Por: Leonardo Dias Nunes
No livro Cabo de guerra, Ivone Benedetti criou um personagem inspirado no protagonista do livro Ilusões perdidas de Balzac. O personagem francês perdeu todas as suas ilusões em Paris, já o brasileiro, jamais teve alguma paixão na vida. Na cidade de São Paulo, durante a ditadura militar, acompanhamos a sua tentativa de conciliar uma vida entre dois mundos contrários com a pretensão de tirar algum proveito da situação. Era um rapaz limitado, não lia muito, apenas passeava pelas linhas dos livros para não passar vergonha se fosse questionado sobre algo. Não sabia dizer “não”, muitas vezes também não sabia dizer “sim”. Se nem monossilábico sabia ser, não resta dúvida de que a complexidade de seus pensamentos jamais foi exteriorizada em orações que prezavam pela coerência. Mas não deve haver ilusão, o personagem é complexo e a todo momento apresenta ao leitor as perguntas que o inquietam. A história do protagonista é a crônica de uma morte anunciada. O leitor atento percebe que o personagem principal certamente encontraria adversários mais competentes do que ele tanto no lado da repressão como no lado dos comunistas. Assim aconteceu, e o protagonista teve um fim trágico e simbólico: viveu a delatar e foi calado violentamente. Um final inserido em uma tragédia cotidiana muito maior. Trata-se de um romance histórico que apresenta uma violência que calou e ainda cala muita gente, pois o Estado de exceção se metamorfoseia para continuar violentando.
BENEDETTI, Ivone. Cabo de guerra. São Paulo: Boitempo Editorial, 2016.
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