{"id":1554,"date":"2024-07-31T16:02:57","date_gmt":"2024-07-31T19:02:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/?p=1554"},"modified":"2025-03-27T11:04:09","modified_gmt":"2025-03-27T14:04:09","slug":"leituras-crise-capitalista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/2024\/07\/31\/leituras-crise-capitalista\/","title":{"rendered":"Uma teia em constru\u00e7\u00e3o: leituras sobre a crise capitalista"},"content":{"rendered":"<p><em>Por: <strong>Leonardo Dias Nunes<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong><em>Introdu\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong><\/p>\n<p>O objetivo deste artigo \u00e9 apresentar diferentes refer\u00eancias contempor\u00e2neas que tratam das crises econ\u00f4micas, sociais, pol\u00edticas e ambientais existentes na din\u00e2mica de acumula\u00e7\u00e3o do capital no s\u00e9culo XXI. As cr\u00edticas realizadas a essas refer\u00eancias, nesse primeiro momento, n\u00e3o foram apresentadas. Assim, realizamos um esfor\u00e7o de s\u00edntese que possibilita uma observa\u00e7\u00e3o de grande amplitude e de menor n\u00edvel de aprofundamento.<\/p>\n<p>Para tanto, dividimos o artigo em tr\u00eas se\u00e7\u00f5es. Na primeira, apresentamos a din\u00e2mica de acumula\u00e7\u00e3o de capital no s\u00e9culo XXI, partindo da crise da d\u00e9cada de 1970. Na segunda, relacionamos o poder das finan\u00e7as frente \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es sociais, pol\u00edticas e tecnol\u00f3gicas. E na terceira, expomos a rela\u00e7\u00e3o da crise da \u201cforma-valor\u201d com a crise do indiv\u00edduo moderno e a rela\u00e7\u00e3o do desenvolvimento capitalista com a cat\u00e1strofe ambiental.<\/p>\n<p><strong><em>A din\u00e2mica de acumula\u00e7\u00e3o de capital no s\u00e9culo XXI<\/em><\/strong><\/p>\n<p>No in\u00edcio da d\u00e9cada de 1970, Ernest Mandel <strong>[1]<\/strong> defendeu a tese de que o aumento da composi\u00e7\u00e3o org\u00e2nica do capital, devido \u00e0 chegada de uma nova revolu\u00e7\u00e3o industrial, originou um per\u00edodo de estagna\u00e7\u00e3o no crescimento econ\u00f4mico, o chamado capitalismo tardio. As an\u00e1lises de Mandel foram inovadoras e levaram em considera\u00e7\u00e3o uma tecnologia industrial que ainda era pouco difundida. Nesse sentido, o autor foi um dos primeiros analistas das mudan\u00e7as na forma de acumula\u00e7\u00e3o de capital na d\u00e9cada de 1970.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, o processo de acumula\u00e7\u00e3o ocorrido ao longo da segunda metade do s\u00e9culo XX produziu transforma\u00e7\u00f5es estruturais: da presen\u00e7a de eurod\u00f3lares na Europa na d\u00e9cada de 1960, passando pelos petrod\u00f3lares que l\u00e1 estavam circulando na d\u00e9cada de 1970, chegando ao endividamento das economias do terceiro mundo na d\u00e9cada de 1980 e concluindo com o surgimento do Estado empresa na d\u00e9cada de 1990. Para que essas transforma\u00e7\u00f5es ocorressem, foram necess\u00e1rias mudan\u00e7as jur\u00eddicas e institucionais favor\u00e1veis ao aumento do fluxo de circula\u00e7\u00e3o de capitais entre diferentes economias nacionais. Tais processos foram entendidos como uma desregulamenta\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel ao capital, que diminuiu os investimentos e favoreceu as fus\u00f5es e aquisi\u00e7\u00f5es, levando ao lento crescimento da economia e ao desemprego. O economista franc\u00eas Fran\u00e7ois Chesnais <strong>[2] <\/strong>argumentou que essas novas caracter\u00edsticas da economia criadas pela <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/2023\/02\/06\/mundializacao-do-capital\/\">mundializa\u00e7\u00e3o do capital<\/a> tornaram o sistema insaci\u00e1vel quanto ao objetivo de acumular.