Crises, ficção especulativa e crítica da economia política contemporânea

Por: Leonardo Dias Nunes

The Ministry for the Future [1], do escritor norte-americano Kim Stanley Robinson, é uma obra de ficção climática (cli-fi) que combina diferentes registros textuais para construir um enredo futurista em torno de uma questão urgente: como salvar o planeta do aquecimento global. A saída proposta na trama gira em torno da criação de uma moeda baseada em créditos de carbono e de uma política monetária global voltada à sustentabilidade.

O romance entrelaça temas como crise climática, crítica da economia política, política monetária, refugiados ambientais, inovação tecnológica, desigualdade e violência social. Diante dessa combinação instigante, a leitura da obra de Robinson ganha especial relevância neste momento em que o Brasil se prepara para sediar a COP30, em Belém.

A conjuntura atual se caracteriza pelas crises múltiplas no capitalismo contemporâneo – econômica, política, social, demográfica, ecológica e epistemológica – que corroem a sociabilidade do indivíduo moderno e o isola em meio às incertezas do neoliberalismo [2]. Em relação à crise ambiental, pensadoras como Saskia Sassen [3] e Eduardo Sá Barreto [4] lembram que a lógica capitalista é, por natureza, destrutiva do meio ambiente e que, independentemente do regime político, os Estados nacionais reproduzem essa destruição.

No romance, tudo começa com uma onda de calor devastadora na Índia, responsável por milhões de mortes em poucos dias. O trauma coletivo leva à criação do Ministério para o Futuro, instituição comandada por Mary Murphy, que busca implementar uma moeda lastreada na captura de carbono. Para tanto, essa policy maker precisa negociar com banqueiros, os representantes das forças mais poderosas e reacionárias do planeta.

Robinson conhece bem as relações entre ciência econômica e poder. Com uma crítica incisiva, ele denuncia um campo do saber que sustenta um status quo em crise e que necessita de uma profunda reforma. Ao resenhar o livro, o filósofo Steven Shaviro [5] observa que essas propostas reformistas presentes no livro representam, na verdade, o realismo de nosso tempo.

Ao longo da narrativa, o autor constrói um vasto repertório de críticas à economia dominante. Ele questiona os limites da economia neoclássica, a incapacidade da macroeconomia em explicar fenômenos complexos como a inflação e a contradição entre o discurso neoliberal e seus resultados concretos, sobretudo no que tange à concentração de renda e ao agravamento da desigualdade global.

Um momento a ser destacado ocorre no capítulo 64, quando Robinson revisita a ideia de eutanásia do rentista, proposta por John Maynard Keynes em sua Teoria Geral. O autor explora a etimologia do termo eutanásia, que significa morte suave, e enfatiza que o rentista não sofre, tampouco deseja morrer. Assim, para Robinson, Keynes usou um eufemismo para expressar a necessidade radical de eliminar o rentismo como forma de libertar a economia. Seria, portanto, uma revolução sem revolução, uma reforma profunda do capitalismo.

A trama de The Ministry for the Future reflete um mundo atravessado por crises, especialmente a climática. Embora não seja possível confirmar de forma objetiva, identifica-se afinidades entre as ideias de Robinson e as ideias de Mariana Mazzucato [6] e Thomas Piketty [7], pois o autor também observa a necessidade de um Estado empreendedor, capaz de intervir decisivamente para resolver problemas ambientais, e de uma utopia tributária, baseada na taxação do capital global.

Em um contexto em que existe uma imensa dificuldade para imaginar novos futuros possíveis, a ficção de Robinson se torna ainda mais relevante porque nos convida a pensar o que ainda não foi pensado, a imaginar horizontes alternativos e a formular políticas globais de cooperação e justiça climática.

The Ministry for the Future, ainda sem tradução para o português, é mais que uma ficção especulativa sobre o futuro, é um exercício crítico de imaginação política que antecipa debates centrais que poderão ocorrer na COP30 e provoca uma pergunta fundamental: que tipo de mundo queremos construir a partir das ruínas do presente?

* Este artigo foi originalmente publicado no site do Le Monde Diplomatique – Brasil.

Notas

[1] ROBINSON, Kim Stanley. The Ministry for the Future: A Novel. Orbit, 2020.

[2] NUNES, Leonardo Dias. Uma teia em construção: leituras sobre a crise capitalista. Blog Sobre Economia. Link.

[3] SASSEN, Saskia. Expulsões: brutalidade e complexidade na economia global. Editora Paz e Terra, 2020.

[4] SÁ BARRETO, Eduardo. O capital na estufa: para a crítica da economia das mudanças climáticas. Rio de Janeiro: Consequência, 2018.

[5] SHAVIRO, Steven. Optimism in the Face of Catastrophe: Kim Stanley Robinson’s The Ministry for the Future. Studies in the Fantastic, v.10, n.1, p.108–114, 2020.

[6] MAZZUCATO, Mariana. O Estado Empreendedor: desmascarando o mito do setor público vs. setor privado. Portfolio-Penguin, 2014.

[7] PIKETTY, Thomas. O Capital no Século XXI. Editora Intrínseca, 2014.

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