{"id":1430,"date":"2024-02-19T15:44:36","date_gmt":"2024-02-19T18:44:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/?p=1430"},"modified":"2024-02-20T15:26:02","modified_gmt":"2024-02-20T18:26:02","slug":"de-onde-vem-a-hegemonia-do-dolar-parte-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/2024\/02\/19\/de-onde-vem-a-hegemonia-do-dolar-parte-1\/","title":{"rendered":"De onde vem a hegemonia do d\u00f3lar?  (parte 1)"},"content":{"rendered":"<h3><em><strong>Por: Victor Augusto Ferraz Young<\/strong><\/em><\/h3>\n<p><em><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Conforme hav\u00edamos prometido, este ano trataremos de recortes sobre a economia global contempor\u00e2nea. N\u00e3o temos a pretens\u00e3o de explicar aqui o funcionamento do sistema capitalista e as rela\u00e7\u00f5es que este determina entre os pa\u00edses que dele fazem parte. Buscaremos trazer as quest\u00f5es mais relevantes para instigar aqueles que se interessam pelo tema e nos procuram com suas d\u00favidas. Tratarei primeiramente do que considero fundamental para o funcionamento do atual sistema econ\u00f4mico global, ou seja, o uso do d\u00f3lar estadunidense como o principal meio internacional para as trocas comerciais e opera\u00e7\u00f5es financeiras que \u00e9, ao mesmo tempo, o principal ativo financeiro de reserva de valor. Pretendo apresentar, dessa maneira, como a centralidade do d\u00f3lar no sistema internacional se deu por determina\u00e7\u00f5es pol\u00edtico hist\u00f3ricas.<\/p>\n<p><em><strong>O Ouro e a Libra Esterlina<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Primeiramente, e de forma bastante suscinta, podemos dizer que, antes do advento de um sistema econ\u00f4mico com base no d\u00f3lar, o principal meio para a conserva\u00e7\u00e3o da riqueza e para as trocas comerciais e financeiras internacionais era o ouro. Havia, at\u00e9 o in\u00edcio do s\u00e9culo XX, moedas de diferentes pa\u00edses que podiam ter seu valor cotado em ouro, sendo a libra esterlina a refer\u00eancia mais est\u00e1vel. Este era o chamado padr\u00e3o-ouro ou padr\u00e3o libra-ouro. Ap\u00f3s a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e a crise financeira internacional desencadeada alguns anos depois com a Quebra da Bolsa de Nova Iorque em 1929, este padr\u00e3o monet\u00e1rio internacional deixou de ser predominante at\u00e9 o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), momento em que o Sistema Financeiro Internacional foi redefinido.<\/p>\n<p><em><strong>A Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos e o D\u00f3lar-Ouro<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O fim da Segunda Guerra Mundial marca, ao mesmo tempo, a emerg\u00eancia da hegemonia norte-americana sobre o bloco de pa\u00edses capitalistas e d\u00e1 in\u00edcio ao antagonismo norte americano em rela\u00e7\u00e3o ao bloco de pa\u00edses comunistas sob a lideran\u00e7a da ent\u00e3o Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, a chamada Guerra Fria. A constitui\u00e7\u00e3o desse bloco passou a ser vista pelos Estados Unidos como uma amea\u00e7a vital a seus interesses e at\u00e9 mesmo \u00e0 sua pr\u00f3pria exist\u00eancia, j\u00e1 que sua forma de organiza\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-pol\u00edtica n\u00e3o considerava a propriedade privada do capital e dos meios de produ\u00e7\u00e3o. Os Estados Unidos, que n\u00e3o haviam passado pela destrui\u00e7\u00e3o da guerra em seu pr\u00f3prio territ\u00f3rio, eram, por sua vez, uma pot\u00eancia vencedora que havia projetado sua marinha e ex\u00e9rcito por todo o globo terrestre. Eles detinham a tecnologia da bomba at\u00f4mica, haviam renovado sua capacidade industrial e tecnol\u00f3gica, contavam com super\u00e1vits comerciais crescentes, eram os maiores credores das pot\u00eancias econ\u00f4micas sobreviventes e possu\u00edam um estoque de ouro equivalente a 70% das reservas mundiais. Os americanos, dessa maneira, se empenharam na reconstru\u00e7\u00e3o do sistema capitalista e buscaram estabelecer sua lideran\u00e7a sobre a nova ordem capitalista emergente. O desenho dessa ordem levaria em conta o objetivo de enfraquecer e\/ou anular a chamada amea\u00e7a comunista.