<\/p>\n<p>Essa economia consolidada sob um mercado financeiro insaci\u00e1vel tamb\u00e9m buscava compensar a queda das taxas de lucro ocorrida desde a d\u00e9cada de 1970. O trio de economistas canadenses Smith, Butovsky e Watterton <strong>[3]<\/strong> fez essa contextualiza\u00e7\u00e3o e argumentou que a economia chinesa passou a funcionar como um estabilizador da economia mundial desde a d\u00e9cada de 1990, pois, ao produzir e vender produtos mais baratos para o mercado mundial, possibilitou que os trabalhadores do mundo ocidental se defendessem da queda do poder de compra causado pela redu\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios.<\/p>\n<p>Outra interpreta\u00e7\u00e3o desse mercado financeiro foi realizada pelo trio de economistas gregos Sotiropoulos, Milios e Lapatsioras <strong>[4]<\/strong>. Estes autores realizaram a an\u00e1lise marxista da informa\u00e7\u00e3o para mostrar que ela \u00e9 necessariamente assim\u00e9trica, e n\u00e3o transparente, no capitalismo e a complementaram com a an\u00e1lise foucaultiana da governamentalidade, afirmando que a financeiriza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma tecnologia de poder e os derivativos s\u00e3o uma inova\u00e7\u00e3o institucional que comensura diferentes riscos concretos por meio de um crit\u00e9rio de efici\u00eancia. Com essa an\u00e1lise, os tr\u00eas autores mostraram que o pensamento heterodoxo em economia ainda tem limita\u00e7\u00f5es para compreender a informa\u00e7\u00e3o e a hierarquia nos mercados financeiros.<\/p>\n<p><strong><em>As crises social e pol\u00edtica do mundo contempor\u00e2neo<\/em><\/strong><\/p>\n<p>No mundo contempor\u00e2neo observamos crises sociais e pol\u00edticas que est\u00e3o relacionadas \u00e0s finan\u00e7as hipertrofiadas, comentadas na primeira se\u00e7\u00e3o deste artigo. Assim, apresentamos tr\u00eas refer\u00eancias que estabelecem essas rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Wolfgang Streek <strong>[5]<\/strong> reconstruiu a crise criada no regime de acumula\u00e7\u00e3o posterior \u00e0 II Guerra Mundial, precisamente na Am\u00e9rica do Norte e na Europa Ocidental. Para esse autor, o colapso financeiro de 2008 transformou-se em uma crise financeira de propor\u00e7\u00f5es globais e, al\u00e9m disso, mostrou que o desequil\u00edbrio \u00e9 a regra do sistema capitalista, muito mais do que sua exce\u00e7\u00e3o. Sua reconstitui\u00e7\u00e3o revela que a infla\u00e7\u00e3o da d\u00e9cada de 1970 foi o resultado de batalhas ocorridas nos mercados de trabalho nacionais. J\u00e1 na d\u00e9cada de 1980, as tens\u00f5es entre mercado e democracia resultaram no aumento da d\u00edvida p\u00fablica. Durante a d\u00e9cada de 1990 e no in\u00edcio dos anos 2000, as referidas tens\u00f5es foram resolvidas com o keynesianismo privado, ou seja, endividamento privado. Por fim, com a crise de 2008, as for\u00e7as democr\u00e1ticas sofreram mais um conjunto de derrotas para o capital mundializado.<\/p>\n<p>Wendy Brown <strong>[6]<\/strong> faz uma an\u00e1lise marxista para compreender o ataque do capital ao Estado e a consequente privatiza\u00e7\u00e3o do bem comum. Amparada na an\u00e1lise foucaultiana, observa que o sujeito da troca e da satisfa\u00e7\u00e3o foi transformado no sujeito da competi\u00e7\u00e3o e do aprimoramento do capital humano. A autora buscou ir al\u00e9m da narrativa comum da esquerda para o surgimento dos novos populismos de extrema-direita. Para tanto, buscou avaliar outras quatro tem\u00e1ticas, quais sejam, a cultura pol\u00edtica neoliberal, a produ\u00e7\u00e3o subjetiva neoliberal e ir al\u00e9m das condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e dos racismos.