Você se lembra de ter estudado sobre alimentação saudável na escola? Se sim, com certeza a imagem da pirâmide alimentar surgiu na sua cabeça, com as frutas, verduras, carnes e laticínios organizados para entendermos quanto devemos consumir de cada um. Mas você parou para pensar em quem decide quais alimentos entram nessa pirâmide? Ou a quantidade de cada um de que precisamos? Ou, ainda, como todo esse processo precisa ter muita ciência envolvida? Vem com o Sala V que vamos te mostrar o quão complexo é desenhar uma pirâmide!
Autoria de Fernanda Nunes Ribeiro & Mariana Olimpio de Aquino
Revisão de Cyntia Vasconcelos de Almeida & Mayara de Carvalho Santos
Vocês já viram por aí na internet a imagem de um triângulo com vários alimentos dentro? Pois é, isso é chamado de pirâmide alimentar. Quando pensamos em uma alimentação saudável, essa imagem serve como um guia sobre o que e em que proporção devemos comer: cereais embaixo, ocupando a maior parcela da dieta, seguidos pelas frutas, vegetais e, lá no topo, as carnes e gorduras, em porções menores. A nova pirâmide alimentar dos Estados Unidos, divulgada no início de 2026 pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos e pelo Departamento de Agricultura, possui uma ordem completamente diferente: [2]
Figura 1: Pirâmide alimentar dos EUA, 2025-2030.

Fonte: [2]
Contrariando as pirâmides anteriores dos Guias Alimentares Americanos (sigla em inglês DGA, tradução livre), o guia alimentar de 2025-2030 propõe uma nova pirâmide, que coloca em foco o consumo de proteínas de origem animal e de laticínios com gordura, alimentos caracterizados como naturais e ricos em nutrientes, associado ao slogan da campanha, que é “Coma comida de verdade” (do inglês, “Eat Real Food”). Esse novo guia alimentar introduz, de forma resumida, recomendações sobre o que se considera alimentação saudável para estadunidenses de todas as idades e desencoraja o consumo de alimentos ultraprocessados, com açúcares adicionados e sódio em qualquer quantidade. [1, 2, 3]
Parece bom, né? Mas tem caroço nesse angu…
Com essa grande mudança, vieram também grandes críticas. Por ser um documento menor do que nos anos anteriores (a edição de 2020-2025 possui quase 170 páginas, enquanto a atual possui apenas 10 páginas: muda bastante!), muitos nutricionistas questionaram a falta de informações importantes para a desconstrução de padrões anteriores. Apesar da forte crítica a alimentos ultraprocessados (definição que veio de estudos relativamente recentes), em momento algum o documento define esse tipo de alimento (mas você pode ver a definição brasileira no nosso glossário; confere lá!) e não dá instruções claras sobre quantas porções são recomendadas para cada categoria alimentar. Ou seja, faltam muitas informações importantes para uma mudança tão grande!
Ao se referir ao consumo de álcool, por exemplo, a recomendação é traduzida literalmente como “Consuma menos álcool para uma melhor saúde geral”, sem definir o que seria “menos”. Críticos também discordam da forma como a pirâmide foi organizada, com o foco visual em carnes e gorduras, apesar de o documento destacar que o consumo de gorduras deve ser menor que 10% das calorias totais, enquanto mantém a mesma quantidade de porções recomendadas para cereais e grãos dos guias anteriores, mas reduzida na representação, o que pode confundir quem não leu integralmente o documento e só teve acesso à imagem. [4, 5]
Há também críticas à forma como o DGA foi organizado. Desde 2015, o processo de elaboração do guia alimentar estadunidense começa com a formação de um comitê externo, que prepara um relatório científico com todas as informações potencialmente relevantes. Esse relatório é revisado por nutricionistas, engenheiros de alimentos e profissionais da saúde, que devem indicar se há possíveis conflitos de interesse em suas atuações.
