{"id":1612,"date":"2024-11-30T09:20:32","date_gmt":"2024-11-30T12:20:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/?p=1612"},"modified":"2025-03-27T11:02:33","modified_gmt":"2025-03-27T14:02:33","slug":"teatro-trabalho-e-capitalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/sobreeconomia\/2024\/11\/30\/teatro-trabalho-e-capitalismo\/","title":{"rendered":"Teatro, trabalho e capitalismo"},"content":{"rendered":"<p>Por: <strong>Leonardo Dias Nunes<\/strong><\/p>\n<p><strong>I. Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O artigo relaciona os espet\u00e1culos teatrais <em>\u00d3pera febril<\/em> e <em>Tr\u00eas pratos de trigo para tr\u00eas palhaces tristes<\/em> <strong>[1]<\/strong> com pesquisas realizadas na \u00e1rea das ci\u00eancias sociais <strong>[2]<\/strong>. Enfatiza-se que este tipo de rela\u00e7\u00e3o auxilia as estudantes e os estudantes de gradua\u00e7\u00e3o a enriquecerem e consolidarem os conhecimentos adquiridos nas aulas e leituras. Para tanto, o artigo foi dividido nas seguintes se\u00e7\u00f5es al\u00e9m dessa introdu\u00e7\u00e3o. A segunda se\u00e7\u00e3o discorre sobre o espet\u00e1culo <em>\u00d3pera febril<\/em> <strong>[3]<\/strong>. A terceira se\u00e7\u00e3o discorre sobre a precariza\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de trabalho apresentada no espet\u00e1culo <em>Tr\u00eas pratos de trigo para tr\u00eas palhaces tristes<\/em> <strong>[4]<\/strong>. Por fim, nas considera\u00e7\u00f5es finais s\u00e3o relacionados os temas abordados nos espet\u00e1culos teatrais com pesquisas e debates recentes sobre as transforma\u00e7\u00f5es do capitalismo contempor\u00e2neo e do mundo do trabalho.<\/p>\n<p><strong>II. Da ind\u00fastria t\u00eaxtil do s\u00e9culo XX \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de trabalho no s\u00e9culo XXI<\/strong><\/p>\n<p>O espet\u00e1culo <em>\u00d3pera febril<\/em> parte da pesquisa hist\u00f3rica sobre as condi\u00e7\u00f5es de trabalho e sociabilidade existentes na Tecelagem Parahyba \u2013 ind\u00fastria t\u00eaxtil inaugurada em 1925 e localizada na cidade de S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos \u2013 e chega nas condi\u00e7\u00f5es de trabalho precarizado do mundo contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>Com uma pesquisa feita no Arquivo P\u00fablico de S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos, a pe\u00e7a mostra documentos hist\u00f3ricos que evidenciam os procedimentos de sele\u00e7\u00e3o, controle e avalia\u00e7\u00e3o do trabalho realizados na tecelagem. Assim, s\u00e3o observadas as t\u00e9cnicas utilizadas pelo capital para controlar e organizar o trabalho ap\u00f3s a terceira d\u00e9cada do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Ao longo de um espet\u00e1culo em que os sons, a m\u00fasica e o controle do tempo e dos movimentos se misturam, \u00e9 evidenciada outra caracter\u00edstica daquela recente sociedade urbana e industrial joseense e que ainda \u00e9 mantida nos dias de hoje: apenas as mulheres realizam o trabalho reprodutivo. Al\u00e9m disso, \u00e9 apresentada a atual necessidade do uso de medicamentos para manter o desempenho no trabalho.<\/p>\n<p>Quando o espet\u00e1culo <em>\u00d3pera febril<\/em> passa a apresentar uma cr\u00edtica \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de trabalho no capitalismo contempor\u00e2neo, os problemas da ind\u00fastria t\u00eaxtil s\u00e3o substitu\u00eddos por um problema de ordem global: a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho causada pela nova revolu\u00e7\u00e3o industrial e sintetizada no conceito de uberiza\u00e7\u00e3o do trabalho <strong>[5]<\/strong>. Nesse momento, a \u00faltima reforma trabalhista realizada pelo presidente Michel Temer \u00e9 criticada, mostrando que n\u00e3o s\u00e3o apenas os motoristas e entregadores de aplicativo que sofrem com a uberiza\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m atrizes e atores &#8211; e porque n\u00e3o dizer professoras e professores. Antes das luzes se apagarem, de forma muito perspicaz, \u00e9 sugerido que os avan\u00e7os relacionados \u00e0 intelig\u00eancia artificial podem precarizar ainda mais as condi\u00e7\u00f5es de trabalho no meio art\u00edstico.