{"id":1349,"date":"2023-10-13T10:15:35","date_gmt":"2023-10-13T13:15:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/?p=1349"},"modified":"2024-02-16T12:07:37","modified_gmt":"2024-02-16T15:07:37","slug":"brasilianizacao-do-mundo-e-precarizacao-do-trabalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/2023\/10\/13\/brasilianizacao-do-mundo-e-precarizacao-do-trabalho\/","title":{"rendered":"Brasilianiza\u00e7\u00e3o do mundo e precariza\u00e7\u00e3o do trabalho"},"content":{"rendered":"<p><em>Por: <strong>Leonardo Dias Nunes<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Neste artigo, de acordo com a obra <em>A fratura brasileira do mundo: vis\u00f5es do laborat\u00f3rio brasileiro da mundializa\u00e7\u00e3o<\/em> <strong>[1]<\/strong>, apresentamos de forma sucinta a no\u00e7\u00e3o de <em>brasilianiza\u00e7\u00e3o<\/em> do mundo e sua rela\u00e7\u00e3o com a precariza\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de trabalho no capitalismo contempor\u00e2neo. Para tanto, dividimos o artigo em duas se\u00e7\u00f5es. Na primeira parte, apresentamos a no\u00e7\u00e3o de <em>brasilianiza\u00e7\u00e3o<\/em> do mundo. Na segunda parte, apresentamos o fen\u00f4meno da precariza\u00e7\u00e3o do trabalho enquanto uma das consequ\u00eancias da <em>brasilianiza\u00e7\u00e3o<\/em> do mundo. Nas considera\u00e7\u00f5es finais, consolidamos a rela\u00e7\u00e3o proposta no artigo e apontamos para a atualidade da obra de Paulo Arantes.<\/p>\n<p><strong>Brasilianiza\u00e7\u00e3o do mundo<\/strong><\/p>\n<p>A obra <em>A fratura brasileira do mundo: vis\u00f5es do laborat\u00f3rio brasileiro da mundializa\u00e7\u00e3o<\/em>, escrita por Paulo Arantes e publicada em 2001, recebeu nova edi\u00e7\u00e3o neste ano de 2023. A obra \u00e9 composta por um conjunto de ensaios e, em suas tr\u00eas partes, o autor nos convida a refletir sobre a impossibilidade de supera\u00e7\u00e3o do subdesenvolvimento e sobre a nova clivagem social existente no capitalismo contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>Como apresentamos em dois artigos anteriores, na d\u00e9cada de 1970, os processos de <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/2023\/02\/06\/mundializacao-do-capital\/\">mundializa\u00e7\u00e3o do capital<\/a> e de <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/2023\/06\/11\/transnacionalizacao-da-classe-capitalista\/\">transnacionaliza\u00e7\u00e3o da classe capitalista<\/a> trouxeram modifica\u00e7\u00f5es radicais no funcionamento do sistema capitalista. Uma das consequ\u00eancias dessa nova conjuntura foi a morte do mito de que a sociedade brasileira estava condenada ao progresso.<\/p>\n<p>Paulo Arantes argumenta que a destrui\u00e7\u00e3o desse mito criou em parte da intelectualidade brasileira um sentimento de frustra\u00e7\u00e3o, pois os seus integrantes eram os t\u00e9cnicos que planejavam e geriam o caminho para o progresso.<\/p>\n<p>Na segunda parte do ensaio, Paulo Arantes apresenta a no\u00e7\u00e3o de <em>brasilianiza\u00e7\u00e3o<\/em> do mundo. Para o autor, diante da impossibilidade de difus\u00e3o do progresso, a atual fase do capitalismo criou uma sociedade em que <em>a)<\/em> a desigualdade social \u00e9 t\u00e3o grande que se assemelha \u00e0 sociedade de castas; <em>b)<\/em> h\u00e1 uma dimens\u00e3o horizontal da guerra de classes na qual o ressentimento \u00e9 um importante ingrediente; <em>c)<\/em> os detentores da riqueza vivem entrincheirados.