<\/p>\n<p>Brown mostra que a racionalidade neoliberal preparou o terreno para mobilizar e legitimar as for\u00e7as antidemocr\u00e1ticas da segunda metade do s\u00e9culo XX. Por isso, seu livro busca teorizar o ineditismo da situa\u00e7\u00e3o atual, um est\u00e1gio da hist\u00f3ria em que a liberdade neoliberal inspira uma extrema-direita possuidora de um discurso de liberdade justificador das viola\u00e7\u00f5es que asseguram a hegemonia branca, masculina e crist\u00e3. Para a autora, o neoliberalismo \u00e9 oposto \u00e0 pol\u00edtica de planejamento e justi\u00e7a liberal realizada pelo Estado e tornou-se possuidor de uma moralidade tradicional fundada em normas familiares patriarcais que responsabilizam os indiv\u00edduos masculinos, e n\u00e3o o Estado.<\/p>\n<p>Gregoire Chamayou <strong>[7]<\/strong> busca compreender os novos mecanismos de conten\u00e7\u00e3o do neoliberalismo ao focar sua an\u00e1lise em uma sociedade ingovern\u00e1vel que se tornou insubmissa e oferece risco aos lucros dos neg\u00f3cios. A an\u00e1lise do fil\u00f3sofo est\u00e1 centrada no per\u00edodo posterior \u00e0 crise econ\u00f4mica de 1970, momento em que o capital criou formas alternativas de governar a popula\u00e7\u00e3o. Assim, houve uma militariza\u00e7\u00e3o das teorias gerenciais e governamentais. Sua an\u00e1lise mostra que a empresa funciona como uma unidade de governo, o seu foco est\u00e1 voltado para os novos dispositivos de poder e seu argumento mostra as bases anal\u00edticas e autorit\u00e1rias do neoliberalismo.<\/p>\n<p>Para Chamayou, o arsenal de guerra discursivo do capital est\u00e1 voltado contra seis alvos. Primeiro, a insubmiss\u00e3o dos trabalhadores de baixa qualifica\u00e7\u00e3o. Segundo, o desvio dos gerentes em rela\u00e7\u00e3o aos interesses dos acionistas. Terceiro, o ativismo existente contra as grandes corpora\u00e7\u00f5es. Quarto, as contesta\u00e7\u00f5es contra as corpora\u00e7\u00f5es em escala internacional. Quinto, a amea\u00e7a de regula\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Sexto, a ingovernabilidade da pr\u00f3pria democracia. Esses s\u00e3o os elementos que comp\u00f5em o teatro de guerra contempor\u00e2neo observado pelo autor.<\/p>\n<p>Por fim, Chamayou observa que a sociedade ingovern\u00e1vel tem seu fundamento na crise social. Esta se apresenta para o analista social por meio do aumento das doen\u00e7as mentais, dos crimes violentos, dos fen\u00f4menos de fratura social, do controle policial dos comportamentos, da aceita\u00e7\u00e3o das atitudes hedonistas, da inquieta\u00e7\u00e3o perante o futuro, da perda de confian\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es e do sentimento de que as respostas do passado n\u00e3o funcionam mais.<\/p>\n<p><strong><em>A crise do indiv\u00edduo moderno e a crise clim\u00e1tica<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Diante dos variados tipos de crises existentes na contemporaneidade, tamb\u00e9m notamos que a crise do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista se expressa desde o indiv\u00edduo at\u00e9 o funcionamento do meio ambiente, e as apresentaremos por meio de mais tr\u00eas refer\u00eancias sobre o tema.