<\/p>\n<p><strong>III. O avesso da palha\u00e7aria: a condi\u00e7\u00e3o do artista na sociedade do desempenho<\/strong><\/p>\n<p>No espet\u00e1culo <em>Tr\u00eas pratos de trigo para tr\u00eas palhaces tristes<\/em> s\u00e3o apresentadas as condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias de vida e de trabalho de dois palha\u00e7os e uma palha\u00e7a. O espet\u00e1culo se passa no camarim em que o trio se prepara para trabalhar e posteriormente volta para descansar. Nesse local em que n\u00e3o chega a luz dos holofotes, o trio reproduz o rotineiro ciclo de trabalho: dormir, acordar, vestir-se para o espet\u00e1culo, trabalhar, machucar-se, desvestir-se, comer, dormir. At\u00e9 o momento em que se deparam com um certo tipo de escassez. E como o trio lida com a escassez? Na pe\u00e7a foi adotado um procedimento fant\u00e1stico para solucionar o problema. Assim, o sufocante ciclo do trabalho repetitivo foi superado, recuperando a fantasia existente na profiss\u00e3o.<\/p>\n<p><em>Tr\u00eas pratos de trigo para tr\u00eas palhaces tristes<\/em> apresenta a tristeza causada pela precariza\u00e7\u00e3o do trabalho daquelas pessoas que escolheram trabalhar com a arte de fazer rir. Mesmo para fazer rir \u00e9 preciso ter condi\u00e7\u00f5es materiais m\u00ednimas e, na aus\u00eancia destas condi\u00e7\u00f5es, como tratar das les\u00f5es musculares, ortop\u00e9dicas, vocais e estomacais? Como criar hist\u00f3rias e personagens? Diante dessa conjuntura, nos camarins do s\u00e9culo XXI, os palha\u00e7os sofrem com a intensifica\u00e7\u00e3o da precariza\u00e7\u00e3o do trabalho.<\/p>\n<p><strong>IV. Considera\u00e7\u00f5es finais<\/strong><\/p>\n<p>As apresenta\u00e7\u00f5es dos espet\u00e1culos <em>\u00d3pera febril<\/em> e <em>Tr\u00eas pratos de trigo para tr\u00eas palhaces tristes<\/em> ocorreram no Teatro Marcelo Denny, em S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos, no final de semana ap\u00f3s o t\u00e9rmino do <em>48\u00b0 Encontro Anual da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias Sociais (ANPOCS)<\/em>, realizado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), entre os dias 23 e 25 de outubro de 2024.<\/p>\n<p>Os temas tratados nos espet\u00e1culos em destaque dialogam diretamente com os resultados de pesquisas apresentados na ANPOCS. Como exemplo podem ser citadas as pesquisas de Elide Rugai Bastos <strong>[6] <\/strong>sobre o pensamento conservador no Brasil, de Lena Lavinas <strong>[7] <\/strong>e Isadora de Andrade Guerreiro <strong>[8]<\/strong> sobre as consequ\u00eancias sociais da financeiriza\u00e7\u00e3o da riqueza, de Ricardo Antunes <strong>[9] <\/strong>sobre a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho no capitalismo contempor\u00e2neo e, por fim, de S\u00e9rgio Amadeu da Silveira <strong>[10]<\/strong> e Rafael de Almeida Evangelista <strong>[11]<\/strong> sobre as consequ\u00eancias sociais do uso da intelig\u00eancia artificial.<\/p>\n<p>Enfim, a realiza\u00e7\u00e3o dos dois eventos citados n\u00e3o est\u00e1 relacionada. Um \u00e9 art\u00edstico e o outro \u00e9 cient\u00edfico. Entretanto, eles foram colocados lado a lado nesse artigo porque os dois espet\u00e1culos teatrais apresentam com beleza e cr\u00edtica alguns dos complexos problemas que os investigadores do mundo do trabalho buscam compreender, quais sejam, terceiriza\u00e7\u00e3o, precariza\u00e7\u00e3o, uberiza\u00e7\u00e3o, plataformiza\u00e7\u00e3o, enfraquecimento dos sindicatos e consequ\u00eancias sociais do uso da intelig\u00eancia artificial. Assim, lado a lado, arte e ci\u00eancia ajudam a compreender criticamente os problemas contempor\u00e2neos.<\/p>\n<p>Cr\u00e9ditos da imagem que ilustra o artigo: Caren Ruaro em <em>\u00d3pera febril<\/em> \u2013 acervo pessoal do autor.