{"id":1053,"date":"2022-09-01T15:08:13","date_gmt":"2022-09-01T18:08:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/?p=1053"},"modified":"2022-09-01T15:08:14","modified_gmt":"2022-09-01T18:08:14","slug":"alvaro-vieira-pinto-ciencia-e-superacao-do-subdesenvolvimento-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/2022\/09\/01\/alvaro-vieira-pinto-ciencia-e-superacao-do-subdesenvolvimento-ii\/","title":{"rendered":"\u00c1lvaro Vieira Pinto: ci\u00eancia e supera\u00e7\u00e3o do subdesenvolvimento (II)"},"content":{"rendered":"<p><em>Por: <strong>Leonardo Dias Nunes<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Esta \u00e9 a segunda parte do artigo <em>\u00c1lvaro Vieira Pinto: Ci\u00eancia para a supera\u00e7\u00e3o do subdesenvolvimento<\/em>. Para acessar a primeira parte, <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/2022\/04\/04\/alvaro-vieira-pinto-ciencia-e-superacao-do-subdesenvolvimento-i\/\"><strong><em>clique aqui<\/em><\/strong><\/a>.<\/p>\n<p><strong><em>1. Consci\u00eancia, ideologia, projeto e desenvolvimento nacional<\/em><\/strong><\/p>\n<p>\u00c1lvaro Vieira Pinto, na obra <em>Ideologia e desenvolvimento nacional <strong>[1]<\/strong><\/em>, publicada em 1956, observava o aumento do n\u00famero de pessoas que buscavam forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria devido \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o estrutural que ocorria no Brasil. Diante da aquisi\u00e7\u00e3o de conhecimentos mais complexos, parte da popula\u00e7\u00e3o brasileira se tornava consciente da diferen\u00e7a do n\u00edvel de desenvolvimento existente entre a economia subdesenvolvida do Brasil e as outras economias desenvolvidas. Para o autor, na medida em que essas pessoas tomavam a consci\u00eancia dessa diferen\u00e7a, surgia a possibilidade da cria\u00e7\u00e3o de uma ideologia popular de desenvolvimento nacional.<\/p>\n<p>Para \u00c1lvaro Vieira Pinto, a ideologia estava fundamentada na forma como os integrantes de uma na\u00e7\u00e3o se compreendiam e como eles buscavam transformar a pr\u00f3pria exist\u00eancia material. Para que essa transforma\u00e7\u00e3o ocorresse, seria necess\u00e1ria a cria\u00e7\u00e3o de um projeto de desenvolvimento nacional com finalidades, metas e etapas. Ao ser colocado em execu\u00e7\u00e3o, o projeto se tornaria um processo hist\u00f3rico realizador do desenvolvimento nacional. Por fim, diante da din\u00e2mica hist\u00f3rica presente nessa interpreta\u00e7\u00e3o, o ciclo deveria ser avaliado e corrigido de acordo com novas finalidades que surgiriam com o passar do tempo.<\/p>\n<p>Dessa forma sucinta apresentamos a rela\u00e7\u00e3o existente entre a tomada de consci\u00eancia da realidade nacional, a cria\u00e7\u00e3o de uma ideologia, a elabora\u00e7\u00e3o de um projeto e o desenvolvimento nacional. No livro <em>Consci\u00eancia e realidade nacional <strong>[2]<\/strong><\/em>, publicado em 1960, \u00c1lvaro Vieira Pinto continuou a desenvolver argumentos sobre o desenvolvimento nacional. Nessa obra, o autor mostrou que n\u00e3o desprezava a contradi\u00e7\u00e3o existente entre o capital e o trabalho, pois entendia que existia uma pluralidade de contradi\u00e7\u00f5es na sociedade. Por isso, afirmava ser necess\u00e1rio diagnosticar corretamente a contradi\u00e7\u00e3o principal de um determinado tempo hist\u00f3rico e, para ele, a principal contradi\u00e7\u00e3o de seu tempo era aquela fundada na domina\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses subdesenvolvidos pelos pa\u00edses desenvolvidos. Essa rela\u00e7\u00e3o de dom\u00ednio estava assentada nas pr\u00e1ticas imperialistas que subordinavam as economias subdesenvolvidas. Ao observar essa realidade, o autor afirmava ser necess\u00e1ria a cria\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas nacionalistas para a supera\u00e7\u00e3o dessa contradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O autor argumentava que nos pa\u00edses subdesenvolvidos existia uma limita\u00e7\u00e3o da t\u00e9cnica existente para a apreens\u00e3o e a resolu\u00e7\u00e3o dos problemas presentes na sociedade. A supera\u00e7\u00e3o dessa limita\u00e7\u00e3o ocorreria com a <em>acumula\u00e7\u00e3o qualitativa de trabalho<\/em> na sociedade, que tamb\u00e9m pode ser entendida como a <em>acumula\u00e7\u00e3o social de trabalho complexo<\/em>. \u00c9 assim que o conhecimento cient\u00edfico entra na argumenta\u00e7\u00e3o do autor, pois a cria\u00e7\u00e3o desse tipo de conhecimento \u00e9 a mais complexa atividade que o homem pode realizar, al\u00e9m de ser esse conhecimento que possibilitaria a supera\u00e7\u00e3o do subdesenvolvimento.