<\/p>\n<p>Tais caracter\u00edsticas s\u00e3o a express\u00e3o do div\u00f3rcio ocorrido entre a economia pol\u00edtica do livre mercado e a economia moral da civiliza\u00e7\u00e3o burguesa. Elas s\u00e3o mais evidentes nas metr\u00f3poles, local onde a simbiose entre riqueza e pobreza se apresenta em cada esquina, em cada viaduto, em cada sem\u00e1foro. Nesses pontos observamos com facilidade os contrastes de uma cidade cindida <strong>[2]<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Precariza\u00e7\u00e3o do trabalho<\/strong><\/p>\n<p>Na terceira parte do ensaio, Paulo Arantes menciona obras de literatura e de cinema para apreender uma caracter\u00edstica marcante da sociedade brasileira, qual seja, por aqui a norma \u00e9 frouxa e, por isso, a infra\u00e7\u00e3o \u00e9 feita sem remorso. Tal apreens\u00e3o foi realizada por meio de cenas selecionadas do filme <em>Cronicamente invi\u00e1vel<\/em> e do livro <em>Cidade de Deus<\/em> que mostram a conviv\u00eancia cotidiana entre o legal e o ilegal, entre a ordem e a desordem.<\/p>\n<p>A norma frouxa existente nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho criou um trabalhador totalmente flex\u00edvel que atualmente se difunde para todas as partes do mundo. Na conjuntura hist\u00f3rica em que os postos de trabalho s\u00e3o concentrados nas atividades de trabalhadoras dom\u00e9sticas, motoristas de aplicativo, <em>coaches<\/em> e <em>freelancers<\/em> das mais diferentes atividades, a sociedade brasileira se destaca por saber gerir desigualdades e por exportar esse <em>know-how<\/em> para o mundo. Como sabemos, na economia brasileira h\u00e1 sinal verde para a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho.<\/p>\n<p><strong>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/strong><\/p>\n<p>O artigo apresentou o argumento de Paulo Arantes de que a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho \u00e9 um destacado aspecto do processo de <em>brasilianiza\u00e7\u00e3o<\/em> do mundo. Ressaltamos que a rela\u00e7\u00e3o entre a <em>brasilianiza\u00e7\u00e3o<\/em> do mundo e a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho apresentada nesse artigo foi publicada pela primeira vez em 2001. Quando se iniciava o s\u00e9culo XXI, antes mesmo de acontecimentos turbulentos que marcaram esse per\u00edodo no Brasil, o autor j\u00e1 apontava para caracter\u00edsticas estruturais da sociedade brasileira dif\u00edceis de serem transformadas e para a difus\u00e3o delas para outras partes do mundo. Por essa raz\u00e3o, e tamb\u00e9m por outras que n\u00e3o foram apontadas nesse sucinto artigo, a obra <em>A fratura brasileira do mundo: vis\u00f5es do laborat\u00f3rio brasileiro da mundializa\u00e7\u00e3o<\/em> oferece uma profunda reflex\u00e3o para pensarmos o atual mundo dual, de acentuada desigualdade e viol\u00eancia. Portanto, o mundo da <em>brasilianiza\u00e7\u00e3o<\/em>.<\/p>\n<p><strong>*<\/strong> A foto que ilustra este artigo \u00e9 do fot\u00f3grafo Johnny Miller, encontra-se no site <a href=\"https:\/\/unequalscenes.com\/\">unequalscenes.com<\/a> e mostra a vista a\u00e9rea do Jurujuba Iate Clube e de uma tradicional col\u00f4nia de pescadores na cidade de Niter\u00f3i.<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p><strong>[1]<\/strong> ARANTES, Paulo Eduardo. <em>A fratura brasileira do mundo: vis\u00f5es do laborat\u00f3rio brasileiro da mundializa\u00e7\u00e3o<\/em>. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2023. A vers\u00e3o eletr\u00f4nica dessa obra pode ser encontrada <a href=\"https:\/\/sentimentodadialetica.org\/dialetica\/catalog\/book\/81\">aqui<\/a>. Uma resenha dessa obra pode ser lida <a href=\"https:\/\/revistas.marilia.unesp.br\/index.php\/RFM\/article\/view\/15150\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p><strong>[2]<\/strong> Sugerimos que a leitora e o leitor desse artigo visitem ao site <a href=\"https:\/\/unequalscenes.com\/projects\">https:\/\/unequalscenes.com\/projects<\/a>, organizado pelo fot\u00f3grafo Johnny Miller cujo objetivo \u00e9 mostrar atrav\u00e9s de fotos a\u00e9reas as linhas de desigualdade inscritas pelo homem em diferentes cidades do mundo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>A obra apresentada oferece uma profunda reflex\u00e3o para pensarmos o atual mundo dual, de acentuada desigualdade e viol\u00eancia. 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