<\/p>\n<p>Alselm Jappe <strong>[8]<\/strong> relaciona o capitalismo com o narcisismo. Seu primeiro argumento \u00e9 o de que n\u00e3o h\u00e1 como saciar a sociedade que busca incessantemente acumular dinheiro. N\u00e3o por acaso, faz men\u00e7\u00e3o ao fil\u00f3sofo I. Kant para contrari\u00e1-lo, pois, j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 como conceber uma sociedade que caminha constantemente para o progresso.<\/p>\n<p>Seu segundo argumento \u00e9 o de que a crise capitalista impede que todos os indiv\u00edduos de uma sociedade se transformem em indiv\u00edduos modernos, pois a quarta revolu\u00e7\u00e3o industrial tornou a maior parte dos seres humanos sup\u00e9rfluos, ou seja, eles n\u00e3o conseguem emprego para se realizarem na sociedade burguesa.<\/p>\n<p>Em seu terceiro argumento, Jappe afirma que todo tipo de pensamento contempor\u00e2neo, para que seja cr\u00edtico, precisa fazer a cr\u00edtica da economia pol\u00edtica. Por fim, afirma tamb\u00e9m que o fracasso da difus\u00e3o do indiv\u00edduo moderno tende a torn\u00e1-lo um indiv\u00edduo violento, um \u201chomicida-suicida\u201d. Assim, conclui o autor, a racionalidade mercantil leva ao surgimento de ideologias suicidas, consequentemente, para superar a crise do indiv\u00edduo moderno \u00e9 necess\u00e1rio superar a \u201cforma-valor\u201d existente no capitalismo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da crise do indiv\u00edduo moderno, h\u00e1 uma crise ambiental em processo que mostra outra faceta da crise capitalista. Eduardo S\u00e1 Barreto <strong>[9]<\/strong> tem como principal proposi\u00e7\u00e3o a de que a economia capitalista causa uma trag\u00e9dia ambiental. E, se no s\u00e9culo XX o debate sobre a mudan\u00e7a clim\u00e1tica focava nas formas de evitar os problemas clim\u00e1ticos, no s\u00e9culo XXI, o debate se volta para as formas de adapta\u00e7\u00e3o a estes problemas.<\/p>\n<p>No debate sobre as energias alternativas, o <em>mainstream<\/em> dos cientistas questiona se \u00e9 poss\u00edvel desvincular o consumo de energia do crescimento econ\u00f4mico. Entretanto, Barreto \u00e9 taxativo ao afirmar que s\u00e3o pouco promissoras as estrat\u00e9gias de redu\u00e7\u00e3o do conte\u00fado geral de carbono da matriz energ\u00e9tica por meio da promo\u00e7\u00e3o de fontes renov\u00e1veis e de energia nuclear.<\/p>\n<p>Barreto direciona sua cr\u00edtica aos pesquisadores do problema energ\u00e9tico que n\u00e3o possuem a m\u00ednima compreens\u00e3o sobre a iman\u00eancia do impulso de expans\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o como elemento inerente ao modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista. Assim, o autor assevera que, por um lado, o consumo de energia e o n\u00edvel da produ\u00e7\u00e3o est\u00e3o relacionados, pois, com o avan\u00e7o das for\u00e7as produtivas, realiza-se uma expans\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o. Consequentemente, aumenta a demanda e o consumo de energia. Por outro lado, observa-se que as tecnologias possuem um car\u00e1ter \u00fatil do ponto de vista do valor de uso e s\u00e3o entendidas como elementos constitutivos do capital. Assim, mesmo com a cria\u00e7\u00e3o de tecnologias renov\u00e1veis ou menos agressoras ao meio ambiente, as rela\u00e7\u00f5es mais importantes para o progresso da valoriza\u00e7\u00e3o permanecem preservadas. Tal fato evidencia a taxa de lucro enquanto principal for\u00e7a da produ\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da teoriza\u00e7\u00e3o cr\u00edtica apresentada por Barreto, contemporaneamente n\u00e3o faltam exemplos para serem listados sobre trag\u00e9dias ambientais que ocorrem em diferentes partes do