<\/p>\n<p><strong style=\"color: initial\"><em>2. A pesquisa cient\u00edfica e suas contradi\u00e7\u00f5es<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Como o conhecimento cient\u00edfico \u00e9 produzido atrav\u00e9s da pr\u00e1tica da pesquisa cient\u00edfica, \u00c1lvaro Vieira Pinto caracterizou essa pr\u00e1tica no livro <em>Ci\u00eancia e exist\u00eancia <strong>[3]<\/strong><\/em>, publicado em 1969. Para o autor, a pesquisa cient\u00edfica deveria ser entendida como uma experimenta\u00e7\u00e3o possuidora de <em>finalidade<\/em>, realizada de acordo com as <em>necessidades sociais<\/em>, produzida de forma <em>coletiva<\/em> e qualificada como um produto do <em>trabalho humano<\/em>. Ao compreender a pesquisa cient\u00edfica dessa forma, surgia a possibilidade de problematizar melhor o car\u00e1ter, os limites e os resultados do trabalho do homem de ci\u00eancia no pa\u00eds subdesenvolvido. Essa problematiza\u00e7\u00e3o foi apresentada atrav\u00e9s de quatro contradi\u00e7\u00f5es existentes na pr\u00e1tica da pesquisa cient\u00edfica.<\/p>\n<p>A <em>primeira<\/em> contradi\u00e7\u00e3o que o homem de ci\u00eancia possui no pa\u00eds subdesenvolvido \u00e9 a de possuir o treinamento para resolver problemas que n\u00e3o recebem financiamento para serem resolvidos. Essa situa\u00e7\u00e3o, muitas vezes, pode criar no pesquisador sentimentos relacionados com a frustra\u00e7\u00e3o, a fuga, a aliena\u00e7\u00e3o e a ren\u00fancia. Mas, o autor sugeria que o pesquisador n\u00e3o deixasse de lutar pelo desenvolvimento nacional e que n\u00e3o deixasse de aceitar a realidade nacional tal qual ela era, pois somente a partir dessa aceita\u00e7\u00e3o que se poderia criar projetos de transforma\u00e7\u00e3o exequ\u00edveis.<\/p>\n<p>A <em>segunda<\/em> contradi\u00e7\u00e3o estava relacionada \u00e0 compreens\u00e3o da diferen\u00e7a entre o <em>trabalho repetitivo<\/em> e o <em>trabalho inventivo<\/em> existente na pr\u00e1tica da pesquisa cient\u00edfica. Por um lado, no trabalho cient\u00edfico repetitivo, o pesquisador tem a t\u00e9cnica de fazer bem-feito aquilo que deve ser feito. Por outro lado, no trabalho cient\u00edfico inventivo, o pesquisador precisa usar a sua t\u00e9cnica para criar o novo. Essa atividade \u00e9 entendida como revolucion\u00e1ria e criadora de novas contradi\u00e7\u00f5es. <span style=\"font-size: 10pt\">Um exemplo pode nos ajudar a compreender essa diferen\u00e7a nos dias de hoje: um grupo de pesquisa especializado na produ\u00e7\u00e3o de uma vacina criada na d\u00e9cada de 1950 possui um conhecimento estabelecido h\u00e1 muito tempo. J\u00e1 um grupo de pesquisa estabelecido para a produ\u00e7\u00e3o da vacina da covid-19 teve que criar um conhecimento que ainda n\u00e3o existia. O primeiro grupo pode ser entendido como possuidor de um conhecimento repetitivo. O segundo grupo pode ser entendido como possuidor de um conhecimento inventivo.<\/span><\/p>\n<p>A <em>terceira<\/em> contradi\u00e7\u00e3o estava relacionada aos instrumentos culturais utilizados na pesquisa cient\u00edfica. Esses instrumentos s\u00e3o <em>1)<\/em> as ideias recebidas de gera\u00e7\u00f5es passadas, <em>2)<\/em> os livros e os laborat\u00f3rios que s\u00e3o entendidos como ideais materializadas e <em>3)<\/em> as instala\u00e7\u00f5es, as institui\u00e7\u00f5es e o regime social de trabalho.