{"id":1320,"date":"2023-08-31T11:46:13","date_gmt":"2023-08-31T14:46:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/?p=1320"},"modified":"2023-08-31T11:46:14","modified_gmt":"2023-08-31T14:46:14","slug":"raca-classe-e-fascismo-no-brasil-parte-iii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/2023\/08\/31\/raca-classe-e-fascismo-no-brasil-parte-iii\/","title":{"rendered":"Ra\u00e7a, classe e fascismo no Brasil &#8211; Parte III"},"content":{"rendered":"\n<h2><em><strong>Por: Gustavo Zullo<\/strong><\/em><\/h2>\n<p>A terceira e derradeira parte desta sequ\u00eancia avan\u00e7a mais diretamente sobre a quest\u00e3o do fascismo no Brasil a partir de uma apresenta\u00e7\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do pa\u00eds e sua estrutura autorit\u00e1ria e violenta, o que se confunde com a escravid\u00e3o e a explora\u00e7\u00e3o do trabalho que nos \u00e9 peculiar. Em suma, apresento um brev\u00edssimo ensaio que articula a hist\u00f3ria do trabalho no Brasil \u00e0 forma que o fascismo assume neste espa\u00e7o e neste tempo. Para tanto, avan\u00e7o sobre a forma, a morfologia e a estrutura da explora\u00e7\u00e3o do trabalho que funda a col\u00f4nia, o que dialoga sobretudo com o primeiro artigo desta sequ\u00eancia. Em seguida, num salto hist\u00f3rico, discuto algumas raz\u00f5es macro-estruturais que nos ajudam a entender a ascens\u00e3o do fascismo brasileiro e seus nexos com o mundo do trabalho no capitalismo contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>Dentro desta perspectiva, \u00e9 fundamental destacar que a coloniza\u00e7\u00e3o brasileira imp\u00f4s a escravid\u00e3o mercantil de africanos e ind\u00edgenas como padr\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o do trabalho e como fundamento do controle militar do territ\u00f3rio e da restri\u00e7\u00e3o do prest\u00edgio e da valoriza\u00e7\u00e3o social aos colonos e seus herdeiros (Fernandes, 1976). De certo modo, a forma\u00e7\u00e3o do Estado brasileiro obedece \u00e0 an\u00e1lise de Engels, para quem a orienta\u00e7\u00e3o \u00e9tnica e racializadora determina quais ser\u00e3o os grupos no poder, assim como as suas adjac\u00eancias e os grupos que ser\u00e3o, racializados, inferiorizados e explorados. Mais que isso, observa-se que, do ponto de vista individual e social, constituem-se hierarquiza\u00e7\u00f5es absolutamente afastadas de formas democr\u00e1ticas de exist\u00eancia (Fernandes, 1965). No lugar de passos convergentes \u00e0 homogeneidade e respeito pela diversidade, acentuaram-se o medo, a viol\u00eancia e a persegui\u00e7\u00e3o paranoica (o medo-p\u00e2nico) de tudo que pode desestabilizar um castelo de cartas forjado e preservado por castas e estamentos que foram absorvidos pelo regime de classes (Fernandes, 1975). Isso evidencia a articula\u00e7\u00e3o entre elementos pol\u00edticos e psicossociais, como denominava Florestan Fernandes.<\/p>\n<p>No Brasil moderno, essa estrutura de poder adaptada da col\u00f4nia integrou o negro na sociedade de classes sem descongelar a descoloniza\u00e7\u00e3o, evidenciando seu vigor e capacidade coletiva para desenvolver a cultura de forma acumulativa e segura. Esta estrutura se desenvolveu sem se desligar socialmente do passado, que \u00e9 renovado e reafirmado por novos agentes sociais que emergem na hist\u00f3ria como adapta\u00e7\u00f5es dos colonizadores. De tal modo, o poder pol\u00edtico e econ\u00f4mico no regime de classes foi preservado como uma estrutura burguesa ainda ligada a princ\u00edpios e t\u00e9cnicas de segrega\u00e7\u00e3o estamental e de casta.