globo terrestre, onde existem diferentes tipos de regimes pol\u00edticos. Sobre esta tem\u00e1tica, Saskia Sassen <strong>[10]<\/strong> afirma que o conceito de expuls\u00f5es \u00e9 mais adequado para entender as patologias do capitalismo global do que o conceito de desigualdade. Sua hip\u00f3tese \u00e9 a de que, nas diferentes crises globais, existem tend\u00eancias sist\u00eamicas emergentes conformadas por poucas din\u00e2micas b\u00e1sicas e que se torna necess\u00e1ria a realiza\u00e7\u00e3o conjunta de pesquisa emp\u00edrica e recodifica\u00e7\u00e3o conceitual. Com esse novo arcabou\u00e7o intelectual, as expuls\u00f5es tornam-se um processo de sele\u00e7\u00e3o selvagem que ocorre em todo o mundo.<\/p>\n<p>Sassen explica que as distin\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e geogr\u00e1ficas deixaram de ser eficazes para compreenderem as din\u00e2micas sist\u00eamicas e profundas que atuam nas expuls\u00f5es. Essa transforma\u00e7\u00e3o ocorreu ap\u00f3s 1980, marco hist\u00f3rico em que o sistema capitalista realizou duas grandes mudan\u00e7as: as terceiriza\u00e7\u00f5es globais passaram a operar em cidades globais com fun\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas avan\u00e7adas; e a ascens\u00e3o do setor financeiro na rede de cidades globais, criando as redes de servi\u00e7os globais.<\/p>\n<p>Assim, ap\u00f3s 1980 foram reinventados os m\u00e9todos de acumula\u00e7\u00e3o primitiva de capital. Por meio destas constata\u00e7\u00f5es, a autora defende a tese de que est\u00e3o sendo criadas forma\u00e7\u00f5es predat\u00f3rias \u2013 n\u00e3o apenas elites predat\u00f3rias \u2013 que concentram riqueza e criam o fen\u00f4meno das expuls\u00f5es. Seus principais exemplos evidenciam como as finan\u00e7as globais podem criar expuls\u00f5es ao atuarem no mercado de terras, na cria\u00e7\u00e3o de novos ativos financeiros e na minera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong><em>Considera\u00e7\u00f5es finais: crises conexas do capitalismo e estado de guerra<\/em><\/strong><\/p>\n<p>O objetivo deste artigo foi apresentar diferentes refer\u00eancias contempor\u00e2neas que tratam das crises econ\u00f4micas, sociais, pol\u00edticas e ambientais existentes atualmente. Assim, na primeira se\u00e7\u00e3o apresentamos as caracter\u00edsticas da din\u00e2mica de acumula\u00e7\u00e3o de capital no s\u00e9culo XXI. Na segunda se\u00e7\u00e3o focamos na crise do capitalismo democr\u00e1tico e em suas consequ\u00eancias sociais e pol\u00edticas. Por fim, na terceira se\u00e7\u00e3o, apontamos para as rela\u00e7\u00f5es entre capitalismo, narcisismo e trag\u00e9dia ambiental.<\/p>\n<p>As obras apresentadas neste artigo possuem como refer\u00eancias principais K. Marx, S. Freud e M. Foucault. Com tais autores apreendemos diferentes facetas do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, quais sejam, as contradi\u00e7\u00f5es de seu funcionamento ao produzir mercadorias, a psique narc\u00edsica e doentia de seu indiv\u00edduo e, por fim, a governamentalidade que naturalizou as regras do mercado.<\/p>\n<p>As refer\u00eancias apresentadas ao longo do artigo tamb\u00e9m mostram diferentes aspectos de um mundo que funciona sob a crise do progresso. Assim como Paulo Arantes <strong>[11]<\/strong> afirmou, vivemos em um per\u00edodo em que existem expectativas decrescentes em rela\u00e7\u00e3o ao futuro, fato que cria um estado de guerra permanente <strong>[12]<\/strong>. Logo, por mais que o indiv\u00edduo tente se desviar desse estado de guerra, de alguma forma, direta ou indiretamente, ele ser\u00e1 afetado pelo conjunto de crises estruturais que se desenvolvem.