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 foi dito acima, o conhecimento cient\u00edfico \u00e9 o que de mais complexo o homem pode criar, consequentemente, seu custo financeiro \u00e9 alto. Logo, as diferen\u00e7as econ\u00f4micas entre os pa\u00edses, levam \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o do conhecimento cient\u00edfico e \u00e0 exist\u00eancia de melhores condi\u00e7\u00f5es de pesquisa nos pa\u00edses mais ricos. Dessa afirma\u00e7\u00e3o, surge outra, originada por consequ\u00eancia l\u00f3gica, a de que os pa\u00edses desenvolvidos possuem melhores instrumentos culturais. Para o autor, atrav\u00e9s da sedu\u00e7\u00e3o dos pesquisadores de pa\u00edses subdesenvolvidos com ideias, materiais, assuntos e problemas levantados em pa\u00edses desenvolvidos caminhava-se para a aceita\u00e7\u00e3o de ideias falsas sobre a realidade dos pa\u00edses subdesenvolvidos.<\/p>\n<p>Ao apresentar a<em> quarta<\/em> contradi\u00e7\u00e3o, \u00c1lvaro Vieira Pinto afirmava que, nos pa\u00edses subdesenvolvidos, os centros de pesquisa absorviam profissionais sem a aut\u00eantica capacidade para a pr\u00e1tica cient\u00edfica, pois muitos buscavam apenas o destaque social exigido no \u00e2mbito familiar, fato que acarretava inefici\u00eancia a essas institui\u00e7\u00f5es. Entretanto, tal problema s\u00f3 poderia ser reparado com a transforma\u00e7\u00e3o total da sociedade em que tais centros estavam inseridos.<\/p>\n<p>Diante dessas contradi\u00e7\u00f5es existentes na pr\u00e1tica cient\u00edfica de pa\u00edses subdesenvolvidos, \u00c1lvaro Vieira Pinto argumentava que a condu\u00e7\u00e3o de pesquisas cient\u00edficas deveria ser feita por pesquisadores possuidores de consci\u00eancia cr\u00edtica orientada pela totalidade, humildade, aceita\u00e7\u00e3o da realidade e nega\u00e7\u00e3o da sedu\u00e7\u00e3o alienadora. Para o autor, na \u201c(&#8230;) escolha entre a atitude de aceita\u00e7\u00e3o da aliena\u00e7\u00e3o ou de luta em favor da desaliena\u00e7\u00e3o define-se a personalidade existencial do trabalhador cient\u00edfico\u201d <strong><em>[4]<\/em><\/strong>.<\/p>\n<p><strong style=\"color: initial\"><em>3. Considera\u00e7\u00f5es finais<\/em><\/strong><\/p>\n<p>As reflex\u00f5es de \u00c1lvaro Vieira Pinto sobre as rela\u00e7\u00f5es entre a produ\u00e7\u00e3o de conhecimento cient\u00edfico e a possibilidade de supera\u00e7\u00e3o do subdesenvolvimento fazem parte de um per\u00edodo hist\u00f3rico em que parte da sociedade brasileira debatia e se organizava para buscar a constru\u00e7\u00e3o de projetos e a execu\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas para a supera\u00e7\u00e3o do subdesenvolvimento. Contemporaneamente, essa discuss\u00e3o est\u00e1 em um n\u00edvel inferior e a possibilidade de supera\u00e7\u00e3o do subdesenvolvimento encontra-se mais distante e, para alguns int\u00e9rpretes, hoje h\u00e1 uma impossibilidade dessa supera\u00e7\u00e3o. Entretanto, a obra de \u00c1lvaro Vieira Pinto merece ser lida para que tenhamos a possibilidade de conhecer o pensamento de um autor que foi banido do debate intelectual brasileiro e para que reflitamos sobre a necessidade e as condi\u00e7\u00f5es de financiamento da produ\u00e7\u00e3o de conhecimento cient\u00edfico orientado para a resolu\u00e7\u00e3o dos problemas materiais da sociedade brasileira.<\/p>\n<p><b><i>4. Refer\u00eancias<\/i><\/b><\/p>\n<p><strong>[1]<\/strong> PINTO, \u00c1. V. <em>Ideologia e desenvolvimento nacional<\/em>. 2. ed. Rio de Janeiro: ISEB, 1959.<\/p>\n<p><strong>[2]<\/strong> PINTO, \u00c1. V. P. <em>Consci\u00eancia e realidade nacional: volume I: a consci\u00eancia ing\u00eanua.<\/em> 1. ed. Rio de Janeiro: Contraponto, 2020.<\/p>\n<p><strong>[3]<\/strong> PINTO, \u00c1. V. <em>Ci\u00eancia e exist\u00eancia<\/em>. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1969.<\/p>\n<p><strong>[4]<\/strong> (PINTO, 1969, p.350).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Por: Leonardo Dias Nunes Esta \u00e9 a segunda parte do artigo \u00c1lvaro Vieira Pinto: Ci\u00eancia para a supera\u00e7\u00e3o do subdesenvolvimento. 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