<\/p>\n<p>O fim da escravid\u00e3o n\u00e3o foi seguido por nenhuma forma de repara\u00e7\u00e3o, deixando o negro livre para viver em uma sociedade absolutamente hostil a ele. Esse processo se constituiu como a ado\u00e7\u00e3o de uma determinada maneira de deixar negros morrerem sem que se abdicasse por completo de exerc\u00edcios organizados de exterm\u00ednio da popula\u00e7\u00e3o negra mesmo sob o regime de classes. Aqui, biopol\u00edtica e necropol\u00edtica se combinam e se complementam e, sempre que se entende ser necess\u00e1rio, a burguesia suspende direitos, o que se expressa no famigerado AI-5 e nas incurs\u00f5es frequentes da PM \u00e0s favelas e espa\u00e7os racializados e miser\u00e1veis. N\u00e3o por acaso, os efeitos particularmente perversos destes processos acometem lideran\u00e7as ideol\u00f3gicas e a popula\u00e7\u00e3o negra ou, de outro modo, os inimigos internos reais, potenciais e fantasmagoricamente preventivos do poder institu\u00eddo no Brasil. Nesse sentido, Florestan Fernandes exp\u00f5e a tend\u00eancia da autocracia burguesa no Brasil conduzir \u00e0 fascistiza\u00e7\u00e3o do Estado nacional e seus mecanismos de controle social, cultural, econ\u00f4mico e pol\u00edtico (Fernandes, 1981), ao que acrescentaria a tend\u00eancia em g\u00e9rmen, por\u00e9m sempre presente, deste processo ganhar contornos de massa.<\/p>\n<p>Em momentos de crise, como o que vivemos hoje, com aumento da concorr\u00eancia no mercado de trabalho, estas tend\u00eancias emergem com for\u00e7a ainda maior. Estes processos tendem a sublevar com mais for\u00e7a as tens\u00f5es estruturais, como s\u00e3o o preconceito e discrimina\u00e7\u00e3o raciais no Brasil, mas tamb\u00e9m outras que s\u00e3o denominadas de forma um tanto pejorativa como pautas identit\u00e1rias e que tendem a ser desarticuladas de temas como trabalho e valor. Isto \u00e9, quest\u00f5es socioecon\u00f4micas tendem a acirrar conflitos da psique de ordem individual e coletiva, sobretudo quando uma determinada conjuntura, como a atual, j\u00e1 vinha sendo marcada pelo aprofundamento de tens\u00f5es identit\u00e1rias (Haider, 2017; Almeida, 2018) antes mesmo do acirramento da disputa no mercado de trabalho. As dificuldades pr\u00f3prias da garantia pela sobreviv\u00eancia, sobretudo em um mundo que imp\u00f4s a concorr\u00eancia como eixo organizador da vida, fazem com que a atual conjuntura do Brasil, considerados os seus problemas estruturais, se assemelhem a uma trag\u00e9dia anunciada.<\/p>\n<p>Parece n\u00e3o haver outro horizonte que n\u00e3o o de uma cat\u00e1strofe social, econ\u00f4mica, pol\u00edtica e cultural \u2013 para n\u00e3o entrar nas quest\u00f5es ambientais que hoje se mostram mais do que urgentes. Esse conjunto de coisas favoreceu que a r\u00e1pida deteriora\u00e7\u00e3o do horizonte social de amplas e heterog\u00eaneas fra\u00e7\u00f5es da classe trabalhadora insuflasse afetos avessos \u00e0 coes\u00e3o social dentro de uma conjuntura complexa. Isto \u00e9, o esgotamento do breve ciclo de expans\u00e3o econ\u00f4mica no in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, contraditoriamente acompanhado pelo aprofundamento da desindustrializa\u00e7\u00e3o, acirrou tens\u00f5es sociais que silenciosamente ganhavam uma massa de trabalhadores prec\u00e1rios e sem perspectiva. N\u00e3o que pessoas conservadoras bem remuneradas e com emprego est\u00e1vel n\u00e3o venham a aderir ao fascismo no Brasil. Pelo contr\u00e1rio, aderem tamb\u00e9m em grande n\u00famero. Mas a quest\u00e3o para aqui \u00e9 que sem essa dimens\u00e3o de precariza\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica, dificilmente o fascismo teria ganhado propor\u00e7\u00f5es de massa no Brasil e em outros lugares do mundo.