<\/p>\n<p>Como afirmamos na introdu\u00e7\u00e3o, este artigo apresenta algumas refer\u00eancias sobre as crises conexas do capitalismo contempor\u00e2neo <strong>[13]<\/strong>. N\u00e3o \u00e9 uma s\u00edntese exaustiva deste campo de estudo, mas sim uma teia em constru\u00e7\u00e3o cujo objetivo inicial \u00e9 compreender as crises atuais da contemporaneidade, relacion\u00e1-las e hierarquiz\u00e1-las para, em um segundo momento, fornecer meios para refletirmos sobre as poss\u00edveis formas de supera\u00e7\u00e3o da crise.<\/p>\n<p><strong>Cr\u00e9ditos da imagem:<\/strong> Guernica de Picasso &#8211; Wikip\u00e9dia.<\/p>\n<p><strong><em>Notas<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>[1]<\/strong> MANDEL, Ernest. <em>O capitalismo tardio.<\/em> 2. ed. S\u00e3o Paulo: Nova Cultural, 1985.<\/p>\n<p><strong>[2]<\/strong> CHESNAIS, Fran\u00e7ois. <em>A finan\u00e7a mundializada: <\/em>ra\u00edzes sociais e pol\u00edticas, configura\u00e7\u00e3o, consequ\u00eancias. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2005. Uma resenha desse livro pode ser lida <a href=\"https:\/\/eleuterioprado.blog\/wp-content\/uploads\/2010\/07\/baixar-resenha-32.pdf\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p><strong>[3] <\/strong>SMITH, Murray E. G.; BUTOVSKY, Jonah; WATTERTON, Josh. <em>Twilight capitalism<\/em>: Karl Marx and the decay of the profit system<em>.<\/em> Halifax &amp; Winnipeg: Fernwood Publishing, 2021. Uma resenha desse livro pode ser lida <a href=\"https:\/\/thenextrecession.wordpress.com\/2021\/11\/08\/twilight-capitalism\/\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p><strong>[4] <\/strong>SOTIROPOULOS, Dimitris P.; MILIOS, John; LAPATSIORAS, Spyros. <em>A political economy of contemporary capitalism and its crises<\/em>: demystifying finance. London: Routledge, 2013. Uma resenha desse livro pode ser lida <a href=\"https:\/\/marxandphilosophy.org.uk\/reviews\/7859_a-political-economy-of-contemporary-capitalism-and-its-crisis-review-by-hans-g-despain\/\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p><strong>[5] <\/strong>STREEK, Wolfgang. As crises do capitalismo global. <em>Novos Estudos CEBRAP<\/em>, v. 92, p. 35-56, mar. 2012. Uma resenha do livro <em>Tempo comprado<\/em> pode ser lida <a href=\"https:\/\/www.revistas.usp.br\/filosofiaalema\/article\/view\/165369\/161523\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p><strong>[6] <\/strong>BROWN, Wendy. <em>Nas ru\u00ednas do neoliberalismo<\/em>: a ascens\u00e3o da pol\u00edtica antidemocr\u00e1tica no Ocidente. S\u00e3o Paulo: Editora Filos\u00f3fica Politeia, 2019. Uma resenha desse livro pode ser lida <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/mulheresnafilosofia\/resenhas\/resenha-de-nas-ruinas-do-neoliberalismo-a-ascensao-da-politica-antidemocratica-no-ocidente-de-wendy-brown\/\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p><strong>[7]<\/strong> CHAMAYOU, Gr\u00e9goire. <em>A sociedade ingovern\u00e1vel<\/em>: uma genealogia do liberalismo autorit\u00e1rio<em>.