<\/p>\n<p>A reconstru\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses capitalistas exigia certo controle sobre as rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas dentro do sistema, assim, a determina\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar como a principal moeda internacional foi elemento de fundamental import\u00e2ncia nas confer\u00eancias para reestrutura\u00e7\u00e3o do sistema financeiro em Bretton Woods em 1944. Naquela conven\u00e7\u00e3o, a proposta do representante norte-americano, Harry Dexter White, estabeleceu que o d\u00f3lar lastreado em uma certa quantia de ouro seria a divisa internacional balizadora para o valor fixo (mas ajust\u00e1vel) de outras moedas dos outros pa\u00edses que fizeram parte da reuni\u00e3o<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Com o poder que detinham, os EUA impuseram o d\u00f3lar como moeda internacional em contraposi\u00e7\u00e3o a ideia de uma unidade monet\u00e1ria alternativa, o bancor, sugerida na confer\u00eancia pelo economista e representante ingl\u00eas, John Maynard Keynes<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Esta outra seria uma moeda internacional a ser emitida por uma entidade internacional multilateral, n\u00e3o estando, dessa forma, sob supervis\u00e3o do banco central norte-americano. Naquele momento, os EUA fizeram valer sua for\u00e7a pol\u00edtica e econ\u00f4mica e ficou estabelecido o padr\u00e3o d\u00f3lar-ouro como divisa chave para todas as opera\u00e7\u00f5es comerciais e financeiras entre os pa\u00edses. A vantagem desse modelo ficava, obviamente, para a economia norte-americana, j\u00e1 que seu governo poderia, no futuro, dispensar super\u00e1vits comerciais e empr\u00e9stimos internacionais para conseguir recursos para comprar e\/ou financiar qualquer coisa que desejasse no exterior. Ou seja, o Estado americano n\u00e3o precisaria necessariamente acumular reservas internacionais, bastaria, grosso modo, emitir a sua pr\u00f3pria moeda.<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p><em><strong>Al\u00e9m do D\u00f3lar<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Em Bretton Woods, al\u00e9m do d\u00f3lar-ouro, havia por parte dos norte-americanos a preocupa\u00e7\u00e3o com a reconstru\u00e7\u00e3o de um sistema capitalista destru\u00eddo f\u00edsica e moralmente. Era necess\u00e1rio superar a atra\u00e7\u00e3o exercida pela ideia de igualdade comunista. Naquela confer\u00eancia, estabeleceu-se que os fluxos financeiros seriam controlados unilateralmente pelos estados, eliminando a livre circula\u00e7\u00e3o de capitais e seus consequentes efeitos especulativos. Al\u00e9m disso, as taxas de c\u00e2mbio seriam fixadas em rela\u00e7\u00e3o ao d\u00f3lar. Estas iniciativas visaram estabilizar no longo prazos as finan\u00e7as e o com\u00e9rcio internacional, permitindo crescimento econ\u00f4mico mais r\u00e1pido. Al\u00e9m disso, duas novas institui\u00e7\u00f5es de aux\u00edlio ao novo sistema foram criadas. No caso em que os pa\u00edses viessem a ter reiterados d\u00e9ficits no balan\u00e7o de pagamentos com eventual falta de divisas fortes, tais pa\u00edses poderiam recorrer ao Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI) em busca de socorro financeiro. Para a reconstru\u00e7\u00e3o do p\u00f3s-guerra e o financiamento do desenvolvimento econ\u00f4mico, os pa\u00edses requerentes poderiam buscar financiamento junto ao Banco Mundial. O que ocorreu, todavia, foi que estas novas institui\u00e7\u00f5es tiveram seus aportes, em grande medida, reaizados pelos pr\u00f3prios EUA o que as tornou na