<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p><strong>[1]<\/strong> Os dois espet\u00e1culos foram apresentados na <em>12\u00aa Mostra de Teatro da Rua Eliza<\/em>. Mais informa\u00e7\u00f5es podem ser encontradas <a href=\"https:\/\/www.teatromarcelodenny.art\/\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p><strong>[2]<\/strong> As pesquisadoras e pesquisadores citados no artigo fizeram apresenta\u00e7\u00f5es de trabalhos no <em>48\u00b0 Encontro Anual da Associa\u00e7\u00e3o Anual da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias Sociais (ANPOCS)<\/em>. Mais informa\u00e7\u00f5es sobre o evento podem ser encontradas <a href=\"https:\/\/www.encontro2024.anpocs.org.br\/\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p><strong>[3]<\/strong> <em>\u00d3pera febril<\/em> \u2013 Cia do Trailler \u2013 Teatro em Movimento (S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos \u2013 SP).<\/p>\n<p><strong>[4]<\/strong> <em>Tr\u00eas pratos de trigo para tr\u00eas palhaces tristes<\/em> \u2013 Trupe T\u00f3patu (S\u00e3o Carlos \u2013 SP).<\/p>\n<p><strong>[5]<\/strong> Para mais informa\u00e7\u00f5es sobre a uberiza\u00e7\u00e3o do trabalho, s\u00e3o sugeridos os trabalhos realizados por Ludmila Costhek Ab\u00edlio.<\/p>\n<p><strong>[6]<\/strong> Elide Rugai Bastos \u00e9 professora Titular do Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), desenvolve pesquisas na \u00e1rea de pensamento social no Brasil e \u00e9 autora do livro <em>As criaturas de Prometeu. Gilberto Freyre e a forma\u00e7\u00e3o da sociedade brasileira<\/em>. 1\u00aa. ed. S\u00e3o Paulo: Global, 2006.<\/p>\n<p><strong>[7]<\/strong> Lena Lavinas \u00e9 professora Titular do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e desenvolve pesquisas sobre os impactos sociais da financeiriza\u00e7\u00e3o. \u00c9 organizadora do livro <em>Financeiriza\u00e7\u00e3o: crise, estagna\u00e7\u00e3o e desigualdade<\/em>. Editora Contracorrente, 2024; e autora do livro <em>Takeover of social policy by financialization<\/em>. London: Palgrave Macmillan US, 2017.<\/p>\n<p><strong>[8]<\/strong> Isadora de Andrade Guerreiro \u00e9 professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU) da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) e desenvolve pesquisas sobre a financeiriza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o urbano.<\/p>\n<p><strong>[9]<\/strong> Ricardo Antunes \u00e9 professor Titular de sociologia do Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), desenvolve pesquisas sobre as novas fei\u00e7\u00f5es do mundo do trabalho no capitalismo contempor\u00e2neo e \u00e9 organizador do livro <em>Icebergs \u00e0 deriva: o trabalho nas plataformas digitais<\/em>. Boitempo Editorial, 2023.<\/p>\n<p><strong>[10]<\/strong> S\u00e9rgio Amadeu da Silveira \u00e9 professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), desenvolve pesquisas sobre as consequ\u00eancias sociais da intelig\u00eancia artificial e \u00e9 organizador do livro <em>Plataformiza\u00e7\u00e3o, intelig\u00eancia artificial e soberania de dados.<\/em> 1. ed. S\u00e3o Paulo: A\u00e7\u00e3o Educativa, 2023.<\/p>\n<p><strong>[11]<\/strong> Rafael de Almeida Evangelista \u00e9 pesquisador do Laborat\u00f3rio de Estudos Avan\u00e7ados em Jornalismo (Labjor) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e, nessa mesma institui\u00e7\u00e3o, \u00e9 professor do Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Divulga\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica e Cultural.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Os dois espet\u00e1culos teatrais apresentam com beleza e cr\u00edtica alguns dos complexos problemas que os investigadores do mundo do trabalho buscam compreender, quais sejam, terceiriza\u00e7\u00e3o, precariza\u00e7\u00e3o, uberiza\u00e7\u00e3o, plataformiza\u00e7\u00e3o, enfraquecimento dos sindicatos e consequ\u00eancias sociais do uso da intelig\u00eancia artificial. 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