{"id":1160,"date":"2023-02-06T20:08:58","date_gmt":"2023-02-06T23:08:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/?p=1160"},"modified":"2023-02-06T20:08:59","modified_gmt":"2023-02-06T23:08:59","slug":"mundializacao-do-capital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/2023\/02\/06\/mundializacao-do-capital\/","title":{"rendered":"Mundializa\u00e7\u00e3o do capital"},"content":{"rendered":"\n<p>Por: <em><strong>Leonardo Dias Nunes<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong><em>Introdu\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Ao longo do ano de 2023, meus artigos estar\u00e3o relacionados \u00e0 economia mundial contempor\u00e2nea. Espero que essa escolha contribua para que a leitora e o leitor do <em>Blog Sobre Economia<\/em> consigam conhecer e relacionar fatos e interpreta\u00e7\u00f5es relacionados a esse campo do conhecimento. Come\u00e7arei apresentando um artigo sobre a <em>mundializa\u00e7\u00e3o do capital<\/em>, conceito relevante para a compreens\u00e3o da economia contempor\u00e2nea e que me possibilitar\u00e1 estabelecer conex\u00f5es com outros assuntos nos pr\u00f3ximos artigos.<\/p>\n<p>De acordo com o economista franc\u00eas Fran\u00e7ois Chesnais <strong>[1]<\/strong>, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990, a economia mundial entrava em um novo regime de acumula\u00e7\u00e3o por cinco raz\u00f5es. Primeira, taxas de crescimento do PIB muito baixas. Segunda, exist\u00eancia de defla\u00e7\u00e3o, instabilidade e sobressaltos monet\u00e1rios. Terceira, alto n\u00edvel de desemprego. Quarta, marginaliza\u00e7\u00e3o de regi\u00f5es do sistema de trocas. Quinta, concorr\u00eancia internacional intensa. Esse novo regime era comandado pelos fundos m\u00fatuos de investimento, fundos de pens\u00e3o e Estados nacionais mais poderosos da economia mundial.<\/p>\n<p>Para Chesnais, a transi\u00e7\u00e3o para o novo regime de acumula\u00e7\u00e3o ocorreu quando a ilus\u00e3o da possibilidade de domar o capital perdia ainda mais sua for\u00e7a, seja pela intensa acumula\u00e7\u00e3o de capital realizada durantes os trinta anos gloriosos do p\u00f3s-guerra, seja pela transforma\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es entre o capital e o trabalho com a cria\u00e7\u00e3o das tecnologias de informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o, ou ainda, pela realiza\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de desregulamenta\u00e7\u00e3o e privatiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Levando estes elementos em considera\u00e7\u00e3o, a <em>mundializa\u00e7\u00e3o do capital<\/em> deve ser entendida como a express\u00e3o de um per\u00edodo hist\u00f3rico da economia contempor\u00e2nea em que surgiram oligop\u00f3lios mundiais com grande poder financeiro e que, por isso, conseguiram transformar institui\u00e7\u00f5es e regulamenta\u00e7\u00f5es nacionais de acordo com o pr\u00f3prio interesse de reprodu\u00e7\u00e3o do capital.<\/p>\n<p><strong><em>Os grupos industriais<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A imensa acumula\u00e7\u00e3o de capital, o estado de sobreprodu\u00e7\u00e3o e as mudan\u00e7as nas rela\u00e7\u00f5es entre o capital e o trabalho possibilitaram a <em>mundializa\u00e7\u00e3o do capital<\/em>. Mas, tamb\u00e9m deve ser observado o papel das novas tecnologias nesse processo. Isso porque as tecnologias de informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o (TICs) auxiliaram no processo de internacionaliza\u00e7\u00e3o dos grupos industriais, gerando uma transforma\u00e7\u00e3o na forma de controle e gerenciamento das rela\u00e7\u00f5es laborais e permitindo um aumento de produtividade. Nesse novo cen\u00e1rio, por um lado, as rela\u00e7\u00f5es laborais foram flexibilizadas e, por outro, as empresas subcontratadas passaram a receber o \u00f4nus das oscila\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas.<\/p>\n<p>A nova configura\u00e7\u00e3o da economia mundial levou \u00e0 forma\u00e7\u00e3o dos oligop\u00f3lios mundiais devido aos processos de centraliza\u00e7\u00e3o e concentra\u00e7\u00e3o do capital. E, consequentemente, foi percebido que as estruturas industriais que ofertavam produtos com alta intensidade de pesquisa e desenvolvimento tornaram-se mais concentradas.<\/p>\n<p><em><strong>A valoriza\u00e7\u00e3o do capital-dinheiro<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Chesnais explica que os lucros n\u00e3o remetidos e n\u00e3o reinvestidos na produ\u00e7\u00e3o expandiram o mercado de eurod\u00f3lares em meados da d\u00e9cada de 1960. Posteriormente, com a reciclagem dos petrod\u00f3lares nesses mercados, pa\u00edses da <em>Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico \u2013 OCDE<\/em> conseguiram superar a recess\u00e3o originada do Primeiro Choque do Petr\u00f3leo. J\u00e1 no final da d\u00e9cada de 1970, os financiamentos para as economias do Terceiro Mundo fizeram com que a d\u00edvida p\u00fablica desses pa\u00edses aumentasse e fortalecesse a esfera financeira da economia mundial.<\/p>\n<p>Devido a essas transforma\u00e7\u00f5es da economia mundial, novas institui\u00e7\u00f5es como os fundos de pens\u00e3o surgiram para gerir as gigantescas massas financeiras que buscavam a m\u00e1xima rentabilidade e mobilidade do capital e a m\u00e1xima flexibilidade das regras de controle do capital. Essas novas pr\u00e1ticas possibilitaram a centraliza\u00e7\u00e3o de capitais dispersos que jamais haviam se beneficiado de um per\u00edodo t\u00e3o longo de acumula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi apenas em 1979, no governo de Margaret Thatcher, que houve a liberaliza\u00e7\u00e3o total dos movimentos de capital, tais como a desregulementa\u00e7\u00e3o, a desintermedia\u00e7\u00e3o e a descompartimenta\u00e7\u00e3o monet\u00e1rias e financeiras. Tais a\u00e7\u00f5es constru\u00edram um espa\u00e7o financeiro hierarquizado e estruturado no \u00e2mbito mundial que estava aberto para a supress\u00e3o de regulamenta\u00e7\u00f5es financeiras atrav\u00e9s das inova\u00e7\u00f5es financeiras.<\/p>\n<p><strong><em>A polariza\u00e7\u00e3o da riqueza<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Com a <em>mundializa\u00e7\u00e3o do capital<\/em> os fluxos de trocas podem ser criados e destru\u00eddos constantemente. Assim, para que os investimentos sejam realizados em uma determinada economia nacional, torna-se necess\u00e1rio que nela existam boas condi\u00e7\u00f5es de lucratividade e mobilidade de capital. Diante dessas condi\u00e7\u00f5es, as novas opera\u00e7\u00f5es de investimento criam um processo de <em>integra\u00e7\u00e3o seletiva<\/em> e, por outro lado, \u00e9 criado o processo contr\u00e1rio, que \u00e9 a <em>desconex\u00e3o for\u00e7ada<\/em> daquelas regi\u00f5es que j\u00e1 n\u00e3o apresentam atratividade ao capital e que se tornaram <em>zonas de pobreza<\/em>.<\/p>\n<p>Com a <em>mundializa\u00e7\u00e3o do capital<\/em>, muitas economias que estavam na rota do desenvolvimento tornaram-se <em>zonas de pobreza<\/em> devido \u00e0 <em>desconex\u00e3o for\u00e7ada<\/em>.<\/p>\n<p><strong><em>Os encadeamentos depressivos cumulativos<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A hip\u00f3tese apresentada por Chesnais \u00e9 a de que a economia mundial caminhava para um tipo de crescimento baixo, inst\u00e1vel, conflituoso, com desemprego e com defla\u00e7\u00e3o. O autor argumentou que a mobilidade do capital produtivo trouxe conjuntamente a press\u00e3o por redu\u00e7\u00e3o de custos e a r\u00e1pida automatiza\u00e7\u00e3o. O resultado dessas novas a\u00e7\u00f5es foi o enfraquecimento do quadro sociopol\u00edtico do Estado-na\u00e7\u00e3o e suas consequ\u00eancias podem ser observadas nos componentes da demanda efetiva <strong>[2]<\/strong>.