maioria das vezes dependentes de suas decis\u00f5es. Os recursos alocados tamb\u00e9m n\u00e3o foram suficientes para os objetivos propostos e as futuras demandas. Depois da confer\u00eancia, e ainda no sentido de evitar a amea\u00e7a comunista, os Estados Unidos criaram o Plano Marshall para ajuda econ\u00f4mica \u00e0 Europa e os planos de ajuda econ\u00f4mica ao Jap\u00e3o que tinham como objetivo acelerar a recupera\u00e7\u00e3o desses pa\u00edses. As empresas norte-americanas n\u00e3o deixaram de penetrar nos mercados europeu e japon\u00eas, assim como, em fun\u00e7\u00e3o dos interesses geopol\u00edticos, os EUA permitiriam a expans\u00e3o e penetra\u00e7\u00e3o das empresas daqueles pa\u00edses em seus mercados.<\/p>\n<p>O redesenho da estrutura financeira e comercial internacional com base no d\u00f3lar-ouro depois de 1944 foi o que definiu, num primeiro momento, sua preponder\u00e2ncia at\u00e9 os dias de hoje. Assim, a recupera\u00e7\u00e3o do sistema capitalista do p\u00f3s-Segunda Guerra Mundial foi feita com o uso do d\u00f3lar e definiu que esta moeda seria a forma da reserva de riqueza propriamente dita. At\u00e9 que sua validade fosse questionada em momento posterior houve duas d\u00e9cadas ininterruptas de recupera\u00e7\u00e3o e desenvolvimento econ\u00f4mico nos principais pa\u00edses capitalistas e em outros em desenvolvimento. No pr\u00f3ximo texto veremos como foi o fim da ordem de Bretton Woods, o fim do d\u00f3lar-ouro e o in\u00edcio da ordem globalizada com o advento do d\u00f3lar flex\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/p>\n<p>ANDERSON, Perry. A pol\u00edtica externa norte-americana e seus te\u00f3ricos. S\u00e3o Paulo, SP: Boitempo, 2015.<\/p>\n<p>EICHENGREEN, Barry J. A globaliza\u00e7\u00e3o do capital: uma hist\u00f3ria do Sistema Monet\u00e1rio Internacional. S\u00e3o Paulo, SP: Editora 34, c2000.<\/p>\n<p>HOBSBAWM, E. J.\u00a0A era dos extremos:\u00a0o breve s\u00e9culo XX: 1914-1991. 2. ed. S\u00e3o Paulo, SP: Companhia das Letras, 1998, 1994.<\/p>\n<p>MAZZUCCHELLI, Frederico Mathias. Os dias de sol: a trajet\u00f3ria do capitalismo no p\u00f3s-guerra. Campinas, SP: FACAMP, 2013.<\/p>\n<p>MEAD, Walter Russell. Special providence: American foreign policy and how it changed the word. New York, NY; London: Routledge, 2002.<\/p>\n<p>VAROUFAKIS, Yanis. O Minotauro Global: a verdadeira origem da crise financeira e o futuro da economia global. S\u00e3o Paulo, SP: Autonomia Liter\u00e1ria, 2016.<\/p>\n<p>YOUNG, Victor Augusto Ferraz. O Governo de Ronald Reagan (1981-1989) e a Consolida\u00e7\u00e3o da Nova Ordem Econ\u00f4mica Internacional. 2018. 1 recurso online (220 p.) Tese (doutorado) &#8211; Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Economia, Campinas, SP.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Uma on\u00e7a troy de ouro (31,104 gramas) passaria a valer 35 d\u00f3lares.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Temos v\u00e1rios textos sobre Keynes e suas ideias em nosso blog. Ver: <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/2021\/07\/19\/as-ideias-fundamentais-de-keynes\/\">As ideias fundamentais de Keynes<\/a>; <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/2021\/02\/01\/as-propostas-de-reforma-social-de-keynes\/\">As propostas de reforma social de Keynes<\/a>; e <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/2020\/12\/01\/a-teoria-geral-de-keynes-uma-apresentacao-didatica\/\">A Teoria Geral de Keynes: uma apresenta\u00e7\u00e3o did\u00e1tica<\/a>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Os detalhes sobre este ponto espec\u00edfico veremos no pr\u00f3ximo texto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Por: Victor Augusto Ferraz Young Introdu\u00e7\u00e3o Conforme hav\u00edamos prometido, este ano trataremos de recortes sobre a economia global contempor\u00e2nea. 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