, pois a responsabilidade é compartilhada: tanto os consumidores quanto os fabricantes estão envolvidos nesse processo, tendo que atuar juntos para que os objetivos da logística reversa, que são  recuperar matéria-prima secundária e o descarte correto de resíduos, sejam alcançados. O consumidor tem o papel de descartar os produtos nas condições solicitadas e nos locais estabelecidos, enquanto o fabricante/setor privado é responsável pelo gerenciamento desses resíduos [4]. 

E o que podemos fazer para pôr em prática o processo de logística reversa?

No Brasil, empresas de alguns setores são obrigadas por lei a ter sistemas de logística reversa, e esse é o caso das fabricantes de eletroeletrônicos, por exemplo. Ao final da vida útil, os eletroeletrônicos, como celulares e tablets, computadores, fornos de micro-ondas, geladeiras, televisores, lâmpadas, entre outros, devem ser descartados de maneira ambientalmente correta, visto que esses resíduos podem causar contaminação e riscos à população, dependendo da composição de cada equipamento [5,6].

O sistema de logística reversa para esses equipamentos, por exemplo, segue algumas etapas  [6].

  1. Os consumidores descartam os eletroeletrônicos em pontos de recebimento e os resíduos devem ser  recebidos e armazenados corretamente. 
  2. Os resíduos são transportados até pontos de consolidação ou destinação final ambientalmente adequada (nesse momento é decidido se eles serão reutilizados, reciclados ou se passarão por recuperação da matéria-prima secundária ou descartados). 
  3. Os materiais selecionados são tratados da maneira adequada, seja para recuperação de minério, como na mineração urbana, ou para outro tipo de reaproveitamento.
  4. O que não dá para aproveitar é descartado corretamente em aterros. 

Pilhas e baterias são equipamentos eletroquímicos que também passam por logística reversa e até que é bem comum encontrar pontos de recebimento. Pode ser que você já tenha visto, em algum mercado ou outro estabelecimento, um local para descartar pilhas e baterias que já não funcionam mais (se você não viu, comece a reparar mais!). As etapas do processo da logística reversa para pilhas e baterias são bem parecidas com as dos eletroeletrônicos: os pontos de recebimento armazenam as pilhas recebidas e, ao atingir determinada quantidade, o material é encaminhado para o sistema de coleta e triagem e, após isso, ele é transportado para empresas de reciclagem [7].

Dessa forma, a mineração urbana e a logística reversa estão conectadas e fazem parte do modelo da economia circular. A logística reversa envolve o processo de coleta dos equipamentos eletroeletrônicos que chegaram ao fim de sua vida útil, por exemplo, e a mineração urbana refere-se ao processo de recuperação de matérias-primas secundárias desses resíduos. Ambos são essenciais para diminuir o impacto no meio ambiente, e começam com algo tão simples quanto jogar uma pilha usada no descarte correto! [8].

Referências Bibliográficas: 

  1. Contador, L; Freire, L.S.; Xavier, L.H. PARADOXOS DA LOGÍSTICA REVERSA DE RESÍDUOS ELETROELETRÔNICOS E A MINERAÇÃO URBANA NO BRASIL. 12º Fórum Internacional de Resíduos Sólidos, 2021, São Paulo. Disponível em: https://www.institutoventuri.org/ojs/index.php/FIRS/article/download/190/152. Acesso em: 19 abril 2026 
  2. Gonçalves, D.C.A; Dias, M.S.; Rocha, S.D.F.; MINERAÇÃO CONVENCIONAL VERSUS MINERAÇÃO URBANA: ASPECTOS GERAIS DA TRANSIÇÃO DE UM MODELO LINEAR PARA UM MODELO CIRCULAR. XXIX Encontro Nacional de Tratamento de Minérios e Metalurgia Extrativa, 2022, Rio de Janeiro. Disponível em: https://publicacoes.entmme.org/filebase/2022/GONCALVES,DCA%20DIAS,MS%20ROCHA,SDF%20-%20MINERACAO%20CONVENCIONAL%20VERSUS%20MINERACAO%20URBANA%20ASPECTOS%20GERAIS%20DA%20TRANSICAO%20DE%20UM%20MODELO%20LINEAR%20PARA%20UM%20MODELO%20CIRCULAR.PDF. Acesso em: 19 abril 2026 
  3. Freire, L.S; Xavier, L.H. A MINERAÇÃO URBANA DE RESÍDUOS ELETROELETRÔNICOS PODE REDUZIR AS EMISSÕES DE GASES DE EFEITO ESTUFA?. XXIX Jornada de Iniciação Científica, 2021, Rio de Janeiro. Disponível em: http://mineralis.cetem.gov.br/bitstream/cetem/2463/1/Larissa%20Sampaio%20Freire.pdf. Acesso em: 19 abril 2026 
  4. O que é Logística Reversa? SINIR+. Disponível em: https://sinir.gov.br/perfis/logistica-reversa/logistica-reversa/. Acesso em: 20 de abril de 2026. 
  5. Logística Reversa diminui impacto ambiental de diversos setores industriais. Ministério do Meio Ambiente. Disponível em: https://antigo.mma.gov.br/component/k2/item/15714-log%C3%ADstica-reversa-diminui-impacto-ambiental-de-diversos-setores-industriais.html. Acesso em: 20 de abril de 2026. 
  6. Eletroeletrônicos e seus componentes de uso doméstico. SINIR+. Disponível em: https://sinir.gov.br/perfis/logistica-reversa/logistica-reversa/eletroeletronicos/. Acesso em: 20 de abril de 2026. 
  7. Pilhas e Baterias. SINIR+. Disponível em: https://sinir.gov.br/perfis/logistica-reversa/logistica-reversa/pilhas-e-baterias/. Acesso em: 20 de abril de 2026. 
  8. O que é Mineração Urbana? CicloVivo. Disponível em: https://ciclovivo.com.br/oquee/o-que-e-mineracao-urbana/#:~:text=A%20atividade%20consiste%20em%20transformar%20esses%20res%C3%ADduos,como%20ferro%2C%20pl%C3%A1stico%20e%20metais%20n%C3%A3o%20ferrosos. Acesso em: 25 de abril de 2026.

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