O objetivo do comitê interno, então, é usar esse relatório para atualizar o DGA anterior, encaminhando as próximas políticas alimentares do país. Porém, para o guia de 2025-2030, o comitê interno resolveu não acatar as recomendações do relatório científico feito pelo comitê externo, realizando um estudo novo só com a equipe interna, que foi revisado por profissionais da indústria alimentícia, e produzindo um guia “do zero”. A justificativa do comitê interno para não utilizar informações externas é que o relatório científico foi produzido sob a perspectiva das “lentes de equidade alimentar”, ou seja, considerando fatores socioeconômicos; por exemplo, se a recomendação é comer frutas orgânicas, mas por algum motivo você não tem acesso a isso, é melhor que você coma frutas embaladas do que não comer frutas. Essas “substituições”, de acordo com o comitê interno 2025-2030, não trouxe dados científicos claros para a população estadunidense, e é por esse motivo que o guia saiu um ano atrasado, em 2026. [3, 4, 5, 6]
A questão que preocupa os críticos é justamente a falta de rigor científico do novo estudo, produzido internamente, com critérios que sequer foram apresentados de forma clara (será que houve declaração de conflito de interesse?). O relatório científico externo pode ser visto e comentado por outros profissionais enquanto é produzido, a fim de reduzir qualquer preconceito ou enviesamento durante o processo. O comitê externo era escolhido publicamente, com longas entrevistas para esclarecer conflitos de interesse, enquanto o comitê interno não passava por esse processo, por estar atrelado ao governo.
Além disso, muitos dos cientistas escolhidos para revisar o documento atual possuem laços com a indústria de carnes e laticínios, o que pode ter influenciado a predominância desses alimentos na pirâmide alimentar, na visão de pesquisadores da área. Ou seja, não foi esclarecido como nem quem obteve as evidências científicas que agora vão fundamentar o novo modelo de alimentação estadunidense para escolas, presídios e fundações de apoio social nos próximos 5 anos! [3, 4, 5, 6]
Esse tema nos faz perceber que mesmo os assuntos que parecem tão cotidianos, como nossa alimentação, precisam se sustentar em bases científicas. Determinar o que é saudável e o que não é na alimentação de milhões de pessoas exige muito estudo, testes e evidências científicas. Não é algo que podemos definir “da nossa cabeça” ou da noite para o dia, sem critérios evidentes e discutidos exaustivamente. E, principalmente, nós precisamos entender esses estudos para podermos fazer escolhas adequadas para a gente nas nossas refeições, desde o arroz, o feijão, a salada, o bife, a batata frita… Sentiu fome aí também?
Referências Bibliográficas
- EAT Real Food. U.S. Department of Health and Human Services, Janeiro 2026. Disponível em: https://realfood.gov/. Acesso em: 23/05/2026
- DIETARY Guidelines For Americans 2025-2030. U.S. Department of Health and Human Services e U.S. Department of Agriculture, Janeiro 2026. Disponível em: https://cdn.realfood.gov/DGA.pdf. Acesso em: 23/05/2026
- THE SCIENTIFIC Foundation for the Dietary Guidelines for Americans, 2025–203 U.S. Department of Health and Human Services e U.S. Department of Agriculture, Janeiro 2026. Disponível em: https://cdn.realfood.gov/Scientific%20Report.pdf. Acesso em: 23/05/2026
- DIETARY Guidelines for Americans 2025-2030: Progress on added sugar, protein hype, saturated fat contradictions. The Nutrition Source, Janeiro 2026. Disponível em: https://nutritionsource.hsph.harvard.edu/2026/01/09/dietary-guidelines-for-americans-2025-2030/. Acesso em: 23/05/2026
- ROEDER, Amy. Understanding the new Dietary Guidelines for Americans. Harvard T.H. CHAN, School of Publich Health, Janeiro 2026. Disponível em: https://hsph.harvard.edu/news/understanding-the-new-dietary-guidelines-for-americans/. Acesso em: 23/05/2026
- OPTIMIZING the Process for Establishing the Dietary Guidelines for Americans: The Selection Process. National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine, Washington – DC, 2017. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK469947/. Acesso em 26/05/2026


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