<\/p>\n<p>Ressentimentos relacionados a novas din\u00e2micas normativas dos \u201ccorpos, desejos, sexualidade e identifica\u00e7\u00f5es\u201d (Safatle, 2023), do que a luta antirracista \u00e9 um cap\u00edtulo especial no Brasil, se somam \u00e0 regress\u00e3o das for\u00e7as produtivas e \u00e0 reafirma\u00e7\u00e3o da autocracia burguesa. Juntos, produzem um movimento de massas que exige de forma violenta a retomada de uma ordem m\u00edtica, configurando o fascismo brasileiro no s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>AGAMBEN, Giorgio. <em>Estado de exce\u00e7\u00e3o<\/em>. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2004.<\/p>\n<p>ALMEIDA, S\u00edlvio. <em>O que \u00e9 racismo estrutural?<\/em> Belo Horizonte: Letramento, 2018.<\/p>\n<p>ENGELS, Friedrich (1884). As origens da fam\u00edlia, da propriedade privada e do Estado. S\u00e3o Paulo: Centauro, 2004.<\/p>\n<p>FERNANDES, Florestan. Introdu\u00e7\u00e3o. <em>In:<\/em> MARX, Karl. <em>Contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 cr\u00edtica da economia pol\u00edtica<\/em>. S\u00e3o Paulo: FLAMA, 1946, pp. 7-28.<\/p>\n<p>__________ (1965). <em>A integra\u00e7\u00e3o do negro na sociedade de classes<\/em>. S\u00e3o Paulo: Editora Globo, 2008.<\/p>\n<p>__________ (1968). <em>Sociedade de classes e subdesenvolvimento<\/em>. S\u00e3o Paulo: Global, 2008.<\/p>\n<p>__________ (1975). <em>A revolu\u00e7\u00e3o burguesa no Brasil<\/em>. Ensaio de interpreta\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica. S\u00e3o Paulo: Editora Globo, 2005.<\/p>\n<p>__________ (1976). <em>Circuito fechado<\/em>. Quatro ensaios sobre o poder institucional. S\u00e3o Paulo: Global, 2010.<\/p>\n<p>__________ . <em>Poder e contrapoder na Am\u00e9rica Latina<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.<\/p>\n<p>FOUCAULT, Michel (1976). <em>Em defesa da sociedade<\/em>. Curso no Coll\u00e8ge de France (1975-1976). S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2005, pp. 75-98.<\/p>\n<p>HAIDER, Asad (2017). <em>Armadilha da identidade<\/em>. Ra\u00e7a e classe nos dias de hoje. S\u00e3o Paulo: Veneta, 2019.<\/p>\n<p>MBEMBE, Achile. <em>Necropol\u00edtica<\/em>. Biopoder, soberania, estado de exce\u00e7\u00e3o, pol\u00edtica da morte. S\u00e3o Paulo: n-1 edi\u00e7\u00f5es, 2018.<\/p>\n<p>SAFATLE, Vladimir. Viol\u00eancias e libido. Fascismo, crise pol\u00edtica e contrarrevolu\u00e7\u00e3o molecular. <em>Revista <\/em><a href=\"https:\/\/www.estilha\u00e7o.com.br\/violenciaselibido\"><em>Estilha\u00e7o<\/em><\/a>, n\u00ba 1, 2023.<\/p>\n\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><\/div>","protected":false},"author":390,"featured_media":1324,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[196],"tags":[117,142,110,515,516],"class_list":["post-1320","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","tag-autoritarismo","tag-desenvolvimento-economico","tag-escravidao-no-brasil","tag-formacao-do-estado-brasileiro","tag-insatisfacao-social"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-content\/uploads\/sites\/183\/2023\/08\/Patriotismo-performatico-2.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1320","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/390"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1320"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1320\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1323,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1320\/revisions\/1323"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1324"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1320"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1320"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1320"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}