{"id":1182,"date":"2023-03-05T11:04:07","date_gmt":"2023-03-05T14:04:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/?p=1182"},"modified":"2023-03-12T11:04:16","modified_gmt":"2023-03-12T14:04:16","slug":"raca-classe-e-fascismo-no-brasil-parte-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/2023\/03\/05\/raca-classe-e-fascismo-no-brasil-parte-i\/","title":{"rendered":"Ra\u00e7a, classe e fascismo no Brasil &#8211; Parte I"},"content":{"rendered":"\n<h3><em><strong>Por: Gustavo Zullo<\/strong><\/em><\/h3>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>De in\u00edcio, \u00e9 importante destacar que esta \u00e9 uma sequ\u00eancia de alguns ensaios que apontam para os eixos de um projeto de pesquisa que articula ra\u00e7a, classe e fascismo. Nesta primeira parte, apresento alguns determinantes sociais, socioecon\u00f4micos e psicossociais importantes para entender a estrutura da segrega\u00e7\u00e3o social no Brasil, do que destaco a forma\u00e7\u00e3o do trabalho informal e suas rela\u00e7\u00f5es raciais. No pr\u00f3ximo artigo, me detenho no per\u00edodo mais recente, onde articulo a estrutura social apresentada aqui a alguns aspectos da economia contempor\u00e2nea nacional e internacional. J\u00e1 o terceiro texto, embora tenha uma maior autonomia relativa com rela\u00e7\u00e3o aos dois primeiros, ele se projeta a partir da estrutura socioecon\u00f4mica brasileira apresentada nos dois primeiros textos para estabelecer alguns nexos importantes do fascismo brasileiro contempor\u00e2neo.<\/p>\n\n\n\n<p>O padr\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o do trabalho no Brasil se consolidou como uma adapta\u00e7\u00e3o das formas de proscrever e marginalizar o negro forjadas na coloniza\u00e7\u00e3o e adaptadas ao regime de classes sociais (Fernandes, 1965, vol I). A extrema intoler\u00e2ncia ao conflito, t\u00edpico da sociedade moderna que conviveu por mais tempo com a escravid\u00e3o, desaguou em um padr\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o do trabalho assalariado que n\u00e3o generalizou o trabalho como elemento de classifica\u00e7\u00e3o social. O trabalhador de baixa escolaridade e que n\u00e3o possu\u00eda maior especializa\u00e7\u00e3o foi obrigado a buscar estrat\u00e9gias de sobreviv\u00eancia, o que hoje \u00e9 identificado \u00e0 informalidade e ao emprego informal (Fernandes, 1968; Portugal J\u00fanior, 2012). Ao contr\u00e1rio das economias capitalistas desenvolvidas, essa sempre foi a norma da economia brasileira, acostumada a conviver e articular estas duas dimens\u00f5es da exist\u00eancia social, o que muitas vezes foi confundido com dualidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas formas de atrofiar o elemento do trabalho no Brasil n\u00e3o apenas se baseou na explora\u00e7\u00e3o do trabalho escravo, que consolidou um n\u00edvel tradicional de vida muito baixo, como preservou o negro na parte de baixo da pir\u00e2mide social. Em outras palavras, o n\u00edvel de explora\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o no Brasil e o n\u00edvel tradicional de vida do escravo se constitu\u00edram no par\u00e2metro hist\u00f3rico da constitui\u00e7\u00e3o e consolida\u00e7\u00e3o do padr\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o do trabalho assalariado. Ao mesmo tempo, na medida em que as hierarquias raciais foram preservadas, o trabalhador negro teve de se contentar com as posi\u00e7\u00f5es sociais que na maioria das, sob o regime de classes, n\u00e3o classificava nem valorizava socialmente o indiv\u00edduo. Nos primeiros 50 anos ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o praticamente n\u00e3o havia indiv\u00edduos negros que trabalhavam como m\u00e9dico, dentista, jornalista, propriet\u00e1rio de pequeno com\u00e9rcio, etc. E os pouco que superaram a barreira imposto pelo preconceito e discrimina\u00e7\u00e3o o fizeram sob grande terror psicol\u00f3gico em meio \u00e0s formas adaptadas de proscrever o negro.<\/p>\n\n\n\n<p>O movimento negro que se consolidou nos anos 1930, embora de orienta\u00e7\u00e3o varguista, foi importante para impulsionar mudan\u00e7as neste padr\u00e3o (Fernandes, 1972). Embora este movimento tenha alcan\u00e7ado uma parcela relativamente reduzida da popula\u00e7\u00e3o negra naquele momento, ele foi o g\u00e9rmen de movimentos importantes, como o Teatro Experimental do Negro, o TEN, liderado por Abdias Nascimento. Essas e outras express\u00f5es do movimento negro no Brasil foram importantes para educar a popula\u00e7\u00e3o negra a navegar no regime de classes, inclusive no que se refere a ocupar melhores postos de trabalho, e a criar redes de prote\u00e7\u00e3o e amparo social e psicol\u00f3gico (Fernandes, 1965, vol. II). Mais que isso, esse movimento educou tamb\u00e9m o branco que, em alguma medida, teve que aprender a conviver com o negro no trabalho, no sindicato e em outros lugares sociais novos para o negro \u2013 o que n\u00e3o significa que esta conviv\u00eancia estivesse livre de formas de proscrever o negro. Se o golpe militar de 1964 e outros processos autorit\u00e1rios n\u00e3o tivessem concorrido para a sua interrup\u00e7\u00e3o e articula\u00e7\u00e3o com outros movimentos mais amplos de luta pela democracia no Brasil, talvez hoje viv\u00eassemos uma sociedade mais livre e afastada do fascismo. Al\u00e9m de poss\u00edveis benef\u00edcios sociais, econ\u00f4micos e pol\u00edticos, a consolida\u00e7\u00e3o de formas mais tolerantes e construtivas de vida seguramente teria conformado indiv\u00edduos psiquicamente mais inteiros, isto \u00e9, menos cindidos pelas frustra\u00e7\u00f5es que estruturam a psique autorit\u00e1ria (Reich, 1933).