<\/p>\n<p>No que tange ao <em>consumo das fam\u00edlias<\/em>, houve uma diminui\u00e7\u00e3o da renda do trabalho assalariado e uma redistribui\u00e7\u00e3o da renda nacional em proveito dos rentistas. J\u00e1 ao analisar o <em>gasto p\u00fablico<\/em>, o autor observou que a redu\u00e7\u00e3o do emprego e do consumo diminu\u00edram a base tribut\u00e1ria. Por outro lado, houve uma redu\u00e7\u00e3o da carga tribut\u00e1ria que incidia sobre o capital e seus rendimentos e um aumento da d\u00edvida p\u00fablica. Por fim, o <em>investimento<\/em> adquiriu um dinamismo m\u00e9dio ou fraco por se concentrar em processos de fus\u00f5es e aquisi\u00e7\u00f5es que buscam reestrutura\u00e7\u00e3o e racionaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Existe um debate amplo sobre a mundializa\u00e7\u00e3o do capital e suas consequ\u00eancias <strong>[3]<\/strong>, esse \u00e9 um assunto que certamente pode render outros artigos. Al\u00e9m disso, tendo apreendido esse conceito, podemos ir al\u00e9m e nos aprofundar nas discuss\u00f5es em torno das consequ\u00eancias econ\u00f4micas e sociais da mundializa\u00e7\u00e3o do capital. Esse caminho \u00e9 amplo e possuidor de debates no \u00e2mbito te\u00f3rico e pol\u00edtico. Enfim, \u00e9 o caminho que de alguma forma ser\u00e1 trilhado nesse ano de 2023.<\/p>\n<p><em><strong>Notas<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>[1]<\/strong> CHESNAIS, F. A globaliza\u00e7\u00e3o e o curso do capitalismo do fim-de-s\u00e9culo. <em>Economia e sociedade<\/em>, v. 5, p. 1\u201330, dez. 1995. Esse artigo est\u00e1 dispon\u00edvel <a href=\"https:\/\/periodicos.sbu.unicamp.br\/ojs\/index.php\/ecos\/article\/view\/8643195\"><em>aqui<\/em><\/a>.<\/p>\n<p><strong>[2]\u00a0<\/strong>Para mais informa\u00e7\u00f5es sobre esse tema, ver o artigo <em><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/2021\/07\/19\/as-ideias-fundamentais-de-keynes\/\">As ideias fundamentais de Keynes<\/a><\/em> de V\u00edtor Lopes de Souza Alves.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[3]<\/strong> Para uma outra apreens\u00e3o do tema apresentado nesse artigo, ver os seguintes artigos: NAKATANI, P.; GOMES, H. A natureza e as contradi\u00e7\u00f5es da crise capitalista. In: GOMES, H. (Org.). <em>Especula\u00e7\u00e3o e lucros fict\u00edcios<\/em>. 1. ed. S\u00e3o Paulo: Editora Outras Express\u00f5es, 2015. p. 125\u2013160; e BRAGA, J. C. de S. A financeiriza\u00e7\u00e3o da riqueza: a macroestrutura financeira e a nova din\u00e2mica dos capitalismos centrais. <em>Economia e Sociedade<\/em>, v. 2, n. 1, p. 25\u201357, 2016. Esse artigo est\u00e1 dispon\u00edvel <a href=\"https:\/\/periodicos.sbu.unicamp.br\/ojs\/index.php\/ecos\/article\/view\/8643298\"><em>aqui<\/em><\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Com a mundializa\u00e7\u00e3o do capital, muitas economias que estavam na rota do desenvolvimento tornaram-se zonas de pobreza devido \u00e0 desconex\u00e3o for\u00e7ada.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":680,"featured_media":1161,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":{"x":0.5,"y":0.5},"footnotes":""},"categories":[196],"tags":[],"class_list":["post-1160","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-content\/uploads\/sites\/183\/2023\/02\/Imagem-1.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1160","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/680"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1160"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1160\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1163,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1160\/revisions\/1163"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1161"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1160"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1160"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1160"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}