<\/em> S\u00e3o Paulo: Ubu Editora, 2020. Uma resenha desse livro pode ser lida <a href=\"https:\/\/www.reveduc.ufscar.br\/index.php\/reveduc\/article\/view\/6184\/1375\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p><strong>[8] <\/strong>JAPPE, Anselm. <em>A sociedade autof\u00e1gica<\/em>: capitalismo, desmesura e autodestrui\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Elefante, 2021. Uma resenha desse livro pode ser lida <a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-sociedade-autofagica\/\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p><strong>[9] <\/strong>BARRETO, Eduardo S\u00e1. <em>O capital na estufa<\/em>: para uma cr\u00edtica das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Rio de Janeiro: Consequ\u00eancia, 2018. Uma resenha de um livro mais recente do autor, que est\u00e1 relacionado com <em>O capital na estufa<\/em>, pode ser lida <a href=\"https:\/\/www.niepmarx.com.br\/index.php\/MM\/article\/view\/546\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p><strong>[10] <\/strong>SASSEN, Saskia. <em>Expuls\u00f5es<\/em>: brutalidade e complexidade na economia global. Rio de Janeiro\/S\u00e3o Paulo: Paz e Terra, 2016. Uma resenha desse livro pode ser lida <a href=\"https:\/\/novosestudos.com.br\/o-capitalismo-de-expulsoes-e-seus-descontentes\/#gsc.tab=0\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p><strong>[11] <\/strong>ARANTES, Paulo Eduardo. <em>O novo tempo do mundo<\/em>: e outros ensaios sobre a era da emerg\u00eancia. 1. ed. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2014. Uma resenha desse livro pode ser lida <a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2014\/09\/24\/contratempo-o-novo-tempo-do-mundo-de-paulo-arantes\/\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p><strong>[12] <\/strong>Sobre esse tema, ver: ALLIEZ, \u00c9ric; MAURIZZIO, Lazzarato. <em>Guerras e capital<\/em>. 1. ed. S\u00e3o Paulo: Ubu Editora, 2021; KURZ, Robert. <em>A guerra de ordenamento mundial<\/em>: o fim da soberania e as metamorfoses do imperialismo na era da globaliza\u00e7\u00e3o. 1. ed. Lisboa: [s. n.], 2019. Uma resenha do livro <em>Guerras e capital<\/em> pode ser lida <a href=\"https:\/\/marxandphilosophy.org.uk\/reviews\/17807_wars-and-capital-by-eric-alliez-and-maurizio-lazzarato-reviewed-by-neal-miller\/\">aqui<\/a>. Uma resenha do livro <em>A guerra de ordenamento mundial<\/em> pode ser lida <a href=\"http:\/\/www.obeco-online.org\/manfred_sohn.htm\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p><strong>[13]<\/strong> Sobre esse tema, ver: SAFATLE, Vladimir. <em>Alfabeto das colis\u00f5es<\/em>: filosofia pr\u00e1tica em modo cr\u00f4nico. S\u00e3o Paulo: Ubu Editora, 2024.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Logo, por mais que o indiv\u00edduo tente se desviar desse estado de guerra, de alguma forma, direta ou indiretamente, ele ser\u00e1 afetado pelo conjunto de crises estruturais que se desenvolvem.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":680,"featured_media":1555,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[196],"tags":[577,142,15,232],"class_list":["post-1554","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","tag-crises-conexas-do-capitalismo-contemporaneo","tag-desenvolvimento-economico","tag-desigualdade","tag-neoliberalismo"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-content\/uploads\/sites\/183\/2024\/07\/Guernica.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1554","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/680"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1554"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1554\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1557,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1554\/revisions\/1557"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1555"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1554"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1554"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1554"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}