<\/p>\n\n\n\n<p>De todo modo, a hist\u00f3ria n\u00e3o levou a uma modifica\u00e7\u00e3o significativa do padr\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o do trabalho nem da conviv\u00eancia social. Pelo contr\u00e1rio, as formas violentas de impor padr\u00f5es, al\u00e9m da pr\u00f3pria viol\u00eancia desses padr\u00f5es em si mesmos viabilizaram a continua\u00e7\u00e3o de estruturas senhoriais e escravistas em meio \u00e0 democracia formal no Brasil.<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a> A estrutura da segrega\u00e7\u00e3o social no Brasil, inclusive no que se refere a sua fundamenta\u00e7\u00e3o racial, n\u00e3o foi modificada (Fernandes, 1975).<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o apenas a expans\u00e3o da riqueza preservou uma enorme concentra\u00e7\u00e3o de renda, riqueza e poder, como estes continuaram a ser processos fortemente racializados. Embora as possibilidades de ascens\u00e3o social tenham sido aproveitadas sen\u00e3o por alguns poucos indiv\u00edduos brancos e negros, a escala em que estes o fizeram foi enormemente inferior, evidenciando o racismo das estruturas de poder que controlam e estabilizam a hierarquia social no Brasil. N\u00e3o por outra raz\u00e3o a informalidade no pa\u00eds possui uma cor, que \u00e9 a cor negra de milh\u00f5es estigmatizados pela cor de sua pele e por toda e qualquer express\u00e3o cultural de matriz africana, que \u00e9 um dos gatilhos do que Florestan Fernandes denominava como medo-p\u00e2nico. Desta maneira, n\u00e3o s\u00f3 as possibilidades racializadas de ascens\u00e3o social evidenciam a natureza da segrega\u00e7\u00e3o no Brasil, como a articula\u00e7\u00e3o destes processos segregacionistas, de ra\u00e7a e classe, aproximam o pa\u00eds de uma divis\u00e3o que autoriza gest\u00f5es sociais autorit\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>FANON, Frantz (1952). <em>Pele negra, m\u00e1scaras brancas<\/em>. Salvador: EDUFBA, 2008.<\/p>\n\n\n\n<p>__________ (1961). <em>Os condenados<\/em><em> da terra<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2022.<\/p>\n\n\n\n<p>FERNANDES, Florestan (1972). <em>O negro no mundo dos brancos<\/em>. S\u00e3o Paulo: Global, 2007.<\/p>\n\n\n\n<p>__________ (1965). <em>A integra\u00e7\u00e3o do negro na sociedade de classes<\/em> \u2013 vols. I e II. S\u00e3o Paulo: Editora Globo, 2008a.<\/p>\n\n\n\n<p>__________ (1968). <em>Sociedade de classes e subdesenvolvimento<\/em>. S\u00e3o Paulo: Global, 2008b.<\/p>\n\n\n\n<p>PORTUGAL J\u00daNIOR, Jos\u00e9 Geraldo. <em>Padr\u00f5es de heterogeneidade estrutural no Brasil<\/em>. Campinas: IE-Unicamp (tese de doutorado), 2012.<\/p>\n\n\n\n<p>REICH, Wilhelm (1933). <em>An\u00e1lise do car\u00e1ter<\/em>. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2001.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Para uma inspira\u00e7\u00e3o mais geral desse processo, que n\u00e3o se restringe ao Brasil, ver Fanon (1952, 1961).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>De in\u00edcio, \u00e9 importante destacar que esta \u00e9 uma sequ\u00eancia de alguns ensaios que apontam para os eixos de um projeto de pesquisa que articula <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/2023\/03\/05\/raca-classe-e-fascismo-no-brasil-parte-i\/\" title=\"Ra\u00e7a, classe e fascismo no Brasil &#8211; Parte I\">[&#8230;]<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":390,"featured_media":1184,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":{"x":0.47,"y":0.51},"footnotes":""},"categories":[196],"tags":[463,15,10,459,462,464,460,461,465,22],"class_list":["post-1182","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","tag-classe-social","tag-desigualdade","tag-economia","tag-escravidao","tag-fascismo","tag-movimento-negro","tag-preconceito-racial","tag-raca","tag-teatro-experimental-negro","tag-trabalho"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-content\/uploads\/sites\/183\/2023\/03\/Uma_senhora_brasileira_em_seu_lar.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1182","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/390"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1182"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1182\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1194,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1182\/revisions\/1194"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1184"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1182"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1182"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1182"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}